Acho que a maldade no mundo piorou quando inventaram a cerveja long neck. Ela mudou o jeito que a gente encara a vida e as pessoas. Foi um processo paulatino. Fomos esquecendo a poesia que é dividir a cerveja com um desconhecido e deixamos de lado a arte de compartilhar a mesa.

Paulo Rebêlo 
NE10 | 29.fev.2016 | link

Acho que a maldade no mundo piorou quando inventaram a cerveja long neck. Ela mudou o jeito que a gente encara a vida e as pessoas.

Foi um processo paulatino. Fomos esquecendo a poesia que é dividir a cerveja com um desconhecido e deixamos de lado a arte de compartilhar a mesa com quem não bebe cerveja.

Muita gente não bebe cerveja, mas bebe rum, vodca, uísque, licor e até caipirinha. Em casos assim, a gente abria mão da cerveja e pedia alguma bebida quente também, era um modo de acompanhar, um jeito de dividir a bebida mesmo não dividindo.

Com a long neck, você pede sua cerveja individual e acabou-se. Não precisa esperar fechar a conta e nem dividir a quantidade de cerveja pelo número de pessoas na mesa.

A long neck não carece de companhia e nem de acompanhante.

Ninguém lhe chama para tomar uma long neck. Você não precisa de ninguém. Você pode beber só, em qualquer lugar, sem se preocupar.

Você não precisa mais de argumentos para convencer alguém a juntar-se à mesa. Ninguém fica mais comovido ou induzido a fazer parte de um momento feliz por causa de uma cerveja grande que vai esquentar.

Se religioso fosse, acreditaria que belzebu arquitetou o plano de dominação global pela long neck. Trinta anos depois, ele percebeu que uma pequena garrafa é mais eficiente do que o Damien da Profecia.

Os fãs do capiroto vão dizer que a long neck não deixa a cerveja esquentar e que é muito mais prática.

Hereges.

Cerveja só esquenta se você for egoísta. Por achar que, se pagou, ela é só sua e de mais ninguém. Sempre há outra pessoa a quem você pode entregar um copo para não esquentar. Nem que seja o garçom, nem que seja o dono do bar, nem que seja o pedinte.

Não é esmola, não é bondade, não é filantropia e nem é promessa.

É apenas assim que sempre foi.

Acho que éramos mais felizes e mais leves no balcão da bodega.

E como toda pequena maldade, a long neck também quer ser chique.

Porque parece que não pega bem pedir uma cerveja grande em lugares refinados. É coisa de pinguço. Já tem garçom que olha para você meio de lado. Chegou o papudinho pedindo cerveja de garrafa grande.

Ficamos etilicamente independentes e socialmente mesquinhos.

Tragam o Damien de volta. Prefiro beber com ele.

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3 comments

  1. kkkk adorei. Já tinha pensado nisso mesmo. E olha, se é uma mulher que pede a garrafa de 600ml, aí que olham de canto de olho!!! mas eu não quero nem saber! kkkk bjo

  2. Texto interessante. O isolamento é real e acaba com o propósito por que viemos aqui, que é “interação social”
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