Velhas piadas de velho

Quando a jovem manceba entrou na sala de reunião com aquele vestido solto e florido, logo perguntou para a amiga ao lado se estava bonita. O passo seguinte era óbvio: faltava a tal opinião masculina.

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Fertilidades carnavalescas

Dizem que Carnaval é uma festa na qual solteiro tem prioridade. Pelo simples fato de ser um campo minado para qualquer relacionamento. Talvez haja um certo exagero na afirmação. Mas o problema não é a afirmação. É a imaginação.

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O amaciador

Paulo Rebêlo 22.jan.2013 Portal NE10 link Quando elas aceitam o fim sem derrubar uma lágrima e vão embora sem olhar para trás, é porque nada mais há para ensinar. Quando todo o resto der errado, ela vai se lembrar desse dia e pensar que, afinal, pode sobreviver a tudo. Quando ela conhecer alguém apenas razoavelmente interessante, vai finalmente entender que somente ela é responsável pelo interesse do mundo. E talvez resolva conhecer melhor todas as pessoas que teve medo de conhecer. Quando ela entrar no carro de alguém, não vai se entediar com a demora. Já passou pela mesma estrada tantas vezes. Aprendeu a dormir e a acordar na curva certa. Quando viajar acompanhada, não importará mais o destino. Depois de tantas viagens, vai sobrar pouco para se surpreender de verdade. Ansiedade, mala, roupas, compras? Tudo no automático. Precisamente no automático. Esqueceu a escova de dentes? Ela tem uma reserva. Esqueceu o desodorante? O dela sempre está na mala. A moça que não sabia fritar um ovo vai querer criticar os livros da Ofélia. A menina que queria desbravar o mundo vai perceber que é o mundo que ainda precisa desbravá-la. Quando as amigas estiverem em crise, é o conselho

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André José Adler / Endre József Adler (1944-2012)

— Eu gostava de irritar o André José Adler dizendo que era fã dele e que me sentia um privilegiado por dividir várias garrafas de Tokaj e pratos de Goulash na companhia do diretor de ‘Nem as enfermeiras escapam’, um clássico da chanchada brasileira produzido em 1977. Ele respondia: “escrevi o roteiro de tanto filme bom, participei de programas e seriados históricos na TV Tupi, ganhei prêmios, fui o primeiro Pedrinho da televisão brasileira (do Sítio do Pica Pau Amarelo), tive uma longa carreira na ESPN, mas você só lembra justamente da única coisa que me arrependo de ter feito!” E assim muitos meses se passaram conversando sobre cinema e jornalismo esportivo. Ele bem que tentou, mas nunca consegui entender o tal de futebol americano. Até hoje não faço ideia. Quando ele se empolgava demais tentando explicar os jargões e o funcionamento do jogo, eu começava a perguntar sobre os bastidores das enfermeiras que não escaparam. Ele ria, respondendo: “só não fico com raiva porque não consigo levar a sério alguém que gosta de Calypso“. Nascido Endre József Adler em Budapeste, capital da Hungria, André Adler veio para o Brasil ainda criança, com a família. Depois da carreira meio acidental

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Invasões médicas

Paulo Rebêlo Portal NE10 / JC – 04.dez.2012 link original Não faz muito tempo e a gente ia ao médico apenas para ouvir a pergunta: faz exercício físico regularmente ou é sedentário? Aquilo já me irritava sobremaneira. Não havia meio termo. Ninguém quer saber se a gente faz exercício quando dá tempo, quando não tem deadline, quando o parque ainda está aberto. Ou você é saudável ou é sedentário, um preguiçoso que passa o dia inteiro vendo televisão e comendo batata-frita com Baré Cola. Bons tempos foram aqueles. Hoje eles querem saber quais são os meus hábitos alimentares. Se incluo frutas e verduras na minha dieta. Se corto frituras e gorduras. Se evito sal, açúcar e enlatados. Tento explicar que não faço nada disso porque, se o fizesse, certamente estaria pensando em suicídio. Mas eles não escutam. Pior ainda, agora o enxerimento foi além da linha vermelha e querem saber como anda minha vida sexual. Doutor, minha vida sexual não anda, ela deita. Quando dá tempo, quando não tem deadline, quando o parque está aberto para mim. O dente dói. Vou à dentista e a ninfeta acha que por ser novinha e bonita tem o direito de influenciar meus hábitos de quatro xícaras

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Ninguém é feliz comendo salada

