Parem o mundo que eu quero descer

Paulo Rebêlo
Revista Backstage
abril 2005

Boas músicas, boas comidas, bons filmes e bons livros. Precisa de algo mais? Talvez boas mulheres, se a coluna fosse para uma revista masculina. Como não é o caso, vamos deixá-las temporariamente ausentes da analogia — na verdade, a gente não quer é receber e-mails desaforados das neofeministas de plantão.

Uma boa música é reconhecidamente cada vez mais difícil de encontrar. Nas lojas de CDs, só lhe empurram as mesmas figuras que perduram há décadas, com regravações assépticas e edições acústicas comportadas – que geralmente nada mais são além das mesmas regravações, ainda mais comportadas, porém com convidados de credibilidade duvidosa e vários agradecimentos e bate-palmas fingidos. Quando você encontra uma banda nova, um som diferente e interessante, descobre que o disco é importado e custa quase o preço que algumas pessoas (eu) pagam por mês de condomínio.

Sem dinheiro para comprar o CD, você recorre à Internet… até para conhecer um pouco mais daquela banda finlandesa. Desiste no terceiro minuto de download, quando tenta imaginar suas filhas levando nissin-miojo no presídio, após você ter sido julgado e condenado por pirataria e violação de direitos autorais. Afinal, caso você ainda não tenha descoberto – possivelmente não lê nossas colunas mensais na Backstage, com toda razão – você é um criminoso em potencial aos olhos da indústria fonográfica nacional e internacional. E os seus downloads representam um verdadeiro furto, quase um latrocínio, contra as diretrizes humanitárias proclamadas pelos pobres executivos da indústria multinacional de entretenimento, que nunca enganam a sociedade e jamais mascaram números relativos aos próprios lucros. Estão em crise, coitados.

Sem boa música, sobram as boas comidas. Infelizmente, a gastronomia brasileira passa por uma apimentada crise de identidade e, hoje, aqueles saborosos pratos que os gringos vêem no cinema só existem no… cinema. E no cinema gringo, porque a sétima-arte nacional quer ser moderninha e só mostra atores comendo em locações do tipo McDonald’s e outros ícones da culinária ameri… digo, globalizada.

A gente não tem mais tempo para almoçar, porque a empresa reduziu o horário do almoço de duas horas para uma. Logo, somos obrigados a nos entupir de carboidratos, triglicerídeos, lipídios, colesterol e gordura saturada com a chamada fast-food, que a gente insiste em chamar fast-food para parecer ainda mais moderno. Pedimos um sanduíche duplo que nos ensinaram a chamar de double-alguma-coisa, sem esquecer do sotaque acentuado no dábôu, pois assim todos na fila vão perceber como você é fluente no inglês.

Como a idade não nos permite mais certos excessos, a borracha requentada vem acompanhada de um refrigerente diet. Ou seria light? Na dúvida, melhor pedir uma cerveja, pois cai bem com esses sanduíches que na minha infância eu chamava de borracha. Eu até mordia a borracha durante as provas de matemática, mas não fazia daquilo meu almoço. E nem pagava uma pequena fortuna por isso.

Na hora do jantar, se você for um felizardo em conseguir sair do trabalho antes das 23h, ainda pode tentar ir a um bom restaurante e desfrutar de um prato suavemente saboroso. O problema é que, com a necessidade de a economia brasileira se adaptar aos tempos modernos, os restaurantes decidiram que comida decente é coisa chique e cara, só os engravatados da indústria fonográfica podem custear mais este supérfluo capricho. Com o salário atrasado, isto é, se você for um assalariado fixo, o jeito é parar naquele trailer cuja placa diz “Sandubão do Tio Zé”. Lá você pede um “ambúrgui” X-Tudo a um preço camarada, porém sem garantias de boa digestão e sem abrir o pão para ver o que há ali dentro. Porque da última vez que você fez isso, não teve coragem de seguir adiante.

Ainda bem que, ao chegar em casa, satisfeito por ter feito uma refeição decente sem gosto de borracha, graças ao Tio Zé e seu ambúrgui turbinado, você terá bons filmes para assistir. Na televisão, provavelmente está passando pela bilionésima vez algum blockbuster da década de 80, com galãs que descobriram a fórmula mágica do rejuvenescimento. Pior é saber que você também descobriu as mesmas fórmulas: Photoshop e Final Cut Pro. Falta apenas aprender a usar, haja visto um único dia de aula ser mais caro do que o CD importado que você deixou de comprar somado à comida decente que você deixou de comer.

