Prazeres solitários

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Paulo Rebêlo | junho.2008 | email

Depois de quase 14 horas de trabalho, com dois intervalos para lanche e 35 descidas para o cafézinho fraco e requentado de cantina, ao chegar em casa às 2h30 da manhã nada é mais prazeroso do que abrir a porta e ouvir apenas o suave barulho do compressor da geladeira.


Com a cabeça ainda zunindo com centimetragens fora de ordem, fotos que desaparecem de última hora e aspas fora de contexto, aquele pequeno cubículo azulejado de 40 metros quadrados na sua frente é quase a entrada de paraíso. Não tem ‘boa noite’, não tem ‘como foi o trabalho’, não tem ‘au-au’ e nem ‘miau’. É só a escuridão e o pouco de luminosidade que vem da rua, numa mistura a cada dia mais em harmonia.

Não precisa nem acender a luz. Ao abrir a geladeira em busca por comida congelada, a luz amarela e vacilante ilumina o suficiente para você jogar seus bagulhos no chão de casa e achar o único copo decente. Com gelo, por favor.

Bem ao longe ainda dá para escutar os resquícios de um show de pagode no clube da esquina, provavelmente os incautos que ficaram até o fim e sobreviveram, quer dizer, não foram esfaqueados. Melhor assim. Com aquela dose de J&B e o último pedaço de borda de pizza fria, o som de pagode à distância é um sinal de que, se aqui não há nada pulsante, ao menos lá fora alguém ainda tenta.

Se o cansaço permite, a segunda dose é a palavra-chave para puxar a cadeira de plástico e olhar os poucos carros que passam, sem horário, sem pressa, talvez sem rumo. Dá para dormir ali mesmo, pois a rede estendida na sala fica a meio metro de distância e adormecer de roupa economiza na lavanderia da semana seguinte.

Volte aqueles que não foram —
Explicar pequenos prazeres solitários, que não têm nada a ver com masturbação e é bom frisar, só se torna possível para o infeliz grupo de urbanóides que desistiram de tentar entender o barulho das pessoas, as discussões inúteis entre casais, os amores frustrados e as paixões vazias.

É como aquela cerveja gelada antes do almoço, a qual tantas vezes custa quase o mesmo preço da refeição inteira naquela birosca imunda. Mas não dá para deixar. Talvez uma ou duas perdidas entre aquelas inúmeras moscas fossem sentir sua falta.

Também é como sentar no mesmo restaurante vazio de tantos anos e assistir o noticiário, enquanto o bife à milanesa não chega. Rabiscando no guardanapo, porque o noticiário acabou faz tempo e a promessa de não ficar escrevendo rabiscos em cadernetas na rua só fez piorar sua situação; agora, são tulhas de guardanapos na mesa de casa quando chega bêbado e com o bolso cheio. Normal, pois quem promete é crente e quem jura é padre.

O povo que se considera são (e salvo) não costuma engolir esse tipo de realidade paralela. Eu os invejo. Não pelo cachorrinho que pula em cima de você abanando o rabo quando chega do trabalho; não pela mulher que engordou cinco quilos porque aprendeu a cozinhar maravilhosamente bem graças a sua inexplicável fome da madrugada; não pelo almoço caseiro que lhe espera no dia seguinte ou o passeio no parque com os pimpolhos alucinados pela ausência semanal do pai. Mas, sim, pela proximidade de uma liberdade que eles têm e não sabem, não sentem ou não imaginam.

Para os ainda presos, tudo será bem mais fácil. Se enjoar do feijão-com-arroz, se der tudo errado, se a mulher lhe trocar pelo Jorjão (o borracheiro), a tentativa de liberdade solitária está logo ali, perto, debaixo do nariz. O adestramento é difícil, a adaptação idem. Mas o inverso também e, de vez em quando, não custa nada tentar. O problema é aprender a perder o cachorro, a mulher, a comida quentinha, o lençol forrado e o cangote cheiroso.

Problema, sim, porque depois que você teme o cenário de perdas e achados, vai pensar que é uma questão de tempo, uma fase passageira. De repente, até mesmo um requinte de jovialidade ou uma tentativa de querer seguir um rebanho desconhecido. Só que quando o tempo passa e anos depois você se vê dependente daquele barulho de compressor, da luz amarela e das roupas amassadas e espalhadas pelo chão, o discurso ‘jovial’ cai por terra e o que resta? Se internar no hospício? Remédio tarja-preta? Puteiro? Cachaça?

Tanto faz. Até porque não vai ter ninguém para ver, latir, reclamar do horário tardio. E mesmo assim, você vai se considerar uma das pessoas mais felizardas do planeta, até injustamente, pois ainda consegue comprar uma garrafa de J&B trabalhando com o que gosta e ver o sol nascer antes de todo mundo.

  • Rosano Freire

    Paulo, conheci agora alguns dos seus textos. Pra mim foi muito aprazível lê-los. Parabéns! Abraços!

    • Rosano, fico feliz que tenha gostado. Volte mais vezes ou assine a newsletter!