Crise anunciada reflete aumento da insatisfação com o ingresso na UE

Paulo Rebêlo
Folha de S. Paulo – 20.set.2006
(link original)

BUDAPESTE – A fita que mostra a confirmação de que o primeiro-ministro da Hungria, Ferenc Gyurcsany, mentiu sobre o orçamento do país durante quatro anos é apenas a ponta do iceberg de problemas que os húngaros devem enfrentar daqui para a frente. Com o vazamento da gravação, confirmou-se o que analistas econômicos desconfiavam: os números da economia na Hungria estão sendo maquiados há bastante tempo -sobretudo por causa da pressão da União Européia (UE) para que o país acerte as contas em passo acelerado, reduzindo o déficit público (um dos maiores da UE) e gerando dinheiro em caixa para reformas estruturais.

Com o conhecimento público da falácia política, a pressão da Comissão Européia deve aumentar ainda mais, complicando a vida do governo e dos cidadãos, que devem esperar novos aumentos de impostos nos próximos meses, além dos que já haviam sido anunciados antes de segunda-feira.

A Hungria entrou para a UE em 2004 e, até agora, não tem conseguido realizar as reformas prometidas. Um dos principais entraves se refere à adesão ao euro. Nos últimos dois anos, o governo sustentou a tese de que o país teria condições de aderir à moeda comum européia em 2008, após as reformas que, supostamente, seriam colocadas em prática.

No final de agosto, um relatório interno do governo vazou para a imprensa e mostrou o que a Comissão Européia desconfiava, mas não podia admitir: o país está longe de aderir ao euro. Enquanto mantinha a tese de 2008 para o público, internamente o governo trabalhava com a hipótese “provável” para o início da conversão monetária entre 2011 e 2016.

Aumento de impostos — Com o vazamento do relatório, protestos isolados se seguiram. O primeiro-ministro tentou correr atrás do tempo e uma das primeiras reformas anunciadas não poderia ter sido pior recebida: um aumento de 5% na taxa de valor agregado (VAT), que passou de 15% (valor já considerado alto) para 20% desde 1º de setembro.

A medida atingiu em cheio empresas e pessoas físicas que, desde então, precisam pagar mais caro por praticamente todo produto adquirido em território húngaro. Antes da medida, a gasolina havia subido 30% em agosto, o que também causou protestos. Os protestos da última segunda-feira refletem não apenas o momento de intensa instabilidade política na Hungria, mas, sobretudo, a insatisfação dos húngaros com o papel do país na UE.

Enquanto isso, o governo ainda precisa gerenciar uma série de problemas internos, como a falta de manutenção do transporte público, a responsabilidade sobre a inoperância durante tempestade de 20 de agosto em que cinco pessoas morreram e 300 ficaram feridas e a redução da expectativa de crescimento do PIB. Em outubro, haverá eleições municipais, o que ajuda a acirrar ainda mais os ânimos.

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