Parente nem sempre é serpente

Paulo Rebêlo // dezembro.2002

Todo Natal e Ano-Novo é a mesma coisa: familiares se reencontram, tapinhas nas costas, abraços, beijinhos falsos e às vezes a tradicional troca de presentes. Se é para trocar presentes, ao menos que sejam presentes úteis. O problema de reencontrar familiares distantes no Natal é o mico de ter que levar presentes para uma pessoa que, às vezes, pode estar tão diferente a ponto de você se perguntar se entrou na casa certa.


Roupas, por exemplo. Se você não é íntimo da pessoa ou muito amigo, vai ter que adivinhar o número. Um número errado já vai ser dor de cabeça para o presenteado ir trocar. E em horário comercial, o que é pior. Tem mais: roupa é um negócio muito pessoal, a gente só usa o que gosta, o que se sente confortável. Mas nem todo mundo tem paciência de ir até a loja trocar uma peça.

Presentes do tipo “objetos decorativos para sua casa” também são um tiro pela culatra. Não porque sejam ruins, mas porque todo ano alguém sempre vai dar uma peça decorativa ou porta-retrato e, em poucos anos, o seu minúsculo apê se transforma em um maiúsculo museu de quinquilharias.

Muitos de nossos ilustres familiares e amigos esquecem do princípio geral de presentear uma pessoa: presente não é para se dar apenas por dar, mas sim porque você quer o bem àquela pessoa e quer dar um presente que ela goste ou que vá usar de verdade, e não deixar mofar na gaveta!

Destarte, o CRECA (Centro Rebelal de Estudos Cabalísticos Aleatórios) acaba de lançar uma campanha de conscientização universal para que as pessoas parem de comprar as mesmas bugigangas que compram todo ano e dêem presentes realmente úteis, sem pensar se será exótico ou inusitado. O que vale é fazer com que o presenteado aproveite. E acredite: os olhos dele (a) vão brilhar mais para o seu presente exótico do que para aquele porta-retrato que a sua avó guardou com tanto carinho por 45 anos no baú da família.

Por que comprar uma camisa/calça/bermuda para um cara reconhecidamente pinguço? Oras, quem é pinguço tem uma barriga que vive crescendo e a camisa vai ficar apertada em um mês.

Então, em vez de gastar trinta reais na grife, compre duas grades de cerveja. Existe coisa melhor do que você ter duas grades de cerveja, de graça, para beber com os amigos sem preocupação? Claro que não. O mesmo vale para garrafas de vodka, rum, uísque, cana, vinho e licor. Enfim, qualquer presente que contenha álcool será muito bem recebido, obrigado. Se o petisco vier junto, melhor ainda.

Outro fator importante da campanha: abaixo o falso moralismo. Aquela sua prima/tia/sobrinha está de namorado novo e o sorriso dela está estampado na testa? Garanta o resto dos cabelos do pai dela e dê logo um estoque de camisinhas ou uma caixa de comprimidinhos do dia seguinte. Depois, é só correr para o abraço (ou correr da surra).

Outros presentes bacanas: vale-gasolina e vale-motel com direito a pernoite. Se for um presente duplo (os dois vales de uma vez só), você não apenas se transforma no melhor tio/primo do mundo, como ainda ganhará um altar. Esqueça o bafafá: se a família (leia-se: mães, avós e tias) reclamar, não se preocupe; afinal, você só vai precisar reencontrar a macacada depois de um ano. E se colocarem você para fora da casa, melhor ainda! Vai sobrar tempo para aproveitar o feriado virando a lata.

Tem gente que acha ridículo dar comida de presente de Natal. Oras, se o cidadão é louco por pizzas e você sabe que toda semana ele liga para o disk-pizza, nada melhor do que um crédito de umas dez pizzas gigantes. Acredite: você vai virar rei ou rainha.

CAUSO [NATALINO] DO DIA – Era mais um Natal qualquer, como todos os outros naquele recinto familiar, e com todo aquele bom humor e boa vontade típicos de um Super Ranzinza.

Os mesmos tapinhas nas costas, os mesmos presentes – camisa apertada, porta-retrato cafona, bermuda apertada na cintura, livro que você já leu… Naquelas alturas, o IRA (Índice de Revolta Acumulada) do Super Ranzinza já se aproximava do ponto de se jogar pela janela. O tempo não passava e o Super Ranzinza contando os minutos para poder “se dar de presente” uma grade de cerveja gelada no bar da esquina quando o lero-lero do amigo secreto acabasse. E ao fim, já pronto para sair de fininho e abrindo o portão para pegar o bacurau, eis que chega a Vó Ranzinza na surdina, quase invisível, e pega o Super Ranzinza pelo braço:

– Ei mocinho, tenho um presente surpresa para você!
– Não precisa, Vó Ranzinza. Já estou de saída, muito obrigado!
– Calma, calma… não é outro porta-retrato da minha coleção. Este aqui tenho certeza que vai ser útil e…
– Vó Ranzinza, adorei o porta-retrato deste ano, obrigado. Mas vou terminar perdendo o bacurau…
– Sua avó não é uma dinossaura! Os tempos mudaram, toma cá este pacote e…
– Tá bom, dá cá esse bagulho!

E o Super pega uma sacolinha da “Farmácia dos Lisos” com um pacotinho-padrão daqueles adereços de borracha utilizáveis durante a cópula, com dizeres berrantes: “ultra-resistente e lubrificado”.

– Pedi para o seu avô comprar, sabe? A gente não sabe quantas tem aí, mas se é “ultra-resistente” deve durar o ano todo, né? No próximo Natal eu compro mais para você, meu netinho!

– Obrigado, Vó Ranzinza, obrigado… do jeito que a maré tá braba, é capaz de durar o ano inteiro mesmo!
– Se você precisar de mais White Lub, o seu avô tem!!!

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