O elogio da mediocridade

Paulo Rebêlo (*) Observatório da Imprensa, 22.fevereiro.2005 Mesmo para quem não lê jornal e não assiste TV, foi difícil não se inteirar da balbúrdia que os veículos de comunicação fizeram com a vitória de Severino Cavalcanti. Vale o registro da Folha de S.Paulo, em editorial de 16 de fevereiro, tachando-o de “candidato sem estatura política, retrógrado e inexpressivo, que se especializou em negociações menores no dia-a-dia da vida parlamentar”. Foi quase um elogio. O leitor mais atento, porém, talvez consiga perceber que alguns jornais estão achando ótima esta vitória. É uma nova oportunidade para certas publicações – e colunas – voltarem a propagar aquela equivocada noção de que o Nordeste, principalmente Pernambuco, é o grande beneficiado desta politicagem. Politicagem, aliás, que é a cara do que o governo federal vem fazendo nos últimos dois anos. A interpretação é simples: o presidente da República e o da Câmara são pernambucanos; o presidente do Senado (Renan Calheiros) é alagoano; e o 1º secretário da Câmara (Inocêncio Oliveira) também é pernambucano. Para um Sul-maravilha rico e poderoso, até que estamos bem na fita. Bem o suficiente para propagar o conhecido ufanismo, digno da mais Polyanna das Polyannas, de que o Nordeste é o

texto completo

Lula no Nordeste

Oba-oba e pautas perdidas Paulo Rebêlo (*) Observatório da Imprensa, 15.fevereiro.2005 Cada visita, cada inauguração é uma oportunidade ímpar para os jornais fazerem jus ao poder que possuem junto à sociedade. As melhores pautas estão sempre debaixo do nariz dos jornais, mas ninguém quer sentar o traseiro e questionar o carismático presidente Lula. Em contrapartida, seguem a comitiva do presidente interior afora, acompanham os discursos, as promessas faraônicas e publicam exatamente isto: os discursos, as promessas e a festa ao redor do carisma do personagem-presidente frente ao povo que ali está, feliz e sorridente, diante da presença ilustre. Passados dois anos, parte da imprensa parece ainda se iludir com a eleição do metalúrgico que veio da pobreza para acabar com a fome e a desigualdade. Poucos presidentes visitaram tanto o Nordeste quanto Lula, em tão pouco tempo de mandato. Vez por outra, ele está aqui a inaugurar obras e discursar sobre como o Brasil melhorou. Todo governo faz oba-oba e este de agora não é diferente. O problema é quando a imprensa – que supostamente deveria questionar para informar – enche as páginas com matérias cujo teor nada mais é do que um reles e pífio oba-oba. Não questiona. Logo,

texto completo

Capa Capital

Paulo Rebêlo (*) Observatório, 02.dezembro.2003 Foi com surpresa que percebi: duas semanas haviam passado e eu não tinha lido nada sobre a capa publicitária da edição 266 da revista Carta Capital, de 12 de novembro de 2003. Por sinal, a mesma peça repetiu-se na edição seguinte, 267. Não é uma crítica. Apenas uma certa frustração por não ter entendido. Como leitor, frustração por não ter compartilhado dos bastidores dessa vitória financeira (?) da revista e do paradoxo de, justamente naquela edição 266, a principal e mais elogiada reportagem ter sido sobre anúncios vs. notícias. Quando recebi a edição 266 pela porta de casa, a primeira reação foi de susto. O que aquela capa tinha a ver com a publicação que mais admiro no Brasil? Não entendi. Uma reportagem de capa sobre Atlanta como roteiro de viagem pela Delta Airlines, na revista que, imagino, nove em 10 jornalistas gostariam de se ver publicados? Nada a ver. Só depois de um tempo é que percebi, escondido em letreiro vertical, o aviso: “sobrecapa publicitária”. Respirei aliviado e o susto se transformou em alegria. Alegria, pois para colocar uma capa dessas, idêntica a uma capa tradicional de Carta Capital, inclusive com as chamadas no

