Ranzinzamente correto

Paulo Rebêlo // fevereiro.2004 O mundo ficou muito mais chato depois que inventaram o tal do politicamente correto. Que nada mais é do que uma expressão perfeitamente tucanada para os pseudo-moralistas de plantão levarem tudo a sério. Não se pode mais contar piada de gays, virou preconceito. Brincar com o excesso de emotividade das mulheres agora é machismo. E conversar sobre mulheres boazudas e bundudas é sexismo.

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Promessas anuais em loop infinito

Paulo Rebêlo // janeiro.2004 Todo fim/início de ano é a mesma coisa. Justamente por ser a mesma coisa – um dia após o outro – sempre considerei um saco todo aquele excesso de festividades. Como festa é um bom argumento (precisa?) para beber, então tudo está perdoado aos alentos de Baco. O difícil de engolir são aquelas listinhas de promessas -ou “projetos”- que a gente faz todo bendito início de ano. A gente sabe que não vai cumprir nem metade, quiçá um terço; mas continua fazendo, mesmo subconscientemente. Sempre tudo igual. Emagrecer, comer menos chocolate, dar mais atenção aos amigos, se preocupar menos com o trabalho, não entrar em [novas] enrascadas amorosas, blá blá blá.

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Rapsódia da Separação

Paulo Rebêlo // novembro.2003 Toda separação dói. Só muda a intensidade. Separações planejadas, programadas, surpresas, temporárias, inesperadas. Talvez nenhuma machuque tanto quanto as separações abruptas. É como chegar em casa após um longo dia de trabalho, trocando qualquer coisa por um colo e cafuné, para só então perceber que a outra pessoa arrumou as malas e foi embora sem avisar. É de chorar, é de dar tiro na cabeça. Não dei tiro na cabeça porque não ia ter dinheiro para pagar o enterro, mas chorei. Chorei quando, após um longo dia de trabalho, encontrei meu bar predileto fechado. Abruptamente, sem o menor aviso. O bar que tinha cadeira cativa neste coração de pingüim. Sem um bilhete, sem uma carta de despedidas, sem dizer adeus! Sequer uma mísera placa foi colocada na porta, uma desculpa amarela qualquer. Simplesmente, trancaram tudo e foram embora… que nem as pessoas às vezes fazem: sem argumentos plausíveis, apenas com o sentimento de que “não dá mais” ou a desculpa de “vai doer mais no futuro”. Justamente naquele dia em que acordei, de novo, pensando nela. Aquela minha mesa predileta lá no canto, com uma parte encostada na parede e outra na grade. Na distância exata

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Relacionamento a três

Paulo Rebêlo // outubro.2003 Relacionamento a três consiste no seguinte: você, o bar e o garçom que lhe atende. É difícil, porque nem sempre os três lados convivem em harmonia. E quando um lado complica sua vida, você ainda tem outro para gerenciar.

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O super vô ranzinza da barbona branca

Paulo Rebêlo // setembro.2003 Depois da última crônica, não consegui parar de pensar na possibilidade de ter netos sem precisar ter filhos. Será possível? Domingão é sempre um dia bom para refletir nos mandos e desmandos da vida. De ceroulão em manhã chuvosa, resolvo terminar aquele restinho de Contreau (tira a ressaca que é uma beleza) e acender um charutinho para, quem sabe, colocar em prática tudo aquilo que não aprendi nas aulas de biologia. Posso eu ser avô sem ser pai? Modéstia à parte, eu seria um excelente avô. E tem mais: a maioria dos avôs são, praticamente, versões suavemente melhoradas do que seria o Super Vô Ranzinza da Barbona Branca. Todos eles carregam uma protuberante saliência fronto-abdominal. Eu também. Todos eles são carecas. Eu estou em vias avançadas de ter um aeroporto internacional de muriçocas. Eles têm barba branca. A minha é meio galega, mas suspeito de que não vá demorar muito para branquear. Eles são caladões. E eu vivo sendo chamado de taciturno por muita gente… Pensando bem, acho que eu poderia ser avô agora mesmo. O papel do avô é muito bacana. A gente não precisa (já estou me incluindo no grupo) ficar naquele fricote com

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Mudança, filhos e futricos

Paulo Rebêlo // agosto.2003 O trabalho que dá para empacotar, arrumar e transportar até a nova casa, ciente de que depois será preciso desempacotar e arrumar tudo novamente, faz pensar: por que não guardamos nossas coisas em caixas? Seria tão mais prático. Era só escrever: essa aqui é a roupa, aquela ali é a louça de luxo (pratos e copos descartáveis) e a caixa grande são os bagulhos gerais. O melhor de tudo é que é incrível como caixas de papelão se adaptam em qualquer ambiente. Deve ter algo a ver com o feng shui. O pior é descobrir que, em um apartamento minúsculo como aquele cafofo antigão, cabia três vezes mais bagulhos do que sempre imaginei. E depois de tanta papelada e trecos jogados fora, vem a dúvida: por que um lugar maior? Bendito financiamento. Em ocasiões assim, nunca se deve pedir conselho aos pais. O pai diz: meu filho, melhor resolver isso agora enquanto você é solteiro e ainda consegue financiar alguma coisa… e tem mais, um dia você pode casar e vai precisar de um quarto extra para seus filhos. Assim mesmo, filhos, no plural. A mãe completa: no dia que você casar (ela nunca usa o

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Geladeira Tamagotchi

Paulo Rebêlo // julho.2003 Eu só queria trocar de geladeira. Quer dizer, eu não queria trocar de geladeira, mas precisava. A nova teria que ser maior. Igualzinha à anterior, só que maior. Quando fiz minha primeira mudança, deixei claro para meu alter-ego ranzinza que não precisaria de eletrodomésticos da última geração, cheios de novidades técnicas que a gente nunca usa.

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O azeitador de maquinário

Paulo Rebêlo // julho.2003 A palavra azeitador não está classificada no dicionário. Não tem nada a ver com azeite. Ou até tem, depende do ponto de vista. Azeitador é simplesmente o bondoso cidadão responsável por fazer a troca de óleo nas mulheres, a partir das necessidades exclusivas delas. Bem-azeiturados são aqueles que já assimilaram a verdade: os engates do maquinário feminino requerem troca de óleo tanto quanto os engates masculinos. A natureza assim definiu.

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O galo belzebu e o duelo de titãs

Paulo Rebêlo // junho.2003 A rotina é conhecida, resultado de freqüentes noites insones em que o olho simplesmente não quer fechar, nem com esparadrapo. Cinco horas da manhã. Com todas as cortinas do cafofo fechadas e todas as luzes apagadas, em uma pueril tentativa de enganar o próprio inconsciente, ainda tento acreditar que é noite, que conseguirei dormir algumas poucas horas antes de o mundo começar a girar.

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