Da fofura à gastura

Da fofura à gastura

Paulo Rebêlo | abril 2022


Quando escuto minhas amigas em dúvida se ainda gostam do boy (ou do coroa) delas, eu já sei a resposta, elas também já sabem a resposta, mas a gente senta para beber e concluir o óbvio mesmo assim.

O único que nunca sabe de nada é o dito cujo, pois a gente tem essa tendência meio delirante, meio Pollyana-Moça, de achar que as mulheres estão sempre contentes do nosso lado; simplesmente pelo fato de elas não terem ido embora.

São vários termômetros diferentes e as percepções também diferem, mas quando a gente começa a pensar sobre, geralmente concluímos o que já sabemos porque a mais óbvia das obviedades é que somos todos iguais na cabeça.

Justamente por causa dessa igualdade replicante, e mentalmente estúpida, o meu particular teste do sofá (não é o que você está pensando) sempre funciona quando compartilho a tática com essas amigas em dúvida de mentirinha.

Meu teste do sofá não tem safadeza, até porque safadeza é justamente o que não existe em relacionamentos a longo prazo. A proposta é outra: olhe para o sofá como se fosse um termômetro da sua percepção de fofura em relação ao outro.

E qual seria o fator de medição?

É fácil. Embora eu deteste gente fofa, acho muito fofo como as mulheres conseguem enxergar fofura onde só existe caos e bagunça.

Quando eu sento no sofá com meu pijama e minhas meias furadas, o controle remoto fica estacionado estrategicamente em cima da barriga e minha meta é ficar literalmente enterrado ali entre as almofadas e não sair mais, nunca mais, me deixe em paz.

Tem apenas duas situações passíveis de quebrar o status quo da estátua gorda: ou começou o apocalipse zumbi ou o interfone tocou para avisar que chegou pizza.

Entenda, isso não é engraçado e nem é para fazer graça, apenas é assim naturalmente.

Algumas pessoas acham fofo. Não entendo, mas respeito. Até admiro, às vezes. Elas observam com ternura aquela protuberância abdominal elevada e admiram com candura a lerdeza dos meus movimentos em busca do pacote de salgadinho ou de mindoím.

Quando percebem minha mão estendida no ar, sem tirar o olho da tela da televisão, esperando que a fatia de pizza caia do céu, elas abrem a caixa, cortam e entregam um pedaço com um sorriso no rosto. Acham que é um urso panda fazendo pandices.

Enterrado no sofá e no meio da organização apocalíptica que costuma imperar nos cafofos onde moro, às vezes parece que elas estão de férias no zoológico ou fazendo um safári antropológico.

Ou talvez turistas espaciais explorando um planeta distante e muito diferente do delas.

Quando você começa a parar de enxergar fofura nesse cenário Jurassic Park no sofá, encare como o primeiro sinal de alerta e acredite: você não precisa do segundo.

Porque a gente, o bicho-homem, a gente não muda.

E a gente, ser humano, eu e você, temos pelos menos dois séculos de tratados psicológicos, estudos científicos e muita psicanálise para dizer exatamente a mesma coisa.

Seguimos mais incólumes e imutáveis do que o sofá onde estamos enterrados.

Um belo dia, você acorda no meio do safári e parece que o urso fofo deixou de fazer pandices e agora parece mais um Tiranossauro Rex: um monstrengo desajeitado, desarrumado, preguiçoso, meio inútil, meio inoperante, e que só come salgadinho e brebôte.

Quando o urso começa a virar dinossauro, geralmente falta pouco para o meteoro da extinção chegar.

É quando a fofura começa a virar gastura.

Aquela lerdeza fofa dos movimentos virou pura preguiça. O pacote de salgadinho é uma sabotagem com a própria saúde. Não querer levantar para fechar a janela se transforma em má vontade, descaso, quiçá egoísmo com o bem estar alheio.

A gastura é sempre bem visível nos olhos femininos e deveria funcionar como um sinal de alerta para gente, porém, entre tantos vários defeitos do bicho-homem, a falta de percepção sobre absolutamente tudo relacionado ao outro é provavelmente o maior de todos.

Agora visualize a cena final, antes do meteoro da extinção, quando os dinossauros achavam que eram felizes e dominavam o planeta: você chega em casa depois de um dia longo de trabalho, aquela rotina entediante, burocracia sufocante, chefes idiotas, conversas sem argumentos, piadas sem graça, um monte de homem machista dando pitaco nas suas ideias, amigas invejosas querendo sabotar sua paz… e ao chegar em casa, já tarde da noite, tudo que você quer na vida é um banho quente, um abraço, um cafuné e uma marmita no tapaué.

Mas ao abrir a porta de casa, eis a visão do inferno: um macho careca com meias furadas, prostrado no sofá, com aquela barriga de trigêmeos prestes a nascer, farelos de salgadinho pelo chão, garrafa de coca-cola vazia pelo sofá, a televisão nas alturas e, talvez, alguns grunhidos sem sentido no headphone com outros tiozinhos que estão online no jogo multiplayer do videogame, em plena segunda-feira, xingando crianças de 12 anos que jogam (muito) melhor que a gente.

E você ainda precisa escutar que tá faltando homem no mercado.


FOTO EM DESTAQUE
Beijing, China. Outubro/2016.
Um urso panda no zoológico.
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