Um messias chamado torresmo

Paulo Rebêlo Terra Magazine 08.fevereiro.2012 link Às vezes, tudo que a gente precisa na vida é um torresmo e um quartinho de pinga. Durante uma das épocas em que eu chegava do trabalho de madrugada, todos os dias, o único lugar para encontrar um prato de feijão com macarrão era um boteco bem derrubado na esquina de casa. Havia vários outros lugares interessantes por perto, mas aquele era o mais barato e o único com televisão onde a gente conseguia ver a imagem e ouvir o som. Um lugar onde engraxates, flanelinhas, vigilantes e outros trabalhadores da madrugada se encontravam para juntar as moedas e dividir uma garrafa de pinga antes de ir para casa. Não somente pelo preço, mas sobretudo porque ali os clientes, garçons e donos eram todos iguais. Sem frescuras e sem olhares enviesados. Eventualmente, quando era jogo do Corinthians, o dono (fanático) liberava de graça duas cervejas ruins para cada um dos frequentadores assíduos. Geralmente Antarctica Subzero, Brahma Fresh ou Nova Schin. A festa estava montada. A dor de cabeça também. De madrugada, sem Jornal da Globo ou jogos de futebol, um senhor sempre descia a rua com a mesma roupa, a mesma mala preta quase rasgada e

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Café, sopa e mulher

Paulo Rebêlo Terra Magazine * 22.jun.2011 Tomar um bom café é quase como admirar uma bela mulher. Você pode olhá-la como o cafezinho de repartição naquele copo de plástico; ou café orgânico em xícara de porcelana francesa, com tanta qualidade que apenas o cheiro faz você parar no tempo, sentindo aquele aroma encorpado a subir pelas narinas. Você já deve ter lido, em algum lugar, que somente os bons cafés liberam um rastro olfativo bem peculiar. Você não deve ter lido, mas certamente recorda que as mulheres mais marcantes da sua vida carregavam um cheiro ímpar, daqueles que a gente procura e não encontra nunca mais. É que cheiro de pele não vende no duty free. Enquanto você não encontra novos cheiros ímpares, o jeito é seguir bebendo café ruim, fraco, ralo, requentado, sem gosto ou exageradamente adoçado. Existem em abundância, em todos os lugares e para todos os olhares. Foi para isso que inventaram o Nescafé. E o motel de dez reais. A exemplo de algumas belas mulheres, o café também guarda surpresas nem sempre agradáveis. Quando você entra nessas cafeterias ultrachiques onde o café expresso custa o mesmo preço do seu almoço no bandejão, você espera sentir todas

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A batata da verdade

Paulo Rebêlo Terra Magazine – 07-dez-2010 Pelo tamanho e diâmetro da canela, a gente sabe com precisão quase científica se as pernas de uma mulher são bonitas. Pela dobrinha do braço, é possível identificar a consistência das costas e do tronco inteiro. Pelos dedos da mão, a gente sempre acerta a margem da idade, mesmo com cirurgia plástica. E acredite: apenas ao observar os ombros de uma mulher, é possível saber se ela tem o bumbum bonito. Independente da roupa. É uma arte. Cada vez mais esquecida, pois parece que temos cada vez menos tempo para admirar de verdade as pessoas. Dos dedos do pé à raíz dos cabelos. Analisar cada centímetro, sentir cada cheiro e identificar cada ângulo de olhar que sempre vai expressar um sentimento diferente. Talvez porque hoje ninguém precise observar mais nada diante das microssaias, dos decotes até o umbigo e dos biquinis invisíveis. A sutileza das curvas escafedeu-se. Mas ainda resta outra frente nada sutil. Esqueça a batata da perna e observe a batata que ela come durante as refeições. Uma mulher fresca, por exemplo, nunca vai sentar com você no mercado público para comer rabada, mão de vaca, patinho com feijão. As inseguras nunca experimentaram,

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A liberdade é salmão. Com feijão.

Se eu gosto de salmão e gosto de feijão, por que não posso misturar os dois no self-service e adicionar farofa e azeite, sem que todos da fila fiquem olhando para o meu prato? Ou para mim, como se fosse um selvagem recém-chegado da Guerra Soviético-Finlandesa. Não é porque não sabemos cozinhar que não sabemos comer direito. Você se sente um peixe fora d’água já na fila, quando todas as pessoas colocam folhas e outros matos florestais no prato e, no seu, tem apenas um enorme espaço em branco à espera do feijão e do macarrão. Misturados. Quando eu era criança, alguém falou que feijão misturava com arroz, nunca com macarrão. Quando descobri que feijão e macarrão nasceram um para o outro no meu mundo gastronômico perfeito, adicionei vinagrete e alcancei o nirvana. Se vou a um restaurante bacana, termino pagando caro para não comer aquilo que quero comer. Porque cozinheiro não é mais cozinheiro, agora é artista, celebridade, brodagem, personagem de revista grã-finagem. E ele não deixa a gente mexer na arte dele e misturar salmão com feijão. Tem que ser no vapor com legumes coloridinhos ou arroz com mato sem cachorro. Não, eu quero meu salmão com feijão,

