A violência no foco das eleições para prefeito

RECIFE // Pré-candidatos prometem atacar gestão municipal por inércia no combate ao crime

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco – 10.fev.2008

foto: Ricardo Fernandes/DP
foto: Ricardo Fernandes/DP

Sequer os nomes dos candidatos à prefeitura do Recife estão confirmados, mas uma coisa já é certa: a segurança pública será o principal mote de campanha de todos eles. E a prefeitura, por sua vez, o principal alvo dos ataques – tendo como base a tímida participação das gestões municipais na segurança. Pela Constituição Federal, o setor é de responsabilidade dos governos estaduais e da União, não dos municípios. No entanto, diante do atual quadro em Pernambuco – sempre no topo dos ranking de violência – a cobrança será generalizada e atinge todos os setores da administração.

A estratégia é fácil de compreender. Os candidatos irão evitar ao máximo o ataque frontal ao governo Eduardo Campos, por uma mera questão de sobrevivência política, visto que as pesquisas revelam seu bom índice de aprovação. Sem contar os eventuais acordos antes e depois da eleição. Ao mesmo tempo, a gestão municipal de João Paulo costuma sempre passar a bola para o estado quando o assunto é segurança. Naúltima quinta-feira (7), foi a vez do secretário municipal de Turismo, Samuel Oliveira, isentar novamente a prefeitura de críticas dos donos de bares na Rua do Bom Jesus, bairro do Recife. Embora o argumento tenha respaldo constitucional, Organizações não Governamentais (ONGs) mundo afora entram em campo, cada vez mais, sem aceitar o discurso da responsabilidade constitucional.

O diretor do Movimento Brasil Sem Armas, Murilo Cavalcanti, explica que antes de mais nada se trata de uma questão cultural. “Não é uma crítica direta a João Paulo, pois é um problema generalizado. Mas o papel da prefeitura aqui é zero, os prefeitos brasileiros fogem do tema de segurança como o diabo foge da cruz”, garante. Ele não está só. Boa parte das associações civis tem cobrado dos municípios um empenho de fato, e não apenas de direito, na segurança coletiva. Com ações populares, campanhas educativas e medidas urbanísticas. “Os prefeitos acham que é só uma questão de polícia, mas é bem mais do que isso. É escola, é monitorar os jovens em quadro de risco, é mobilizar a sociedade. Fatores assim dizem respeito à prefeitura”, explica Cavalcanti.

Dos pré-candidatos e políticos ouvidos pelo Diario constantemente, a estratégia de criticar a prefeitura será pesada em cima da segurança pública. O pré-candidato Raul Henry (PMDB), por exemplo, há tempos levanta a bandeira de Bogotá, na Colômbia, ao falar sobre o tema. A cidade conseguiu vitórias reconhecidas mundialmente na redução da violência e dos homicídios. O ex-secretário de segurança cidadã de Bogotá, Hugo Acero, é assessor especial do candidato na elaboração do plano. Tanto a cidade colombiana, como a participação das prefeituras, também são adotadas por outros candidatos. Em entrevista à Rádio Folha durante a semana, o deputado federal André de Paula (DEM) reativou os ataques: “A segurança pública, por mais que seja de responsabilidade do estado, você não pode deixar que na cidade mais violenta do país o prefeito tenha posição omissa”, disparou.

Pressão permanente do número de homicídios

Recife é a capital onde mais se mata no Brasil. A única do Nordeste com mais de 500 mil habitantes entre as dez cidades com maior número de homicídios. Parece pouco? Entre todos os 5.564 municípios brasileiros, ocupa o nono lugar no ranking, com 90,5 homicídios por 100 mil habitantes. A classificação é adotada internacionalmente, segue os padrões das Nações Unidas (ONU) e o ranking integra o Mapa da Violência 2008, divulgado pelo Ministério da Justiça e elaborado em parceria com o Instituto Sangari e a Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla). entre os dez mais violentos em todo o Estado de Pernambuco, cinco estão no Grande Recife: Recife, Jaboatão, Cabo, Aliança, Rio Formoso, Itamaracá, Amaraji, Caruaru, Goiana e Olinda.

Logo, é fácil entender como os números respaldam os argumentos das associações e ONGs de que não há como conter a insegurança sem mobilização municipal, hoje ainda tímida na quase totalidade dos municípios. Não obstante, a falta de participação municipal não deve minimizar asfalhas do estado em projetos bonitos de ouvir e difíceis de servir. É o que acredita o diretor do Brasil Sem Armas, Murilo Cavalcanti, ao criticar o programa Pacto pela Vida, do governo de Pernambuco, embora reconheça a melhora no índice da violência durante o carnaval deste ano. Os números, divulgados pelo próprio governo e sem checagem externa, mostraram redução de 34% nos crimes letais (58 homicídios) quando comparados ao carnaval do ano passado.

O papel do município na questão cultural da sociedade pode ser medida, por exemplo, em uma declaração à imprensa de Júlio Jacobo Waiselfisz, diretor de pesquisa do Instituto Sangari. “O problema também passa pelo jeito de o povo resolver as desavenças na base do tiro. É típico do pernambucano”, disse, acrescentando à facilidade de adquirir armas de fogo.

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