Paulo Rebêlo | 14.dez.2011
Terra Magazine
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Sou contra casamento na igreja, noivado, aliança, anel de compromisso e, hoje em dia, até mesmo a morar junto todos os dias da semana.

Mas sou a favor de um contrato nos relacionamentos. Com registro em cartório e reconhecimento de firma de pelo menos duas testemunhas.

Teria apenas uma cláusula: terminada a relação, as partes concordam em se encontrar a cada quatro anos para tomar um café, uma cerveja ou um tacacá.

A fim de evitar ciúmes dos respectivos e atuais cônjuges, se necessário o encontro pode ser filmado pelas câmeras de segurança do estabelecimento ou intermediado por uma testemunha idônea, de mútua amizade e ilibada conduta.

Porque é sempre uma aflição quando os anos passam e a gente não tem mais notícia de quem passou por nós. Nem por Facebook.

Não se trata de saber se a pessoa casou ou encalhou. Até porque elas sempre casam e procriam, é impressionante. Não necessariamente nesta ordem.

Queremos apenas saber se, mesmo casada, ela está bem de verdade. Se está feliz, se gosta do trabalho atual, se não apanha do marido, se já teve os quatro filhos que queria ou se já entrou no Bolsa Família. Enfim, queremos apenas o direito de também ficarmos felizes por elas. Mesmo que a gente nunca revele este último detalhe.

Pode ser que nada tenha mudado e ela tenha apenas conquistado dez quilos na balança. Ou vinte. Ou pintado o cabelo de loiro platinado.

Mas às vezes a platina vira chumbo e elas perderam o emprego, perderam a mãe, perderam o apartamento, sofrem assédio moral no trabalho, estão cheias de dívidas com agiotas, ficaram doentes ou clinicamente deprimidas. Completamente perdidas e sem rumo na vida.

Às vezes elas apenas precisam de alguém de confiança para sugerir um amigo solteiro para sair, que não seja muito feio e nem muito burro. E que tenha todos os dentes na boca, embora eu discorde desta última exigência.

Nem sempre sabemos onde elas estão. Recebemos notícias dos amigos em comum ou de ex-patrões. Sim, porque elas têm essa mania de desaparecer, de não ter mais contato, de sumir do mapa para todo o eterno. Nem sempre por raiva ou por mágoa. Muitas vezes por orgulho, outras vezes por vergonha.

É claro que pode dar errado e entrar água na chopp. Depois de tantos anos, basta um copo para tudo acabar no motel. Ou na delegacia.

Também pode ser um choque de realidade, adiado por tanto tempo.

Pode ser a comprovação que lhe faltava de que ela está muito mais feliz hoje do que ontem. Que teve os filhos que você não quis ter, a casa que você não quis morar, as viagens que você não quis fazer.

E que apesar de todas as suas dúvidas de reconciliação e sonhos de que ela fosse voltar um dia, de que vocês se encontrariam num aeroporto qualquer e cancelariam os voos ali na fila do check-in, bom, esse pequeno encontro contratual pode lhe mostrar que você perdeu o horário do voo.

Porque quando ela pega na xícara, cheira o café que ela tanto detestava e nem coloca mais o açúcar que ela tanto adorava, é o jeito simples de mostrar que as suas milhas acabaram e só você esqueceu de conferir o extrato.

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* link original no Terra Magazine.

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1 comment

  1. Eu sou assim eu desapareço da vida deles, não é por orgulho mas são pessoas que não me trouxeram algo bom pq que trouxessem eu ainda teria contato, então não prefiro ter em minha vida pq somos de pensamentos e mundo diferentes.

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