Elas queriam amor, eu queria pizza

Elas queriam amor, eu queria pizza

Paulo Rebêlo | agosto.2020


Minha meta de vida é não precisar olhar o preço da pizza antes de pedir, mas infelizmente meus planos de prosperidade ainda não se concretizaram.

Talvez seja meu único devaneio de riqueza: comer pizza todo dia sem me preocupar com o peso da fatura do cartão. Porque o peso na balança eu já aprendi a ignorar.

Aquela pizza em 1997 me mostrou o verdadeiro valor do trabalho. Ou melhor, mostrou que eu precisaria trabalhar três vezes mais do que todo mundo.

Naquele ano, o preço médio de uma pizza no Recife era de 10 reais. Algumas mais caras custavam entre 12 e 15 reais.

Só que a melhor pizza de quatro queijos da cidade custava 33 reais.

A pizzaria não existe mais, porém até hoje eu faço vodu contra a fofinha que me apresentou aquela desgraça. Porque foi ali, pela primeira vez, que conheci o sabor de uma pizza de qualidade. E toda minha vida mudou.

A fofinha não se importava em levar uma hora e vinte minutos para atravessar a cidade inteira comigo, no ônibus lotado, para chegarmos a essa pizzaria.

Eu devia ter me apaixonado por ela, mas me apaixonei pela pizza.

Por uma pizza que custava o valor de três pizzas.

E eu, com meus parcos escritos e minhas tortuosas linhas de código em sistemas de almoxarifado que ninguém queria comprar, nunca iria conseguir comer uma pizza de 33 reais sempre que tivesse vontade.

Um futuro queijudo

Um ano depois, a fofinha já tinha sumido e encontrei-me preso em casa por um mês inteiro por conta de uma dengue seguida de pneumonia.

Comecei a melhorar aos poucos, ainda não podia sair de casa, mas a fome foi voltando ao normal e notei que tinha 100 reais para passar o resto do mês.

A escolha era difícil: investir a verba em dez pizzas normais e passar o mês bem abastecido e bem feliz; ou escolher apenas 3 pizzas de 33 reais. E passar o resto do mês comendo miojo e com muito peso na consciência.

Levei a noite inteira para decidir e, enfim, pedi pelo delivery a pizza de 33 reais. Porque, afinal, nunca tive problemas com miojo.

O peso na consciência foi enorme. Durante a espera, me arrependi 33 vezes. Quando a pizza chegou, o cheiro do gorgonzola subiu e senti meus pulmões se abrindo e vencendo a pneumonia a cada fatia.

Quando não mais restava nenhuma fatia, olhei para a caixa de papelão vazia e vi a luz. Naquele exato instante, o futuro se desenhou e me converti espiritualmente.

Minha religião passou a ser a busca implacável por atividades que me permitissem bancar pizzas de 33 reais sem remorso.

Hoje, olhando para trás, acredito que tenha sido naquele momento quando comecei a respirar trabalho 24h por dia. Aos poucos, nada mais passou a importar. Todo o resto virou supérfluo.

Cada trabalho extra significava uma noite a menos de sono, uma farra a menos com os amigos, uns beijos a menos com as fofinhas, uns finais de semana a menos com a bicicleta e a barraca de camping. Com o passar dos anos, também significou algumas paixões a menos.

Achei outras pizzas incríveis e outras paixões inesquecíveis. Amei as pizzas, perdi as paixões. Virei um corpo a serviço do capital-pepperoni e não consegui mais parar de trabalhar, trabalhar, trabalhar.

Hoje, com um pouco de orgulho e muita satisfação, percebo que consigo pedir uma pizza de 33 reais sem peso na consciência e sem peso no cartão.

Só que agora elas custam 60 reais.

Vou ter que começar tudo de novo.


Foto em destaque:
Junho de 2015.
Um pedaço do atual Muro de Berlim, Alemanha.
Fujifilm x100 | 1/125 | f/5.6 | ISO 200 | 23mm.


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