Estrangeiro, brasileiro – II

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Paulo Rebêlo // maio.2007

Na edição anterior, vimos como é difícil ser brasileiro no exterior quando não temos o estereótipo padrão tupiniquim: morenos, atléticos, conquistadores e barulhentos. O problema de ser um brasileiro nem um pouco brasileiro – baixinho, branquelo, redondo, quieto – é que ninguém acredita que você é brasileiro.

Em Portugal, cansei de ser parado para me perguntarem direções, geralmente enquanto faço minhas caminhadas por território desconhecido, seja em Lisboa ou em cidades menores. Não vejo nada demais se um turista me confunde com português e vem me pedir indicações, mas quando um português-nativo lhe confunde achando que você é português, mesmo quando você fala com nítido sotaque brasileiro, é porque tem alguma coisa realmente errada.

Certa vez, uma senhora estava perdida na estação de metrô e não sabia usar a máquina de comprar tickets. Eu também não sabia, era minha primeira vez usando aquelas máquinas portuguesas. A senhora achou que foi má vontade da minha parte. Paciência.

Na segunda vez, voltava para casa, quando, no meio do caminho, parou um carro com uma família portuguesa que, aparentemente, estava perdida naquele bairro tanto quanto eu. Pediram-me indicações e, obviamente, eu não sabia. E ainda insistiram, perguntando pelo nome de outra rua. Como se eu soubesse o nome de qualquer rua, aliás. Foram embora com raiva achando que eu não queria dizer por má-vontade.

Anos atrás, precisei ir até o outro lado do globo a trabalho. A caminho da Coréia do Sul, fui obrigado a fazer conexão nos Estados Unidos, nas proximidades de Seattle. Como tinha uma colega brasileira morando na região, resolvi pedir umas dicas, estiquei a passagem e fiquei três dias em uma cidadezinha bem pequena nas redondezas. Achei uma biblioteca municipal que tinha acesso à internet de graça, meu único contato com o mundo exterior na ocasião.

Certo dia, enquanto lia meus jornais online, uma típica loira-americana entre 40 e 50 anos que estava na cadeira ao lado olha em minha direção, dá uma batidinha de leve no meu ombro e pergunta: me desculpe, mas você poderia soletrar “architecture” para mim?

Eu estava tão entretido no jornal que, na hora, nem processei direito aquela situação bizarra, apenas soletrei a palavra e voltei minha atenção para os jornais, mas alguns minutos depois perdi a concentração na leitura e só consegui pensar comigo mesmo: êpa, que diabo aconteceu aqui?

Aparentemente, aquela manceba digitava uma carta ou algum documento importante, porque parecia bem concentrada. Quinze minutos depois, a criatura dá outra batidinha no meu ombro e pergunta: desculpa de novo, mas você poderia soletrar “whacked” para mim? É que estou escrevendo um….

Na mesma hora a interrompi e, frustrado, simplesmente disse: minha senhora, me desculpe, mas eu não sou daqui, sou gringo, acho que não falo inglês muito bem e evidentemente não sei soletrar palavras em inglês, aliás, estou até de saída porque meu tempo acabou e, como todo bom estrangeiro latino-americano, money is good mas nós não have.

Depois fiquei a matutar por dias e dias. Bom, se vale como defesa daquela criatura, a palavra “whacked” é realmente complicada até para os americanos. É comum confundir “wacked-out” com “whacked-out” que, apesar das diferenças na escrita, significa a mesma coisa e ambas estão corretas.