Eu pedi a conta, ela não veio, sei que vai chegar, não sei como vou pagar.

Eu pedi a conta, ela não veio, sei que vai chegar, não sei como vou pagar.

Paulo Rebêlo | maio 2022


A cardiologista pede para refazer meus exames. Eu ri porque entendi. Quando médico pede novos testes, é porque deu zebra e precisa confirmar coisa ruim. Mas parece que agora a zebra sou eu.

Tem gente que passa a vida inteira para realizar um sonho e tem gente que perde a vida inteira sem sonho para realizar. Eu tive a sorte grande de realizar o maior sonho da minha vida ainda muito jovem: morar sozinho. Tudo que aconteceu depois, em termos de realizações e frustrações, nada mais foi do que o reflexo dessa decisão que tomei — e que um dia escreverei.

A maioria das pessoas da minha geração queria morar sozinha para ter liberdade. Eu queria morar sozinho para comer pizza e hambúrguer todo dia. 

E coca-cola. Litros de coca-cola.

Mesmo com dois empregos, aos 18 anos eu sabia que não ia ter dinheiro para realizar a dieta que planejei para mim. Estabeleci metas de economizar ao máximo durante o dia para poder comer pizza de noite. Café da manhã era Nescafé com bolacha seca. Almoço era miojo com sardinha.

Quase 30 anos depois, faço essas mesmas refeições, porém com significativas evoluções: agora passo requeijão na bolacha e troquei a sardinha enlatada pelo atum enlatado. Cada lata de atum custa o dobro da lata de sardinha, então é um upgrade digno de nota. 

Ainda não sei fazer café de verdade, mas ganhei de presente uma cafeteira super fácil e abandonei o Nescafé.

Não me orgulho de nada disso, apenas é assim.

Mesmo jovem aos 18, é claro que eu sempre soube que minha dieta dos sonhos seria um suicídio metabólico a longo prazo. Mas eu também sabia que nenhum jovem se importa com prazos longos. Porque todos nós temos certeza que vamos morrer cedo.

E se é para morrer cedo, que seja abraçado com uma pizza de quatro queijos. 

Trabalhei em dobro, tive quatro empregos simultâneos durante muitos anos, procurei frilas com empresas estrangeiras, trampei domingo a domingo e a perder de vista, tive raríssimas férias, dei aula particular para crianças (e eu detesto crianças), reutilizei talher de plástico e palito de fósforo, levava os guardanapos do bar para casa (com permissão do garçom), pulei inúmeras refeições e várias outras artimanhas econômicas. Sem nunca perder o foco na dieta.

Pela minha matemática biológica, a conta começaria a chegar aos 25 anos de idade. Pagaria sem reclamações. Sempre fui muito consciente de que o débito genético é inescapável e o débito biológico das escolhas até pode ser parcelado, mas com juros embutidos e progressivos.

Deu alguma zebra na expedição do meu boleto, pois a conta não chegou quando deveria chegar. 

Imaginei ter sido um atraso simples, me parecia óbvio que nesse ritmo eu não chegaria aos 30 com saúde. Continuei a esperar, inclusive porque aos 30 é quando o jovem fica velho e acha que precisa ter responsabilidade.

Cravado os 30, continuei em paz com minhas decisões gastro-suicidas. Mas quando os 30 passaram, o atraso na conta da bomba relógio passou a me preocupar. 

A essa altura, metade dos meus amigos já tinha problemas de pressão alta, colesterol, diabetes, ansiedade, fadiga muscular, cirrose hepática e um zilhão de outras quizilas diretas ou agregadas. 

A outra metade tinha limitações alimentares por causa de uma taxa ou outra. 

Comecei a perder companhia para rodízios de pizza. Com os quilos a mais no bucho, o jeito foi seguir comendo ainda mais pizza com coca-cola em níveis suficientes para alimentar um exército inteiro de Donas Redondas prestes a explodir. Ao menos até chegar a conta.

Não chegou, segui em frente, ciente que chegaria logo.

Até os 35 anos, a única fruta que eu comia na vida era caju. Em rodelas e banhado na cachaça, dentro de uma travessa ou num prato imundo no mercado público. Ou cortado em pedaços ou gomos dentro da caneca: meu velho e saudoso caju-amigo. 

Em termos de salada, a única folha que eu tinha notícia era o monte de alface dentro do Big Mac. E também a cebola caramelizada do Cheddar McMelt. Comi muita alface. E muita cebola caramelizada. Evitei o picles do Quarteirão. Ainda hoje evito.

Quando comecei a ver os 40 chegando perto, passei a cobrar a conta com mais regularidade aos médicos, mas cada checkup anual se transformava na alegria das minhas lombrigas e das pizzarias.

