Uma xícara de afeto

Xícara de afeto

Revirei a casa inteira. Abri as caixas de papelão. Empurrei o sofá. Abri as mochilas. Olhei dentro do armário de roupa. Ela tinha levado até a xicrinha. Quando até as formalidades se dissipam, que esperança ainda pode restar para o afeto de uma xícara?

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Relações por milhagem

Paulo Rebêlo | 14.dez.2011 Terra Magazine *** Sou contra casamento na igreja, noivado, aliança, anel de compromisso e, hoje em dia, até mesmo a morar junto todos os dias da semana. Mas sou a favor de um contrato nos relacionamentos. Com registro em cartório e reconhecimento de firma de pelo menos duas testemunhas. Teria apenas uma cláusula: terminada a relação, as partes concordam em se encontrar a cada quatro anos para tomar um café, uma cerveja ou um tacacá. A fim de evitar ciúmes dos respectivos e atuais cônjuges, se necessário o encontro pode ser filmado pelas câmeras de segurança do estabelecimento ou intermediado por uma testemunha idônea, de mútua amizade e ilibada conduta. Porque é sempre uma aflição quando os anos passam e a gente não tem mais notícia de quem passou por nós. Nem por Facebook. Não se trata de saber se a pessoa casou ou encalhou. Até porque elas sempre casam e procriam, é impressionante. Não necessariamente nesta ordem. Queremos apenas saber se, mesmo casada, ela está bem de verdade. Se está feliz, se gosta do trabalho atual, se não apanha do marido, se já teve os quatro filhos que queria ou se já entrou no Bolsa Família. Enfim,

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O homem backup

Paulo Rebêlo Terra Magazine 03.agosto.2011 A gente nunca admite por vergonha, mas estamos quase sempre procurando – ou esperando – alguém para substituir algo que perdemos. Os amigos são os mesmos. Família, trabalho e problemas, também. Arquivos do acaso, alguém puxa o mesmo livro que o seu na prateleira da livraria e, sem ninguém lembrar direito como isso acontece, estão os dois sentados tomando um café, uma cerveja ou aquele copo de uísque sem gelo. Humanamente impossível não passar pela cabeça dela, sequer por um segundo: será que ele vai me ajudar a esquecer…? Quando o ‘ele’ em questão é você, é melhor suspender as ilusões platônicas e mandar trazer o gelo. Porque em momentos assim, tudo que nós precisamos ser é alguém para ajudar a colocar uma pedra naquela cicatriz meio aberta, meio fechada, mas exposta o suficiente para ela não ter mais se interessado de verdade por ninguém. Até agora. É quando nos tornamos uma espécie de cópia de segurança psicológica. Afinal, ela tem todos os motivos do mundo para não precisar conhecer, e muito menos se interessar, por gente nova. Não faz diferença há quanto tempo acabou o casamento ou o namoro. Importa que ninguém conseguiu preencher,

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Café, sopa e mulher

Paulo Rebêlo Terra Magazine * 22.jun.2011 Tomar um bom café é quase como admirar uma bela mulher. Você pode olhá-la como o cafezinho de repartição naquele copo de plástico; ou café orgânico em xícara de porcelana francesa, com tanta qualidade que apenas o cheiro faz você parar no tempo, sentindo aquele aroma encorpado a subir pelas narinas. Você já deve ter lido, em algum lugar, que somente os bons cafés liberam um rastro olfativo bem peculiar. Você não deve ter lido, mas certamente recorda que as mulheres mais marcantes da sua vida carregavam um cheiro ímpar, daqueles que a gente procura e não encontra nunca mais. É que cheiro de pele não vende no duty free. Enquanto você não encontra novos cheiros ímpares, o jeito é seguir bebendo café ruim, fraco, ralo, requentado, sem gosto ou exageradamente adoçado. Existem em abundância, em todos os lugares e para todos os olhares. Foi para isso que inventaram o Nescafé. E o motel de dez reais. A exemplo de algumas belas mulheres, o café também guarda surpresas nem sempre agradáveis. Quando você entra nessas cafeterias ultrachiques onde o café expresso custa o mesmo preço do seu almoço no bandejão, você espera sentir todas