texto completo

Imprensa e Tecnologia: reflexões

Observatório, 30.abril.2003 Paulo Rebêlo (*) Primeiro Em linguagem rasteira, hoje em dia quase tudo pode se transformar em pauta de tecnologia. Um carro do ano chega dotado de tecnologia nova no motor, na suspensão etc; o mesmo vale para um aparelho de celular, um equipamento de som, as firulas de uma determinada indústria (fonográfica, por ex.), as políticas de inclusão digital e, claro, os computadores e a internet. Logo, diferentemente do que um punhado de gente possa pensar, cobrir tecnologia não é saber das últimas novidades sobre computador e internet. É preciso, antes de mais nada, ter razoável conhecimento científico e um certo embasamento técnico, capazes de fazer com que você reflita se isso ou aquilo é tecnicamente viável ou se pode estar com os dias contados no comércio, por exemplo. Ninguém nasce sabendo. É preciso ter interesse, ler, pesquisar. Funciona (ou deveria funcionar) assim em qualquer outra área de jornalismo. Este mesmo jornalismo cada vez mais sofrido, com signatários que entendem tanto do que escrevem quanto americano entende de futebol. Computadores e internet talvez sejam o calcanhar-de-aquiles de jornalistas que cobrem e gostam de manter-se atualizados sobre tecnologia, embora sejam taxados de jornalistas de internet ou jornalistas de computador,

texto completo

ARTIGO 222

Observatório, 08.maio.2002 Capital estrangeiro nas empresas de comunicação Paulo Rebêlo (*) Como todos esperavam, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou (em 10/4/02) a redação da proposta de emenda constitucional que permite a entrada de capital estrangeiro nas empresas brasileiras de comunicação. A entrada fica limitada em máximo de 30% do capital votante. Oficialmente. Com a aprovação, pessoas jurídicas agora podem ser acionárias majoritárias ou donas de empresas de radiodifusão, televisão e impressos, com acesso ao mercado de capitais. A medida visa ajudar a organização e, principalmente, a captação de empréstimos. A linha editorial das empresas se mantém como definido na Constituição Brasileira: de responsabilidade exclusiva de brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos. Oficialmente. De acordo com o senador Romeu Tuma (PFL-SP), atual relator da proposta, um acordo com as lideranças do Senado pode dar caráter de urgência ao projeto, pois ainda precisa ser aprovado em dois turnos pelo Plenário da Casa – ninguém espera que não seja. Será a aprovação definitiva, provavelmente em até um mês. A estimativa é de que, ainda neste primeiro semestre, o capital estrangeiro já esteja circulando (oficialmente, agora) nas empresas de comunicação. As demissões de profissionais qualificados, o fechamento

texto completo

Opening the Gates

Brazzil Magazine Wednesday, 01 May 2002 Many journalists and media executives tend to believe that opening the media to foreign capital is their final hope for survival. By Paulo Rebêlo As expected, on April 4th, the Senate’s Constitution and Justice Committee has approved a bill opening up Brazilian media companies to foreign capital. Until now, a 60-year old law banned foreign ownership of the country’s media. The foreign participation cannot exceed 30 percent of the voting stockholders. Officially. This means that from now on any company in Brazil may be a major shareholder or own a media vehicle, such as radio and TV stations, newspapers, magazines, etc and have access to the stock market. Before the approval of the new law, media companies in Brazil had to be owned (officially) by a Brazilian citizen or someone naturalized Brazilian for at least ten years. That explains why the media in Brazil is commonly called a big family business, in which media companies are passed from father to son for generations. The new foreign investment law intends to help the organization and, especially, assist in getting fresh loans. The editorial policies from broadcast and newspaper companies should remain as defined in the

texto completo

Something Rotten

Brazzil Magazine May 1999 The Brazilian central bank burned more than a billion dollars for nothing. A Parliamentary Inquiry Commission was established, but there’s little hope that anything will change or that anybody will be punished. Paulo Rebêlo In the past month, Brazilian citizens became so excited about the possibility of having an increase in their minimum wage that they all seemed to forget the economic and “image” problems the government was facing with its own electors and, as usual, the international investors. The country has summoned the Parliamentary Inquiry Commission (PIC) in order to investigate supposed corruption between Banco Central do Brasil (Central Bank of Brazil) and two other minor banks, which could have earned millions of dollars atypically via a strange secret transaction. The Real (Brazilian currency) was devaluated in the beginning of 1999 because Central Bank wasn’t able to hold the currency value against ferocious investors anymore. This left those people whose contracts were based on the American dollar in trouble, not to mention taxes, including importing and exporting actions. Up until this point, one dollar (US$1.00) had a value of almost one Real (R$1.00)—about $1.20 Reals for each dollar. In only a few days, the currency

texto completo

Site Footer

Sliding Sidebar

Instagram