Cada um elege seu cinema

Pesquisa acadêmica revela as preferências do público e quais são as melhores salas de exibição na Região Metropolitana

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco

11.janeiro.2009

Para quem vai ao cinema com frequência, qual é o fator mais importante: a qualidade da imagem ou o preço do ingresso? Banheiro limpo faz alguma diferença na hora de escolher o filme a assistir? E qual é a melhor sala de exibição no Recife? Estas e várias outras perguntas são respondidas, em detalhes, em uma ampla pesquisa científica que acaba de ser divulgada por estudantes de Administração da Universidade Federal de Pernambuco, divididos entre alunos de graduação e pós-graduação.

Se você achava que as salas do Shopping Guararapes eram as melhores, agora já pode dizer que não se trata de opiniões isoladas ou elitistas. Pelas respostas computadas, o Box Guararapes obteve a melhor pontuação, seguido dos Shoppings Plaza, Recife e Tacaruna. Em quinto lugar estão as salas do Shopping Boa Vista, seguidas pelo Cinema da Fundação (Fundaj), Rosa e Silva, Parque e Apolo.

Para chegar aos números finais, alunos de mestrado, doutorado e do 6º período de administração da UFPE formularam questionários e calcularam as estatísticas durante todo o semestre letivo. Os questionários, de três páginas cada, foram aplicados durante sete dias pela cidade. De um total de 792 pessoas entrevistadas, 396 realizaram-se em nove cinemas do Recife expandido. A outra metade aplicou-se por conveniência (externamente), classificando grupos de entrevistados de acordo com sexo, idade, renda, estado civil, sala visitada e outras variáveis.

O relatório final, inicialmente um trabalho acadêmico para a disciplina de Tópicos Especiais em Organizações, ultrapassou as expectativas dos alunos e dos professores Pierre Lucena e Walter Moraes, responsáveis pela coordenação e apoio no cruzamento dos dados. Os testes estatísticos geraram gráficos e várias correlações com auxílio do software SPSS, ferramenta largamente adotada em pesquisas quantitativas.

Odilon Saturnino, um dos alunos envolvidos, explica que a idéia da pesquisa surgiu da necessidade de se comprovar, cientificamente, as opiniões queas pessoas escutam pela cidade. “Dividimos a equipe em grupos e espalhamos pelos cinemas, foi um trabalho longo, mas muito satisfatório e com resultados bem interessantes”, admite.

De acordo com o professor Pierre Lucena, responsável pela disciplina e pela coordenação-geral da pesquisa, o intervalo de confiança dos resultados é 95% e a margem de erro é de 3,5%. “É um reflexo concreto do que as pessoas consideram como fatores importantes na hora de escolher o cinema. Algumas respostas eram esperadas, mas outras nos surpreenderam bastante. É possível notar como a qualidade de imagem apresenta mais importância, para um determinado público e renda, do que a própria segurança”, antecipa Lucena.

A surpresa mencionada pelo professor condiz exatamente com a diferença entre renda familiar e as variáveis contidas no questionário. Percebe-se claramente uma correlação inversa entre a renda e os serviços. Quanto menor a renda familiar, maior é a importância ao preço/promoção e aos serviços. Já a qualidade audiovisual, conforto e segurança possuem correlação direta com rendas maiores. “Como não existe mais cinema de rua, achávamos que a segurança seria um fator crucial para todas as classes sociais, mas hoje sabemos que não é bem assim”, resume Lucena.

A proximidade geográfica é um dos pontos-chave para boa parte dos cinéfilos, independentemente de renda. A nutricionista Jéssica Luzia Pinheiro costuma levar a sobrinha Giovana e a tia Rosilda Fulco para o Shooping Tacaruna com frequência, não porque prefere a sala, mas por ser perto de casa. “Ainda mais agora, em janeiro, período de férias, estamos vindo mais vezes ao Multiplex daqui”, diz.

Janaynna Menezes, aluna envolvida na coleta de dados, reforça a idéia de que o trabalho apresentado é bastante diferenciado dos demais. Foram 50 alunos de gradução, além de dez do mestrado e doutorado para fiscalizar a aplicação dos questionários e contribuir nas análises estatísticas. “Não se trata mais de especulação, agora nós temos um estudo acadêmico para comprovar cientificamente aquele achismo que se escuta nas filas”, ironiza.

Elas escolhem romance, eles preferem violência

Das 396 pessoas entrevistadas nos cinemas do Recife, 217 são mulheres e 179 são homens. Outras 396 também foram computadas, externamente às salas. A estratificação ocorreu de acordo com critérios de estrutura e número de assentos dos cinemas, enquanto a distribuição etária teve como base os índices da população recifense.

Professor licenciado da disciplina de Estratégia Empresarial na UFPE, Walter Moraes ajudou na elaboração dos questionários com os alunos e no uso das técnicas estatísticas mais avançadas, sob a coordenação do professor Pierre Lucena. Ele reforça a idéia de que o resultado também é deveras interessante do ponto de vista do empresário. “Em termos mercadológicos, é uma contribuição e tanto”, arrisca Moraes.

Uma das sacadas mais interessantes da pesquisa dos alunos é a relação entre estado civil e gênero dos filmes. Com detalhes de cada gênero, observa-se que as pessoas separadas/divorciadas e os viúvos dão preferência extra às comédias românticas e aos romances, enquanto os solteiros e casais optam mais por ação/aventura e comédias. Os gêneros menos frequentados são os clássicos/épicos (5,3% entre os solteiros) e ficção científica (5% entre os viúvos, 10,9% entre os casados).

Entre homens e mulheres, sem classificação etária, comprovou-se a engraçada obviedade: 60% das mulheres optam pelas comédias românticas e romances, enquanto somente 20% dos homens fazem a mesma escolha. Eles preferem os filmes de ação/aventura (86% contra 49%) e as comédias.

Via de regra, o público frequentador dos cinemas do Recife tem nível de escolaridade alto, sobretudo os mais velhos. Quase metade dos entrevistados possui nível superior completo. Destes, 30% admitiu ter renda familiar superior a 10 salários mínimos (acima de R$ 4.100), enquanto 27,5% teria entre 5 e 10 salários mínimos de renda. Somente 2,5% ganha menos de um salário e 7,6% entre um e dois salários mínimos. A diferença entre casados e solteiros é mínima (42% x 47%), mas percebe-se que as mulheres vão mais ao cinema à tarde, enquanto os homens preferem ànoite.

A preferência dos entrevistados nas diversas faixas etárias é a de assistir filme nas sessões entre as 17h e 20h. As mulheres dão mais importância ao gênero (13%), seguido do trailer, da sinopse e da indicação de amigos. O diretor é o que menos influencia a escolha feminina. Já entre os homens, a menor influência é o fator “maiores bilheterias”, seguido do diretor. Em geral, são critérios semelhantes.

Sobre os filmes nacionais, a equipe observou não haver distinção entre produções brasileiras e estrangeiras, mas quando optam pelos primeiros, o fazem a partir das maiores repercussões sobre o filme. Entre os concorrentes da tela grande, a locadora ganha com folga (70,5%), seguida da TV por assinatura (35.5%) e do DVD (33.1%). Baixar filmes da internet, contudo, até agora exerce pouco fascínio (16,4%) entre o público recifense quando comparado a outras opções para não ir ao cinema. (Paulo Rebêlo)

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