Vale a pena ver de novo

O poder da violência
Paulo Rebêlo (*)
Observatório, 24.abril.2004

Às vezes temos a impressão de que o mundo dá muitas voltas e termina sempre parando no mesmo lugar. A situação atual no Rio de Janeiro eu vejo desde que me entendo de gente. Ler as reportagens sobre a crise na Rocinha e suas repercussões é como uma viagem nostálgica a um tipo de noticiário reincidente que perdura por anos a fio.

Manchetes nos jornais, flashes na TV, palestras sobre violência, artigos sobre direitos humanos, revoltas, exército. Barulho, muito barulho. E a eterna hipocrisia de discutir as “causas” da violência. É mesmo uma novela global. Mudam-se alguns personagens, permanecem os mesmíssimos clichês.

Não é preciso ir muito longe para perceber: a mobilização do governo não passa de uma grande falácia, como sempre acontece. Os governos zombam descaradamente da população e a gente transcreve a piada.

Novela e guerra civil

Um trecho de reportagem de O Globo, 14 de abril de 2004, sobre a invasão policial na Rocinha e Vidigal:

“Policiais trabalhando por mais de 24 horas seguidas. Em alguns casos, com apenas uma e precária refeição: pão com manteiga e maçã (…) Para enfrentar traficantes armados com modernos fuzis e metralhadoras, parte da tropa recebeu apenas revólveres calibre 38, alguns enferrujados. E apenas alguns homens usavam coletes a prova de balas. Foi com este nível (…) que cerca de 1.600 PMs foram mobilizados para a (…).”

Chega a ser cômico quando conversamos com pessoas que, ainda hoje, mostram-se céticas em relação ao seguinte: o poder paralelo já manda há bastante tempo. Não é força de expressão. Mandam no sentido lato da palavra. E não é apenas no Rio de Janeiro. O Rio, evidentemente, sempre está em evidência. Deve ser o preço a ser pago pelo cunho de Cidade Maravilhosa. Maravilhosa para quem, ninguém sabe.

A cada mobilização-piada, o poder paralelo aumenta. Assim como cresce a raiva da população por quem a transcreve. Leia-se: jornalistas. Como pode? Nos ensinam que estamos fazendo um papel social, mostrando a verdade, os fatos ocorridos, trabalhando juntos para levar informação à sociedade.

Alguma coisa está errada. Será a nossa verdade também a verdade deles?

Talvez não importe. O mundo já está girando novamente e vai parar no mesmo lugar. O assunto vai esfriar. O noticiário vai continuar quase todo tomado pelos juros (e juras) do Palocci e pelas galinhagens políticas de Brasília. Daqui a algum tempo, começa outra novela das oito. Choros, lágrimas, emoção, romance.

E guerra civil. Mas isso ninguém admite.

(*) Jornalista no Recife (www.rebelo.org)

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