As mulheres que nós (ainda) amamos

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Paulo Rebêlo // março 2009 *

De todas as peculiaridades femininas, há três quase sobrenaturais que nem a ciência ou a psicologia haverão de explicar aos homens.

Seis meses é todo o tempo necessário para uma maravilhosa mulher se transformar em outra nem tão maravilhosa assim. Em seis meses elas ganham doze quilos, cortam os lindos cabelos longos, se transformam em estufa de espinhas ou viram lésbicas. E por mais tempo gasto pensando como alguém consegue mudar tanto em tão pouco tempo, mais convencido você fica que a culpa só pode ser de alienígenas que invadiram a Terra e tomaram o corpo e a mente daquela mulher para experiências. E nem avisaram antes.

Ao mesmo tempo, seis anos parece não significar nada para um grupo de mulheres maravilhosas que certamente assinaram um pacto com o diabo. Depois de seis anos sem encontrá-la, você não acredita quando ela abre a porta do carro ou entra pela porta do restaurante e aparece ainda mais linda. Surgem novas rugas no rosto daquela linda mulher que há apenas seis minutos você esperava rever… com dez quilos a mais, de cabelos tingidos ou namorando uma halterofilista chamada Carlinha, assim mesmo, no diminutivo.

Mais curioso ainda é encontrar, seis anos depois, essas mulheres maravilhosas no mesmo lugar de antes. Ocasionalmente continuam na mesma cidade, no mesmo trabalho, na mesma bancada, no mesmo vestido e com o mesmo sorriso que as transformaram nas mulheres que nós amamos.

Mas nenhuma outra peculiaridade feminina supera as seis semanas que separam você da lata do lixo.

Em seis semanas, a maioria das mulheres consegue jogar para debaixo do tapete todo um passado de planos, sonhos e amores. E bastam seis dias para você se descobrir uma insignificante companhia. Seis semanas depois, um fardo. E a gente fica sem saber se deve invejar essa incrível capacidade de seguir adiante ou tentar aprender (e imitar) isto que talvez seja um percurso normal na longa estrada da vida.

Em seis semanas, é como se todas aquelas loucuras de verão e juras de paixão nunca tivessem existido. Diante de um passado jogado para debaixo do tapete, sempre me perguntei como elas ainda aceitam nos ver cordial e fraternalmente depois de tanto tempo. Seria por amor ou por raiva?

Seis graus de aproximação –

Seis anos (e sessenta e-mails) depois de escrever “As mulheres que nós amamos”, aparentemente a equação nem sempre inclui amor ou raiva. E a cordialidade se resume a, simplesmente, nos encontrar.

Nem que seja às escondidas, para nos mostrar como elas continuam lindas e desejadas mesmo depois de todo esse tempo. Para nos mostrar quem a gente perdeu e, principalmente, quem não vamos recuperar nunca mais.

Elas não fazem questão alguma de ir aonde estivermos. No café da esquina, no restaurante do shopping, na pracinha do bairro, no bar em frente à pousada ou no próprio quarto de hotel. Seis horas depois, pouca diferença faz se ela tirou a roupa ou não, desde que deixem o recado. Porque elas sabem: talvez leve outros seis anos até você aparecer novamente.

Algumas olham com desdém. Estão casadas e se dizem felizes – nem que seja para o próprio espelho, como um mantra a se tornar realidade de tanta repetição. Vão frisar como encontraram o homem certo e formaram a família perfeita. E enquanto vestem a roupa para ir embora, lembram que você nunca terá essa ‘felicidade’ na sua vida. Quando se vão, a gente fica sem saber se elas voltam para casa, dão um beijo no marido e se acham a mulher mais feliz do mundo de verdade; ou se correm para trancar-se no banheiro e chorar compulsivamente pelo desastre em que transformaram suas vidas. É uma dúvida que você está destinado a carregar.

Outras vão fazer questão de levar o filho pequeno, com a incrível desculpa de que a babá está doente. E mais incrível ainda é como essas criaturinhas do inferno às vezes conseguem ser fofas e cativantes, não à toa sendo exibidas como troféus pelas mães enlouquecidas. Você quase consegue ler os pensamentos dela: “você não quis, mas eu consegui assim mesmo, morra de inveja”. Você não chega exatamente a morrer de inveja, é verdade, mas na hora de ir embora fica sem saber se elas levaram o guri para passar na sua cara a tal da ‘vida feliz e estável’ que você supostamente perdeu; ou para insinuar que talvez aquele capetinha bochechudo possa ser seu. Por mais que você confie na ciência e desconfie dos remédios, esta é outra dúvida que os homens estão destinados a carregar.

Parte menor destas mulheres maravilhosas simplesmente silenciam. E não existe nada mais ensurdecedor do que o silêncio. Vocês podem almoçar, tomar uma cerveja, andar pela praia. Conversar amenidades, como bons amigos em reencontro. Podem acabar a noite no quarto ou passar o dia inteiro juntos sem sequer se tocar nas mãos, mas ninguém vai falar no assunto, ninguém vai conversar sobre o passado. Porque não será preciso palavras para lhe mostrar o quanto você perdeu. Ela está ali, linda como sempre foi, ainda mais engraçada e inteligente do que você recordava. A noite vai chegar e trazer a hora de ir embora. Ela lhe beija como se fosse o último beijo. E você fica querendo gritar que não precisa ser o último, mas o silêncio é tão alto que as palavras não saem. E aquelas mãos miúdas escorregam e somem sem nem perceberes porquê.

Elas retornam à vida delas, não se sabe para onde ou com quem. Ficaram ainda mais doces como o vinho, por mais infelizes que possam estar por dentro, embora felizes para a família e para os amigos. Por mais saudades que possam ter, elas aprendem a jogar aquele passado para debaixo do tapete como as demais, sem jogar o tapete fora.

Vão abraçar os namorados e maridos, depositando toda a confiança do mundo no que se tem naquele momento. Porque de todas as pequenas coisas que ela herdou de você, hoje nada parece mais importante do que achar uma curva naquela estrada que pode ser longa, mas não infinita. E quando entram no táxi para ir embora, levam um pedaço de você junto na mala e o deixam pensando se seriam capazes de jogar novamente tudo para o alto por uma estrada desconhecida.

Provavelmente não, mas esta é outra dúvida que você está destinado a carregar, junto à única certeza de que essas mulheres continuam sendo as mulheres que nós amamos. Mesmo quando não nos amam mais.

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.: crônicas relacionadas :.

  • As mulheres que nós amamos (2002 / 2003)
  • Reencontros dialogados (2004)
  • As cinco mulheres de todo homem (2002)

* publicada no dia internacional da mulher 2009