Um vôo em conflito

Paulo Rebêlo | setembro.2008

Não adianta escrever mais sobre as frustrações em viagens de avião, com direito a aeronaves mais apertadas do que ônibus de linha e passageiros que parecem nunca ter visto comida na frente.

Como nem tudo é aperto e nem todos são morta-fome, um vôo de longa duração e relativamente vazio até que tem um pouco de serventia. Você termina refletindo sobre coisas realmente importantes na vida. Por exemplo: por que é tão difícil achar uma aeromoça gorda?

Para onde elas vão? Será que são sugadas pela estratosfera? O máximo que consigo lembrar são aeromoças fracas de feição. Mesmo assim, longe das barangas que a gente vê na vizinhança e no trabalho.

Com horas cada vez mais largas e poltronas cada vez mais apertadas, o recinto também termina se tornando uma extensão do escritório. Não entendo direito a paranóia de transformar avião em escritório. Por onde a gente passa, tem propaganda e folheto que prometem transformar sua viagem em “produtividade”.

Já tem até internet rápida para usar no notebook. Quando fui perguntar, ou melhor, quando fui gritar pela internet quase abraçado com a turbina do avião no pé do meu ouvido, a aeromoça só fez gritar do outro lado: “executive class”.

Fiquei me perguntando se, a partir da histeria empresarial dos homens de negócios, as aeronaves vão oferecer também as secretárias? E bilíngues, claro, porque o bom uso da língua é fundamental. Serão as aeromoças multifuncionais ou os executivos levam a secretária de casa mesmo?

Só sei que nenhuma novidade tem chegado aqui para a mundiça da classe econômica. Muito menos a secretária. Lá na frente, no bon-vivant, as poltronas se transformam em cama. Para aquilo virar um motel, vai ser um pulo. Ou melhor, uma turbulência.

DESGRAÇA POUCA –
Enquanto isso, aqui no fundão, da última vez fui tentar olhar discretamente um decotezinho na poltrona ao lado e tive que me contorcer tanto a ponto de minha coluna travar. Fiquei pelo menos três minutos sem conseguir me mexer. Foi preciso explicar à cidadã que não precisava pedir ajuda. Era ginástica laboral, aprendi no trabalho.

Aí a gente tenta esquecer um pouco essa vida mundana, aproveitar o silêncio de um vôo solitário e trabalhar. Se é para ser chique, que ao menos seja com estilo, acompanhado de uma cerveja ou garrafinha de vinho.

Mas chique é uma palavra que não combina quando você viaja ao lado do mictório aéreo, não entendo exatamente o motivo. Aqui no fundão cobram seis a dez dólares por qualquer bebida alcóolica, isso na principal companhia americana.

Ainda argumentei que não tinha paladar de executivo, aceitava uma Nova Schin, quem sabe uma Kaiser quente? Mas de resposta apenas aquele olhar de quem não faz a menor idéia. Kaiser what? Não conheciam vinho Carreteiro também. Fariseus. Todo mundo conhece o Stênio Garcia.

A água ainda é de graça, mas é curioso como demoram quando a gente pede o segundo copinho. De tanto esperar (e fazer ginástica laboral), a bateria do notebook chega ao fim. E minha coluna, também. E com ela o nosso ideal de produtividade aérea.

O jeito é voltar a refletir sobre as coisas importantes da vida pelas próximas nove horas e duas torradas. Por que as aeromoças precisam usar roupas tão apertadinhas, meu deus?

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