Felizmente, você tem a opção de ir a uma locadora. Como só chega do trabalho tarde da noite, as únicas abertas são, justamente, aquelas que cobram o valor mais caro pela locação. Ao chegar lá, você não encontra o filme que deseja assistir, porque alguém com um horário normal de trabalho e um salário menos indecente chegou primeiro e levou todos os últimos lançamentos. Por sorte, é final de semana e você pode ir ao cinema pegar a sessão-saideira, aquela de 0h30. Então você percebe: em quase 50 salas de exibição disponíveis na cidade, todas passam apenas os mesmos pastelões americanos que são iguais aos pastelões que você assistia quando jovem, mas agora com acréscimo de efeitos especiais de última geração e mulheres lindas e esbeltas. Parecidas com o canhão que está lhe esperando em casa com aquela camisola desbotada.

De volta para casa, lhe restam os bons livros. Um passatempo que ninguém há de lhe tomar, por mais que tentem. Pois não é que estão tentando? Agora querem fazer com os livros o mesmo que a indústria fonográfica tenta com as músicas. Querem transformar você em um criminoso por pegar emprestado de um colega ou tirar xérox daquela obra que não existe mais em nenhuma livraria local, regional, quiçá nacional.

Xerocar livro virou sinônimo de crime, segundo entende o governo de esquerda e socialista que ajudamos a eleger com esperanças de que fosse acabar com a GGG: galinhagem globalizante golpista. Trata-se de uma das medidas inclusas nas ações aprovadas pelo chamado Conselho de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual, do Ministério da Justiça.

O primeiro conselho do Conselho é: se você não tem 70 reais para comprar um livro importado que nenhuma livraria brasileira vende, mas aquele seu amigo pseudo-intelectual tem guardado na biblioteca (sem nunca ter lido), nem pense em tirar xérox. É chave de cadeia. Passaporte para ver o sol nascer quadrado.

Também não importa se você é universitário e cursa a faculdade com bolsa de estudos ou com crédito do FIES. Nem pense em tirar xérox para poder estudar com afinco e, posteriormente, trabalhar em prol da pátria-mãe e aquecer a economia nacional. Até porque, se tirar xérox do livro para estudar, você será tachado apenas como um filho. Da mãe. E a única coisa que irá aquecer é… bem, você sabe.

Como somos todos brasileiros descolados e globalizados, podemos nos gabar das nossas bem localizadas e muito bem estruturadas bibliotecas, com um elevado índice de livros por pessoa e um ainda mais acentuado índice de leitura nacional.

É óbvio e ululante que nenhuma ONG fez panelaço e nem instigou a sociedade civil a jogar tortas nas belas faces dos prezados senhores em questão. Sim, porque história de panelaço é coisa de argentino, aquele povo atrasado que a imprensa vive dizendo que são pobres e coitados, ou pobre-coitados, mas que colocaram o FMI nas rédeas e reataram o conceito de soberania nacional. O Brasil não tem panelaço, é um povo educado (ou “cordial”, se quisermos academizar) e prefere que os outros montem em cima. Ainda bem que é para o nosso bem! Só assim poderemos manter o equilíbrio fiscal. Dos bancos.

Assim como a música, tirar xérox de livros está sendo classificado pelo Governo como apropriação [indevida] do conhecimento alheio. E eu, ignorante que sou, sempre achei que o alicerce da sabedoria fosse, exatamente, a apropriação e aplicação dos conhecimentos alheios. Santa ignorância, Batman. Minha salvação é sempre ler a Revista Olha, com aquele ranking dos livros mais vendidos, para só assim ter subsídio intelectual na hora de juntar as sobras do salário de seis meses e comprar o livro mais vendido das últimas semanas, o qual certamente me deixará menos ignorante.

E ao final desta longa reflexão cotidiana-musical, a última coisa que você vai se preocupar é com as mensagens oriundas da ala das neofeministas mal-amadas de plantão. Sem boas músicas, boas comidas, bons filmes e bons livros, não custa reforçar que também as boas mulheres estão em extinção acelerada.

E quando você encontra uma mulher interessante – ou reencontra, depois de anos – descobre que estão casadas e passando muito bem, obrigado. Ocasionalmente você encontra outra, mas aí esquece que existem trocentas outras pessoas que ela têm em vista — apesar da sua interessante figura. Agora dêem licença, pois é hora de comer a marmita, ler o livro de auto-ajuda xerocado, escutar o CD pirata e rezar para que o canhão da camisola desbotada não acorde.

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