Pílula do Esquecimento

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Paulo Rebêlo // maio.2005

Muita gente gostaria de voltar no tempo. Para consertar quebradeiras, acertar o que deu errado, tentar de outro jeito, não deixar aquela pessoa ir embora. Como a viagem no tempo só existe nas fórmulas matemáticas dos físicos, o jeito é esperar que a ciência consiga inventar uma pílula do esquecimento. Afinal, se não podemos voltar no tempo para remediar as burrices da vida, ao menos poderíamos tomar um remédio diário para esquecer as piores frustrações. O efeito seria paulatino. Um comprimido por dia e, aos poucos, você vai esquecendo.


O sucesso da pílula do esquecimento é fácil de explicar. Quem não tomaria um comprimido para esquecer frustrações que o tempo não consegue levar embora? O chavão de que o ‘tempo tudo cura’ ou ‘o tempo é o senhor do razão’ pode até funcionar para muitos, mas sempre há teimosos-ignóbeis que não conseguem esquecer. Não conseguem deixar para trás porque, inerente a si próprio, reside a esperança de uma segunda chance.

Acontece que a pílula do esquecimento, não obstante as maravilhas que iria proporcionar, nunca daria certo. Do ponto de vista prático, em pouco tempo haveria um mercado negro do medicamento. Em seguida, as pessoas comprariam em qualquer farmácia, sem prescrição médica. O contrabando e os placebos tomariam conta, além de falsificações. Seria um desastre.

Em pouco tempo, viriam as internações por superdosagem. A gente ia querer tomar o comprimido para qualquer besteira. Uma bronca do chefe, uma frustração profissional, um jogo de futebol perdido, uma demissão. Tudo seria motivo para esquecer. Fácil demais.

As conseqüências são inconcebíveis. Ao esquecer sua maior frustração ou, quiçá, a pessoa que você nunca deixou de amar na vida, por tabela você também esqueceria o que significa tudo isso. E ao esquecer o significado, você abre uma brecha para cometer os mesmos erros de
antes e cair na mesma fossa do passado.

Com poucos anos de mercado, a pílula do esquecimento fomentaria o caos sentimental no mundo e, no final, estaríamos todos cometendo os mesmos erros de outrora.

SENTIMENTOS REVERTIDOS –

Enquanto muitos sonham (ou sonharam) com a pílula do esquecimento, talvez uma expectativa menos desastrosa seja a pílula da reversão sentimental. Este comprimido, de composição simples e atuação mais simples ainda, resolveria a equação clássica de “joão ama maria, que ama roberto, que ama flávia, que ama joão”.

É que as pessoas tendem sempre a amar quem não as ama de volta. E por mais que o tempo passe, por mais que a outra pessoa prove e passe na cara de que não compartilha da mesma afeição, a estupidez humana é incansável a ponto de não permitir que o tempo feche a ferida e se torne o senhor da razão – porque só assim você aprenderia a dar uma chance a outras pessoas. Outras pessoas que lhe amam.

Os anos se passaram e, enquanto você estava fechado em seu casulo de frustração achando que ela ia voltar, outras passaram pela sua vida, lhe amaram, se jogaram na frente de um caminhão por você. E o que você fez? Nada. A pílula da reversão sentimental curaria a sociedade desse mal. Com ela, você iria transferir todo aquele sentimento para uma dessas pessoas que tentaram preencher o vazio e não conseguiram. Não seria genial?

Bastaria pouco tempo de tratamento para aprender a gostar de outra pessoa tão intensamente o quanto você gostou da anterior. A pílula da reversão sentimental duraria bem mais tempo do que a pílula do esquecimento e seria bem mais eficaz.

Só que, no fim, o caos iria imperar de novo. Outro desastre. Um dia, você ia achar que não precisa mais do comprimido e iria parar de tomá-lo. Depois, vai ver que foi um demente em ter levado a sério a propaganda da indústria farmacêutica, ficará com o pote de comprimidos na mão sem saber o que fazer. Aí vai querer uma pílula do esquecimento. Como não existe, você vai querer voltar no tempo. Como o tempo não volta…

Não volta e não perdoa. Sozinhas, as pessoas terminam por aprender a isolar sentimentos e pensamentos, voltam à concha e assim passam os dias. Então o tempo se encarrega de lhe iludir e você se encarrega de aceitar a ilusão de que está feliz assim.

Com orgulho, você vai poder sair às ruas, se envolver com outras pessoas, com qualquer pessoa, talvez até magoar certas pessoas sem querer, mas sem se ferir. Sem deixar que lhe abram cicatrizes, nunca mais. E será feliz assim, ao menos enquanto você não encontrar a pessoa que aparentemente tinha morrido, ressurge das cinzas e fica feito uma alma penada que vem puxar seu pé de madrugada — ou fica a seu lado, em pensamento, nas noites de insônia.

E nessas horas você vê como a ciência e a razão são burras (e você mais ainda), pois não adianta tomar comprimido algum. O jeito é conviver com seus fantasmas que, na vida real, não passam de abstrações. E é durante esta fase que a maioria das pessoas comete o mesmo erro: esquece que não é apenas o ontem que não volta, mas o hoje também. E se o hoje passa em branco, qual é o sentido de esperar um amanhã?

Todo mundo sabe, mas é mais fácil dizer que não faz idéia.