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Pax Spiritus

Acho que nunca vi um filme da Lindsay Lohan e não escuto a menor graça na Amy Winehouse. Mas tenho simpatia pelas duas, só por causa da mobilização mundial em relação ao que elas bebem da vida. Da sua bisavó à netinha de cinco anos, sempre vão condenar a coitada da Winehouse por não ter limites. Na minha religião, o céu é o limite. E as pessoas deixam as outras pessoas beberem em paz. Se você quer fazer sua Despedida em Las Vegas bebendo até morrer, vá em frente e não prejudique ninguém. Eu até pago as primeiras rodadas, só para manter distante a família de olho na herança, os amigos que nunca estavam lá quando você realmente precisava e as revistas de fofoca que todo mundo diz que não lê, mas decora página a página. É uma paranóia parecida com aquele pessoal que às 10h da manhã olha para a garrafa de uísque e não tem coragem de descer uma dose porque acha feio ou socialmente errado beber pela manhã. Tomo uma cerveja de trigo quando acordo às 11h ou um suco de laranja com cinco dias de atraso? Qual dos dois tem mais vitaminas? E no domingo, esquento

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Sorriso à cabidela

Paulo Rebêlo — O sorriso sincero de uma mulher é uma experiência tão sublime quanto sua própria silhueta desnuda à meia luz e com vista para o mar. Porque o sorriso, quando de verdade, é uma expressão ímpar. Não é apenas a boca. São olhos, sobrancelhas, testa, ombros, todos em uníssona harmonia. E quando somos nós os responsáveis por arrancar um sorriso assim, é difícil não querer um segundo. É quase tão bom quanto aquela última porção de galinha à cabidela que o garçom escondeu para entregar quando você chega no bar e a cozinha já está fechada. Mestres do disfarce, talvez por isso elas achem que nós nunca sabemos quando estão rindo de mentirinha. Seja de uma piada sem graça ou de uma cantada sofrível e repetida ad infinitum. Embora a gente perceba tão pouco o universo feminino, há duas coisas que conseguimos diferenciar a quilômetros de distância: sorrisos sinceros e mentiras sinceras. O resto a gente não entende, não adianta comprar brincos novos ou mudar o penteado. A gente não precisa ser Roger Rabbit e tampouco elas parecem ter vocação para Jessica. Mas roda o mundo e giro pelo mundo, não consigo parar de questionar: por que os

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Um doce para Maria

Sem tirar o olhar do prato vazio, elas cruzam o garfo e faca, empurram suavemente para frente e dizem que não querem sobremesa. Ela também disse, duas ou três vezes, que não estava chateada, era apenas dor de cabeça ou cólica. Nenhuma mulher feliz nega sobremesa. Às vezes, o cálice sagrado da compreensão feminina é a negação da sobremesa. Principalmente se for em um restaurante bacana, daqueles conhecidos intermunicipalmente por terem os melhores brownies, cheessecakes, petit gateau e outras firulas irresistíveis ao suicídio calórico das criaturas. Se na hora da conta ela pedir um café, talvez ela não esteja apenas chateada, talvez também queira transformar seu pescoço em pequenos escalopes de filé. Ela nunca bebe café. Se é verdade que quando elas dizem “não” significa “sim” e quando elas dizem “sim” significa “não”, por que a gente não aprova uma emenda constitucional para transformar em lei essa aberração comportamental? Talvez porque sempre haja a esperança de um entendimento mútuo entre homens e mulheres em oclusão. Deve acontecer mais ou menos na época de celebrar as bodas de urânio enriquecido, ou seja, depois de 127 anos de união. Se é verdade que Elvis não morreu, O.J. Simpson não matou a esposa

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Uma noite no supermercado

A primeira vez que entrei em um supermercado, sem precisar dar satisfação a ninguém, foi quase como ver aberta as portas do paraíso. Naquele instante, nem o céu islâmico com 76 virgens me pareceu tão interessante quanto aquele carrinho de compras e meu talão de cheques novinho, zero bala. Se naquela época achar uma virgem já era impossível, imagine 76 delas de uma vez só. Alá seja louvado, mas ficou para próxima. Quando criança, supermercado costumava ser um dos meus passeios preferidos. Eu via aquela enorme variedade de guloseimas e tinha vontade de colocar tudo para dentro do carrinho —  em casa poderia experimentar novidade por novidade e depois fazer anotações.

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Quando comer vira doença

Para um comedor compulsivo, parar é um processo complicado. Frequentadores de um grupo de ajuda contam suas dores e experiências à mesa. Paulo Rebêlo Diario de Pernambuco 01.março.2008 Lucélia Maria não resiste aos doces e às massas. Ela não sabe quando parar. Mesmo quando não tem fome. Depois do jantar, a família inteira se levanta, mas ela só sai da mesa quando termina a última fatia do bolo. “Quando como apenas uma ou duas fatias, é uma vitória. Se deixarem na minha frente, como o bolo inteiro, qualquer dia, qualquer hora”, confessa. Para controlar o peso, Maria Cláudia cozinha e guarda a comida congelada em pequenos potes. Cada pote tem o suficiente para uma refeição. Dois dias antes de conversar com a reportagem do Diario, admitiu ter olhado para o pote na hora do almoço e pensado: “só vou comer isso hoje? É tão pouco!”. Comeu o triplo do que deveria e passou o resto do dia com sentimento de culpa. Encarou como uma derrota de vida.

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