Por um mundo de carecas unidos

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Paulo Rebêlo // julho.2006

Ficar careca é uma arte. É preciso muita concentração para não se deixar levar por aquela mentira cabeluda do é dos carecas que elas gostam mais. Inclusive, talvez o excesso de concentração seja o motivo de acelerar a queda dos cabelos. Se bem que os meus não estão mais caindo. Há tempos, eles simplesmente se jogam.


Não sou conhecedor dos vários tipos de calvície e não faço a menor questão em ser, mas, sentimentalmente falando, a pior categoria de carecas deve ser aquela em que os primeiros sinais da calvície aparecem logo cedo, quando a gente ainda se considera “jovem demais para morrer”. Categoria a qual a natureza fez o favor de me incluir, longos anos atrás. Tão longos quanto a minha juba capilar de outrora. É como uma morte anunciada, você percebe os cabelos caindo e fica sabendo ter poucos anos capilares pela frente.

Jovem nunca segue conselhos de quem já perdeu os cabelos com a vida. A gente olhava para aquela cabeleira farta no espelho e achava que só iria começar a se preocupar aos quarenta anos. Os caras novos acham que os grandes problemas masculinos só aparecem a partir dos quarenta. Deve ser porque nos dizem que o exame de próstata deve começar a ser feito nessa idade, então, qualquer coisa antes disso é passeio.

Tem gente que reclama da calvície por vaidade. Não tenho do que me queixar sobre meu aeroporto de mosquitos, tanto é que nunca dei prosseguimento às pajelanças médicas para fazer com que os cabelos kamikazes mudassem de idéia. As piadinhas a gente leva na esportiva, principalmente da cabeleireira engraçadinha que sempre comenta: “eita, daqui a pouco nem precisa mais vir cortar cabelo” ou da vendedora na farmácia que sugere a compra de Sundown fator 900 para proteger o cérebro e ainda se oferece para passar – achando que a gente vai gostar da cantada. Típico engano de gente cabeluda que não pensa nas carecas alheias.

BRANCAS FRUSTRAÇÕES –

Desde cedo, os quase-carecas aprendem que na vida nem tudo são trancinhas. A gente cresce ouvindo de quase todas as mulheres sobre o quanto elas acham charmoso homem de cabelos grisalhos. Com ou sem vaidade, é frustrante saber que nunca teremos cabelos grisalhos para, quem sabe, ao menos assim, termos um pouco mais de sorte com o mundo feminino.

Outro lado rastafári do problema é a frustração de saber que nunca poderei proferir, com autoridade típica de grisalho, a célebre frase “respeite meus cabelos brancos, ô rapaz!”. Eu sempre quis falar isso, desde minha época de rei leão. Contava os dias para ficar com os cabelos grisalhos. Hoje, o máximo que posso dizer é: “respeite minha falta de cabelos, menina!”. Não é a mesma coisa.

Anos atrás, eu ainda nutria esperanças de que a ciência conseguiria retardar o decreto fúnebre-capilar. E fui procurar uns médicos “da área”. Dos três médicos consultados, um era careca, outro era quase-careca (feito eu) e o terceiro tinha um implante de cabelo, ridículo, daquele tipo lambida-de-vaca.

O tratamento padrão para os quase-carecas é usar um xampu e uma espécie de loção no couro cabeludo por tempo indeterminado — um eufemismo para dizer a vida inteira. Isso na base da ciência, sem aquelas fórmulas milagrosas que existem aos montes por aí. O médico careca logo disse: se houvesse remédio de verdade contra calvície, você acha que eu seria careca?

Não é preguiça, mas é apenas muito trabalhoso essa frescura de xampu especial e loção todo santo dia. Quem diabos vai lembrar de passar creminho ao chegar em casa depois de uma rodada de caju-amigo com miúdo e calabresa? Teve um dia que cheguei em casa com fome de madrugada e quase confundo o creminho com requeijão.

Tem aqueles implantes ridículos. A ciência, infelizmente, ainda não inventou um método de criar holografia para iludir os olhos humanos alheios. Ainda está para nascer um cara com implante cujos cabelos possam ser considerados normais.

Por fim, tem o tal do ” santo remédio”. De acordo com os carecas formados em medicina citados anteriormente, o medicamento é na base de hormônio, aprovado por todos os órgãos competentes de saúde no mundo e tem quase 100% de chances garantidas de você recuperar os cabelos suicidas e aumentar a cabeleira. Ou seja, o remédio praticamente transforma você em Jesus Cristo: ressuscita os mortos e multiplica os pães. O único porém é que depois não dá mais para brincar de médico… Nas palavras dos carecas: o remédio causa impotência numa incidência relativamente alta. Mas os cabelos voltam todos, dizem eles…

Antes um careca turbinado do que um cabeludo desbilolado. Afinal, somos carecas, mas não negamos fogo. É que nem barriga: não dá para conceber a idéia de homem que passa dos 30 sem ao menos uma barriguinha. É muito suspeito. Carecas e pançudos, uni-vos.