Mulher para casar é ambulância

Paulo Rebêlo // outubro.2007

Aquela ali é para casar. Eis uma expressão enigmática para a maioria das pessoas. O que faz um homem apontar o dedo e achar que aquela mulher é para casar? Já me responderam de diversas maneiras, sempre honestamente, em vias alternadas e não necessariamente excludentes: tem que ser rica. Tem que ser bonita. Tem que ser magra. Tem que ser inteligente. Tem que saber conversar. Há de ter senso de humor. Deve ser maleável. Paciente. Carinhosa. É comum – para homens e mulheres – estabelecer critérios. As variações são inúmeras. E é claro que, às vezes, somos tudo isso e mais um pouco, mas nem assim dá certo.


Certa feita, porém, tive que dar o braço a torcer a um critério inusitado. Para aquele colega, mulher para casar tinha que ser aquela que, quando você chega em casa do trabalho tarde da noite, cansado, basta sentar à mesa e dizer: ‘mulher, bota meu cumê’. Nada mais.

Ela pode ser louca, ciumenta, surtada, balofa, cavernosa, não importa. Se você chegar dizendo “mulher, bota meu cumê” e ela vem com um prato de comida quentinha, todo o resto está perdoado e nada mais importa.

O pior é este citado cidadão ser magro, não é comilão. O fetiche é a condição de ser servido ao chegar do trabalho, sem precisar ir para a cozinha esquentar ou preparar algo comestível. E então ele fica lá, comendo a gororoba requentada de frente à TV. Depois vai dormir feliz da vida.

Tentativa e erro –
Meus critérios sempre foram tão simples que dá até vergonha. O primeiro e primordial é a que tal mulher não pode ser para casar, seja lá o que isso signifique. E o segundo, óbvio, é que não pode ser abstêmia. Afinal, com religião não se brinca.

Apesar de ser comilão e admirar bastante as mulheres que cozinham bem, a idealização de “mulher, bota meu cumê” não me convence. Desafiado, tive que explicar que já tive, um dia e num passado distante, meus próprios critérios.

Para começar, eu teria que chegar em casa bêbado de madrugada, talvez tropeçando em objetos pelo caminho, deitaria na cama ainda de roupa e sapatos, sem tomar banho; a mulher iria carinhosamente me abraçar e ficar coçando minhas costas até eu dormir – o que levaria em torno de quinze a vinte segundos – mas não poderia surtar com o acentuado bafo de cana ou o cheiro de charuto na camisa.

Ela simplesmente aceitaria a condição etílica-terminal do companheiro, e até ficaria feliz, porque ele estava ali aproveitando o carinho e dormindo abraçadinho com ela. Eventualmente peidando, é verdade, porque calabresa com fritas ao molho de óleo faz dessas coisas, mas continuaria dormindo abraçadinho do jeito que elas tanto gostam.

Bom, na primeira vez que fui fazer isso de verdade, a criatura fechou à chave a porta do quarto até eu voltar do banho. Resignado, terminei adormecendo na privada e caindo pelado no chão gelado do banheiro.

Na segunda vez, fui parar na sala. Da minha própria sala, devo realçar. Acontece que o sofá tinha tanto bagulho em cima que terminei dormindo no chão e acordando debaixo da mesa, sem entender direito o que havia acontecido. Foi por causa do sol, descobri depois.

Na terceira vez, não tinha mais ninguém na cama.

SAMU RELACIONAL –
Se é para idealizar a mulher para casar, boa parte dos homens – eu incluso – sonharia mesmo com a mulher-ambulância.

Às vezes, quando se está no bar às altas horas da madrugada, você daria todo o seu reino por alguém que chegue ali, pague a conta, lhe levante do chão, eventualmente dê um chute no vira-lata que está zelando pelo seu sono, lhe coloque no carro e leve para casa. Uma espécie de ambulância particular. E que esteja cheirosa, porque ninguém é de ferro.

Não há nada pior do que chegar a esta condição deprimente – e reincidente – tendo que fazer tudo sozinho, seja caminhando, de táxi, de bacurau ou esperando amanhecer para pegar o ônibus de linha.

O resultado nunca é previsível. O motorista do táxi vai se aproveitar e cobrar mais, porque você não consegue enxergar direito o taxímetro. Você vai pegar o ônibus errado, se perder e cair dentro de uma favela. Você vai adormecer no assento e só acordar no terminal, do outro lado da cidade. Você vai esquecer que se mudou e, todo prosa, pega a linha para sua casa antiga, que talvez nem exista mais. Ao chegar lá, lembra que está no lugar errado e não tem mais dinheiro para a passagem de volta.

São situações ridículas, porém reais, mas que poderiam ser evitadas se a sua companheira não se importasse em virar ambulância de vez em quando e com o passar dos anos. Não com frequência, claro, porque a gente não quer abusar. Tipo, três vezes por semana, nada do outro mundo.

Você telefona e ela pode até surtar, reclamar, lhe xingar, dizer que vai se separar, que vai botar um par de chifres com o porteiro, lhe chamar de bêbado e maconheiro… tudo bem, você aguenta calado, até concorda, mas ao final ela vai pegar o carro, pagar a conta no bar, lhe arrastar pelos braços até o banco de trás e ocasionalmene esfregar um pedaço de chocolate na sua boca se você estiver se debatendo com hipoglicemia.

Com a mulher ambulância, você nem se importaria de adormecer na privada, de dormir debaixo da mesa da sala. Quem sabe, nem se importaria até de tomar banho antes de dormir. Pelo menos, estaria no conforto do lar, saberia que de manhã cedo sua companheira estaria ali, para uma eventualidade qualquer de precisar ir ao hospital injetar glicose ou se afogar na própria baba enquanto dorme.

A mulher-ambulância poderia, quiçá, pedir uma compensação. Você poderia ir fazer aquelas compras de cinco horas e meia (seguidas) pelo shopping. Esperar ela terminar de fazer o cabelo no salão, pacientemente. Você poderia levar os filhos (dela) para o playcenter enquanto ela convida as amigas para um chá da tarde e passam o dia falando mal das amigas que não foram.

Enfim, a mulher-ambulância faria o mundo masculino muito mais feliz e revolucionaria todo o conceito de “mulher para casar”.

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