Houve um intervalo quando pensei ter achado a conta. Pela primeira vez na vida, em Brasília, a glicemia bateu 99 pontos. Eu esperava por isso desde a tenra infância, devido ao histórico familiar nítido e agudo. Pensei comigo mesmo: demorou, mas chegou; me lasquei, mas foi tudo consciente, agora começo a pagar.

Enganei-me. Aquela glicose de 99 virou um boleto com prazo de validade vencido.

Reduzi parcialmente o pudim de leite, passei a beber mais uísque ao invés de cerveja. Troquei o rum pelo gin. Considero que foram boas trocas. Evolutivas.

Macacos me mordam e a glicemia começou a baixar. Continuei a dieta, suavemente ajustada, enquanto esperava a conta. De novo pela matemática biológica, não teria mais jeito, o fim dessa farra do boi chegaria aos 40 e estávamos todos em paz: eu e minhas lombrigas bovinas. 

Admito, envergonhado, ter muito peso na consciência pela injustiça do universo. Também tenho desconforto psicológico em ser o único nas mesas dos bares que frequento sem tomar um remédio diário ou, quiçá, semanal.

Com a Covid-19 e meu trabalho de altíssima exposição social durante as eleições no final de 2020, tive certeza absoluta que minha conta viria embutida no DNA do coronavírus e não seria parcelada: me levaria para o além na primeira leva de papudinhos infectados. Quando começou o período eleitoral, tive que mudar de cidade de novo (pelo trabalho) e deixei um testamento pronto. 

Em dois anos de pandemia, tive dois resfriados e duas disenterias.

Comecei a cansar de tanto esperar, mas quando passou os 40 e nada de chegar a conta, comecei a acrescentar (é medo que fala?) algumas frutas estranhas na geladeira, tipo banana e maçã. Duas vezes por semana eu faço um esforço hercúleo e como essas coisas ruins. Também passei a comer um prato de salada uma vez por mês.

Eu deveria estar (estou) preocupado com os 50 dobrando a esquina do meu tempo particular, mas o que me preocupa hoje, realmente, é a teimosia do meu fígado: meus últimos exames e o último checkup mostram que as taxas de gordura hepática começaram a regredir por conta própria. Pior ainda, a glicemia tem baixado regularmente a cada ano dos últimos cinco. Está em 87. Quando me mudei aos 18 anos, tinha 85 nesse mesmo ranking glicêmico do capeta.

Meu fígado não faz o menor sentido, por motivos óbvios — basta ler os últimos 25 anos de crônicas arquivadas ou comprar meus 100 amores — e sempre foi a principal (a única) reclamação dos médicos, quando diziam: emagreça, a gordura hepática está um pouco acima da média, é melhor cuidar.

Um pouco acima? Meu senhor, acorde para Jezuis pelo amor de Jesus, um pouco acima da média meuzôvo, esse índice era para estar no topo do Monte Everest. 

E agora está “um pouco abaixo”. 

Eu sei o que você está pensando e vos digo: não é Jesus atuando. 

É algo muito mais cruel e sinistro. A conta vai chegar com todos os juros de mora e correção monetária de toda Via Láctea. Vai ser uma lapada só e não vai ser de cachaça. Virá reajustada pela inflação calórica dos últimos 30 anos, somada à reindexação metabólica dos 20 kg adicionais concentrados na pança e nas bochechas. 

Talvez a conta chegue aos 50, talvez amanhã ou daqui a três meses, talvez quando sair o resultado da próxima endoscopia, que pelos meus cálculos será a décima-quinta. 

Já faz muito tempo que não me dou mais o direito de ter expectativa de absolutamente nada ou de ninguém, inclusive de mim mesmo. Estou em paz se eu cair desacordado no meio da rua amanhã e não acordar; embora eu prefira que, se for assim, que seja sentado e no bar. 

Ou na pizzaria. 

Vou sofrer se cortar a pizza, hambúrguer, yakissoba e costelinha, mas tenho crédito para umas três vidas. A conta pode chegar parcelada, mas também pode chegar de uma vez só, me atropelando feito uma Scania desgovernada, passando por cima de tudo igual a uma jamanta sem freio. 

Da forma que chegar, qualquer que seja o valor a pagar, será justo e devido. 

Até lá, sigo com a mesma paz dos 18 anos das minhas escolhas e acho que consegui evoluir um pouco mais: aprendi a gostar de calzones e pepperoni. Troquei os sucrilhos de bolinhas coloridas pelo Nesfit. 

Nesfit de chocolate, porque ninguém é de ferro.


FOTO EM DESTAQUE

Ruínas das missões jesuíticas em San Ignacio Mini, Argentina.
Foto de 2001, em filme 35mm P&B c/ câmera Pentax MZ-7.
Digitalizada a 300 DPI em 2016.