Loucura Coletiva

Paulo Rebêlo // maio.2005

A psicologia como ciência (e não como mercado) consegue identificar e, às vezes, até mesmo explicar uma gama de pequenas loucuras na cabeça das pessoas. E com uma certa análise e meditação, a gente mesmo descobre a origem da maioria das nossas neuras. A ciência até identifica o que leva pessoas às loucuras perenes ou temporárias, até mesmo aqueles habituais chiliques femininos.


O que a ciência ainda pouco explica é como o ser humano consegue se transformar por causa de outro. É algo que está bem além das explicações técnicas, mas que todo mundo entende e sabe quando acontece. As pessoas que imaginam precisar de um remédio para esquecer frustrações são, geralmente, muito bobas ou muito ingênuas. Em geral, ambos.

Há uma série de patologias que leva à loucura temporária, perda de consciência ou mudanças drásticas de comportamento. Na situação comportamental, geralmente a mudança não é temporária e segue um padrão relativamente parecido nas pessoas.

Traumas, acidentes, frustrações. A cabeça da gente sempre muda um pouco depois de cada “tragédia”, mas em algumas pessoas o impacto gera modificações estruturais sem retorno. Quantas vezes você não olhou para um amigo e pensou: “coitado, depois que fulana foi embora, nunca mais foi o mesmo”.

Acontece com todo mundo. Tem aquelas mulheres que, depois que o marido arruma outra, simplesmente enlouquecem. E tem aquelas pessoas que, depois de perder alguém que amou (acidente/frustração) não conseguem mais tocar a vida. É claro que toda mudança estrutural tem seu preço ou, como ensinou Isaac Newton com sua terceira lei da Física, toda ação gera uma reação. É preço que se paga.

Se formos observar o que a medicina e a psicologia vêm estudando sobre as drásticas mudanças de comportamento nas pessoas por causa de outras pessoas, chegaremos a um ponto em comum na maioria delas: a válvula de escape é sempre a mesma – o trabalho. É comum ver essas pessoas se tornarem excelentes profissionais.

Olhe-se no espelho e responda à pergunta: qual é o melhor remédio para esquecer alguém? Arrumar outro alguém? Claro que não. Quem já passou pela situação sabe que, por mais que a gente tente, não adianta. Outro alguém pode até chegar perto, mas nunca consegue preencher o vazio. Como ninguém consegue, esses loucos temporários só encontram abrigo em uma coisa: trabalho.

Trabalho, trabalho, trabalho. Deste modo, você não vai ter tempo para mais nada, não vai sobrar brecha para aqueles momentos de solidão e, quando você estiver em casa, sozinho e olhando para o teto, estará tão cansado (ou bêbado) que em poucos minutos irá cair no sono. E no outro dia, tudo começa novamente, labuta o dia inteiro.

Os capixabas costumam dizer: trabalha e confia. Você não confia muito, mas trabalha mesmo assim. Em pouco tempo, chegará a uma encruzilhada: será um exímio profissional e um desastre pessoal. Nesta hora, você coloca na balança as duas coisas e começa a imaginar se vale a pena continuar alimentando a ilusão ou se é hora de tentar, ao menos um pouco, a reaprender novos comportamentos.

>> LABORAÇÃO DE MONGE
Um bom exemplo do que é enlouquecer por uma pessoa é o seriado Monk, que passa em algum canal de TV por assinatura que desconheço. Até pouco tempo atrás, eu nem teria tempo de assistir seriados, mas resolvi ceder à curiosidade depois que uma amiga insinuou que o personagem principal, o Monk, é bem parecido com o que eu poderia me tornar no futuro. Acho que ela quer ser a Mãe Dinah, coitada.

O seriado não é dramático, não fala de sentimentos, mas revela minuciosamente, em doses bem peculiares, como uma pessoa pode se fechar para o mundo exterior e aprender a viver em um universo paralelo. Só por causa de alguém.

E mesmo que essa pessoa tenha morrido (situação de Monk), não vai fazer diferença alguma. Porque em foto, em cheiro e em memórias, ela continuará presente – não tão presente quanto a esperança inútil, típica dos tolos, de que um dia você irá chegar em casa, abrir a porta e ver que tudo não terá passado de um sonho. Porque ela estará lhe esperando no sofá.

Monk meio que enlouquece, mas vira um exímio profissional e passa a exercer um dom que poucos entendem, mas todos admiram. Não sei, cinema é cinema. Tenho cá minhas dúvidas de que a patologia benigna de Monk é apenas um consolo para os ingênuos que acham existir algum mérito em ser um desastre social ou, pior ainda, em chegar em casa esperando que ela esteja lá.

Na dúvida, fica a dica da programação da TV a cabo.

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