Retrospectivas e expectativas

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
Janeiro 2006

Este mês marca o início do quarto ano da coluna música e internet na Backstage. Desde janeiro de 2003, nunca tivemos maiores esperanças de que a indústria fonográfica fosse mudar de abordagem em relação aos artistas e consumidores. No entanto, revisitando os três últimos anos nos quais temos torturado o leitor com nossos devaneios, é quase confortante perceber que, apesar dos pesares, o mercado como um todo tem caminhado em uma direção bem menos sinuosa do que outrora.

Evidente que ainda há muito, talvez quase tudo, a ser feito. Músicos e consumidores continuam a enfrentar sérios problemas com as peças que integram este leviatã chamado de mercado global da música. É preciso lidar com a hipocrisia, a ganância desenfreada e a demagogia, seja de gravadoras quaisquer ou de entidades e associações que dizem proteger os direitos do autor. Sem contar fatores secundários, como o falso moralismo quando se trata de pirataria doméstica e, inclusive, a impostura e a inércia de uma série de músicos que preferem manter o silêncio para, quando indagados sobre a questão, condenarem a pessoa que compra o CD pirata no camelô, muitas vezes, sem sequer saber do que estão falando.

Contudo, hoje temos um quadro bem melhor do que tínhamos em 2003. Claro, é radicalmente diferente de 1997, quando o MP3 começou a realmente se popularizar entre os usuários leigos de internet mundo afora, e de 1998, quando os brasileiros já haviam aderido em massa à febre da música digital com qualidade de CD. Desde a célebre derrocada do Napster em 2001 até meados de 2004, o ciclo movimentado pela indústria repetiu-se: a demonização do MP3 e de tudo relacionado ao formato, incluindo softwares para troca de arquivos e, pasmem-se, às vezes até mesmo arquivos promocionais gravados nesse padrão.

Aqui na coluna, reconhecemos ser difícil manter uma linha enxuta e didática por deveras vezes. Desde o início, acreditamos que nosso papel não é mostrar o que é certo ou errado, porque não temos a solução além de singelas sugestões cujo alicerce é um só: quem vive de passado é museu. A indústria e o mercado tentam repetir práticas jurássicas, tanto na convivência com artistas, quanto na oferta de produtos ao consumidor.

No entanto, tentamos apresentar opções viáveis e revelar detalhes os quais, nem sempre, o leitor/consumidor tem condições de saber. Vide as questões do jabá e das famigeradas estatísticas sobre o prejuízo da pirataria, dois temas sempre abordados na coluna. E cada um que tire a própria conclusão. Aos leitores assíduos, a conclusão deste espaço mensal é a mesma de sempre: não importa a direção tomada pela indústria fonográfica, pelas associações ou até mesmo pelos músicos que silenciam. O fato é que, sempre, sem exceção, o peso recai sob os ombros do lado mais fraco: o cidadão. Aquele consumidor médio, assalariado, que tem o azar de reconhecer-se como ser humano normal e, como tal, gostar de música, de chegar em casa e escutar algo que lhe agrade aos ouvidos.

BYE, BYE MP3 – Nossa primeira coluna na Backstage teve como título “Música grátis, onde?” e lidava, em termos gerais, com a dificuldade de encontrar MP3 na internet para download, naquela época. A RIAA (Recording Industry Association of America) ativou seu batalhão de choque a partir de 1998 e, desde então, foi ficando gradativamente mais difícil fazer o download de música grátis em sites comuns na web.

Vale a pena reler este trecho daquela primeira coluna: “Mesmo hoje, ainda é relativamente fácil achar músicas de graça a partir de softwares alternativos, como Gnutella, Kazaa, Edonkey e outros. Em breve, pode não ser mais. As opiniões divergem: uma facção de músicos e artistas acredita piamente que esse tipo de “divulgação” é maléfico, diabólico; enquanto outro grupo acredita que não é necessariamente assim, que o buraco é mais embaixo.”

Hoje, 2005, vê-se exatamente o que se previa naquela época. Tornou-se difícil, quase impossível, encontrar músicas nesses chamados softwares alternativos, sobretudo o Kazaa, que foi o mais famoso na era pós-Napster. Quem usa programas para troca de arquivos, deve ter percebido que os processos judiciais da RIAA e a pressão de provedores de acesso conseguiram, de fato, espantar boa parte do pessoal que compartilhava músicas.

O download de MP3 continua livre na internet, porém, distante do usuário médio. Quem entende um pouco mais do riscado, ainda pode procurar ferramentas alternativas em busca de álbuns novos. Mesmo assim, a maioria dessas pessoas reconhece que a dificuldade aumentou exponencialmente. O medo passou a imperar. E perguntamos: o preço do CD caiu nas lojas? Há novidades interessantes? Há novas estratégias de mercado para conquistar o consumidor? Por fim, será que o consumidor médio tem motivos para comprar um CD por R$ 25,00 que é exatamente igual em conteúdo ao piratão vendido por R$ 5,00?

A VIDA ANTES DO MP3 – De um ponto de vista estritamente pessoal, fico pensando o que seria de mim se não existisse o MP3, principalmente entre os anos de 1997 e 1999, quando a febre estava no auge. Quem curte jazz deve saber que, mesmo hoje, é difícil encontrar lojas com títulos raros e especializados. Quando você encontra, precisa pagar uma pequena fortuna pelo CD. Se isso ocorre hoje, imaginem há cinco, seis anos? Não é somente com jazz. Qualquer banda ou música fora do circuito comercial, sobretudo aquelas de países pouco conhecidos, simplesmente não existem para a gente.

Só comecei a ouvir jazz em meados de 1992 ou 1993, graças a um filme chamado Blue Ice (Blue Ice, UK/USA, 1992) com o eterno-espião Michael Caine e a sempre bela Sean Young. Até 1997, fiquei preso a poucos discos – e fitas K-7 principalmente – que pegava emprestado ou eventualmente encontra, a um preço razoável. Não há dúvidas de que o jazz americano, no berço, é o supra-sumo da categoria. Mas daí a imaginar que apenas os americanos fizeram e fazem jazz de qualidade, há uma distância enorme. E ninguém poderia fazer novas descobertas musicais sem o MP3. Vale para jazz, rock, new age, enfim, qualquer estilo. Lembro agora de Lisa Ekdhal, da Suécia, que é tudo o que a Diana Krall quer ser quando crescer.

Para a música, a internet representa um papel cuja importância ainda há de ser estudada e analisada de forma mais contundente, em um aspecto socio-cultural. Músicas, filmes, livros… é tanta coisa. Ainda não temos a menor noção sobre o que ela representa e o que ainda vai representar.

Um bom passo é olhar para trás e tentar lembrar de como era a vida antes da internet e do MP3, musical e culturalmente falando. Sobre um tema parecido, vale a pena ler o artigo de Fábio Fernandes, publicado mês passado na revista online Webinsider, falando em como a internet pode salvar o seu dia na hora de procurar uma obra clássica e reconhecida internacionalmente, mas que as pessoas esqueceram ou que está, simplesmente, fora de catálogo nas lojas. O link é: http://webinsider.uol.com.br/vernoticia.php/id/2637

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