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Corações furtados

Paulo Rebêlo 11.junho.2010 Terra Magazine link Não é chato quando a gente conhece alguém interessante e não dá certo? Primeiro porque o mundo passa por um acelerado processo de extinção das pessoas razoavelmente interessantes. Tipo, gente que tenha um mínimo de conteúdo para você conversar algo que não seja o resultado do jogo de ontem, a novela de hoje ou as subcelebridades de amanhã. Segundo porque a maioria das pessoas solteiras sempre tropeça no mesmo pensamento: se demorou tanto para aparecer alguém interessante, quem garante que não irá levar outros duzentos anos até aparecer outra? São em momentos assim que a porca torce o rabo e a cobra fuma charuto. Dia dos namorados é quando vemos um monte de gente bonita sucumbindo ao desespero para namorar com o primeiro brucutu que se prontifique a pegar sua mão, levar para passear no shopping lotado, comer uma pizza no domingo à noite, conhecer sua mãe e elogiar aquele estrogonofe que você aprendeu a fazer dez anos atrás na Cozinha Maravilhosa da Ofélia. O padrão mínimo de exigência fica do tamanho de um piolho e você começa a chamar urubu de meu louro. É um roubo. Roubamos oportunidades bem melhores para nossas vidas por causa de

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Despedidas de um homem casado

Terra Magazine – abril.2010 Não parece, mas toda mudança me parte o coração. Seja de bairro, cidade ou país. Seja em lugares onde morei cinco anos, cinco meses ou até mesmo cinco semanas, como já aconteceu certa vez. Do dia em que cortaram meu umbigo gordo até hoje, são 14 mudanças de CEP. Com exceção de uma, na qual ainda era muito guri, lembro de todas as outras 13 como se fosse hoje. Por mais desregrados que tentemos ser, sempre sobra saudade por abandonar as poucas raízes que a gente deixa pelo caminho. E me pergunto se vamos voltar a nos encontrar um dia, nem que seja para um café com bolo de bacia na padaria. É o garçom no bar da esquina que já se considera um amigo e fala dos problemas domésticos, pede conselhos e sempre lhe consegue um pedaço extra de bife sem cobrar nada. É o porteiro que está sempre dormindo quando você chega bêbado e fica no meio da rua, esperando ele acordar e abrir o portão, como se nada tivesse acontecido. É o zelador evangélico que lhe acha um devasso. A secretária que abre um sorriso largo quando lhe vê, por causa do bombom de cupuaçu.

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Um doce para Maria

Sem tirar o olhar do prato vazio, elas cruzam o garfo e faca, empurram suavemente para frente e dizem que não querem sobremesa. Ela também disse, duas ou três vezes, que não estava chateada, era apenas dor de cabeça ou cólica. Nenhuma mulher feliz nega sobremesa. Às vezes, o cálice sagrado da compreensão feminina é a negação da sobremesa. Principalmente se for em um restaurante bacana, daqueles conhecidos intermunicipalmente por terem os melhores brownies, cheessecakes, petit gateau e outras firulas irresistíveis ao suicídio calórico das criaturas. Se na hora da conta ela pedir um café, talvez ela não esteja apenas chateada, talvez também queira transformar seu pescoço em pequenos escalopes de filé. Ela nunca bebe café. Se é verdade que quando elas dizem “não” significa “sim” e quando elas dizem “sim” significa “não”, por que a gente não aprova uma emenda constitucional para transformar em lei essa aberração comportamental? Talvez porque sempre haja a esperança de um entendimento mútuo entre homens e mulheres em oclusão. Deve acontecer mais ou menos na época de celebrar as bodas de urânio enriquecido, ou seja, depois de 127 anos de união. Se é verdade que Elvis não morreu, O.J. Simpson não matou a esposa

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