Paulo Rebêlo NE10 – 26.outubro.2012 link Já procurei bastante, mas nunca encontrei um ser vivo espetando uma rodela de tomate com a mesma satisfação de quem espeta um bolinho de bacalhau. Nunca vi e duvido de quem viu. E assim bebo meu café sem açúcar enquanto observo as refeições atrasadas e apressadas na praça de alimentação embaixo do escritório ou nos shoppings. Dos mais variados estilos e beleza, lá estão todas aquelas mulheres com um prato de salada como representação única do almoço. Tão diferentes, mas também tão iguais: afinal, nenhuma delas sorri. As magrinhas comem sem olhar para o prato, talvez porque olhem para o resto da humanidade com a aura superior de quem come salada por opção e gosto. Ainda fazem questão de raspar o prato como demonstração ao mundo que salada é uma delícia e que não trocariam aquele prato de capim por nada. Ao redor, as outras mulheres com seus pratos minúsculos olham com desdém e suspiram em uníssono. Talvez com peso na consciência por não terem pedido a salada do Giraffa’s. As gordinhas e as não-gordinhas que se acham gordas também curtem a tal “saladinha”, mas comem de cabeça baixa, fazendo de conta que está uma delícia. Também

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Bacon 99

Paulo Rebêlo NE10 | 11.setembro.2012 link Quando abri o envelope do laboratório e vi aquele número estampado em negrito, voltei décadas no tempo. Até outro dia, pensava que seria o fim do mundo. Mas, quando finalmente aconteceu, de certo modo foi um alívio para quem passou a vida inteira em luta silenciosa contra a glicose no sangue. Havia, enfim, chegado ao limite aceitável de 99 mg/dL na glicemia. Durante metade da vida, minha principal preocupação sempre fora sair vitorioso na guerra contra o histórico familiar de diabetes. Abri mão de todos os doces e guloseimas – forçado, é verdade –, mas venci a desgraçada e sempre me orgulhei de tomar aquele suco de limão ou acerola sem açúcar. Na tora, igual a tirador de coco. A gente envelhece, adota a coca-zero como companheira infinita e, aos poucos, começa a perder a fé nessa vitória mundana porque os médicos mudam o discurso a cada visita. Um belo dia, me dizem que “apenas” manter distância de açúcar como se ele fosse o anhangá-tinhoso não adianta de nada. Quer dizer, além de ficar sem meu doce de buriti com farinha, precisava  também fugir das frituras, gorduras e me tiraram até o direito universal de engordar

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O maior medo do homem

Paulo Rebêlo NE10 | 03.junho.2012 | link Nosso maior medo é que ela se case com outro. Não importa quantos namorados ela arrume, quantas viagens ela faça e com quantos homens ela resolva ter um caso. Desde que não coloque uma aliança. Porque enquanto ela não casar, sempre há esperança de que ela vai voltar. Até que ela resolve casar. E de repente, tudo perde o sentido. Só que os anos passam e a gente começa a refletir sobre a quantidade de mulheres casadas que conhecemos depois daquele fatídico convite de casamento. Então, pensamos: se o casamento pode perder o sentido para tantas mulheres, talvez um dia também perca o sentido para ela. Nosso maior medo pode ter se transformado em apenas mais um dentre tantos outros casamentos falidos pelo mundo. Voltamos a ter uma certa esperança de reencontrá-la. Até que ela resolve ter um filho. E tudo perde o sentido mais uma vez. Porque filho é para vida toda e ela sempre compartilhou esse sentimento conosco. Mesmo que ela não goste do marido, mesmo que o casamento esteja falido, se ela resolveu ter um filho com o mesmo cidadão é porque para ela nada mais pode dar errado. Não há

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Dez anos sem solidão

Paulo Rebêlo NE10 | 03.junho.2012 | link Sobrevivi a dez anos sem televisão em casa. Não foi protesto contra a qualidade da programação, muito menos um rompante intelectualóide. Foi apenas falta de tempo e de vontade para usufruir da companhia daquela caixa barulhenta de 14 polegadas cuja antena parecia uma fábrica de bombril. Muita gente diz que morar sozinho sem televisão é deprimente e solitário. Sempre achei uma noção curiosa, pois nada me deixa mais aliviado do que chegar em casa e ouvir apenas o ronco do motor da geladeira velha e o tilintar do gelo quando a gente derrama aquele resto de uísque ruim que nunca acaba. Foram dez anos muito bons. E, para minha surpresa, sem nenhuma ponta de solidão. No início, foi difícil. A mim, a TV nunca fez muita falta de verdade. Mas sempre foi uma desculpa conveniente para as visitas. Um trunfo auxiliado pelo Corujão e pela Sessão de Gala naquelas madrugadas mais longas quando as moças não querem voltar para a casa delas. Sem a TV de argumento, o jeito é ficar na varanda com dois copos e dois ouvidos, pois não tardava a ouvir os conflitos existenciais dessas pequenas burguesas preocupadas com o

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