Não falta profissional, só segurança

Paulo Rebêlo
Folha de Pernambuco – 29.agosto.2007
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A ousada aposta chamada de Porto Digital tem tantas certezas quanto dúvidas. Dentre as quais, certeza da importância no desenvolvimento da economia regional e dúvida de que os gestores públicos de Pernambuco sequer saibam do que se trata. Para colher os louros do avanço tecnológico e da repercussão midiática, sobram executivos, economistas, cientistas e políticos. Para lidar com a vida real de quem realmente faz o Porto Digital – funcionários, colaboradores – não aparece um, sob o temor da pesada mão da viúva estatal. Falta profissional qualificado? Falta regularização? Falta fiscalização nos sombrios contratos de trabalho? Falta é segurança pública.

Em agosto, engolimos pelo Pronasci o título de 2º lugar no maior índice de homicídios do Brasil. Há pouco, representantes da área digital se reuniram – pela enésima vez – com representantes do setor governamental para lidar com um dos mais básicos dos problemas do Porto Digital: o direito de ir e vir. De ir almoçar e voltar sem ser assaltado. De ir pegar o ônibus após o expediente sem um cano de revólver à cabeça. De ir ao estacionamento e voltar com o carro. De ir ao outro lado da rua e voltar sem perder celular, carteira e documentos.

Executivos comemoram os números em bits e bytes, mas ninguém entende. Os gestores públicos enaltecem os números do aumento de policiamento e segurança no bairro, mas ninguém entende. Números (e mãos) ao alto, só quem entende é quem trabalha nos meandros do Recife Antigo. Quem tem motivos para comemorar, mesmo, são os meliantes. Estes, sim, nunca viram uma economia tão sólida e pujante como agora. Quase diariamente, funcionários e colaboradores precisam sair em mutirão, sob a égide do pavor de ter seus pertences surrupiados. Ou coisa pior. Os meliantes nunca gostaram tanto de informática como agora.

Ao questionar funcionários, eles sabem os pontos críticos do bairro, os horários preferidos dos assaltantes, as esquinas nas quais nunca se deve passar e, antigamente, até os piores horários. Hoje, não tem mais hora. Seja próximo ao Paço Alfândega ou à frente da Praça Tiradentes, os profissionais que fazem a economia de Pernambuco girar, são reféns das mesmas sinuosidades burocráticas e desdém político.

Muitos falam, poucos escutam, ninguém faz. A reclamação de funcionários e colaboradores é tão antiga quanto o próprio Porto Digital. Reuniões. Encontros. Planos de gestão social. Programas de segurança pública. Notinhas em colunas dos jornais. É tudo quase perfeito dentro dos cubículos onde profissionais subcontratados geram dividendos para o Estado e para multinacionais aqui instaladas. Fora dali, é cada um por si e quem achar ruim que pegue o beco. Preferencialmente, um beco iluminado. Algo raro de se encontrar no Recife Antigo, aliás.

Porto Digital não precisa de mídia. Mas aqui, incrivelmente, precisa. Porque, quem sabe um dia, talvez os gestores públicos finalmente entendam que a aglomeração empresarial e tecnológica, de alto retorno financeiro, social e educativo, significa muito mais para o desenvolvimento do Recife – e de Pernambuco – do que a loteria de locações para bares e restaurantes na mão de parentes e correligionários. Hoje, falta profissional qualificado, como dizem os jornais pelas aspas dos engravatados. Se continuar assim, amanhã também vai faltar profissional desqualificado. Porque os teimosos – esse pessoal que gosta de trabalhar, por exemplo – vão virar estatística da Secretaria de Defesa Social ou, como tantos outros já fizeram, comprar uma canoa para navegar em outros mares.

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