Jamón, Jamón

Paulo Rebêlo Terra Magazine | 06.abr.2012 | link Quando visitei Buenos Aires pela primeira vez, só não morri de fome por causa da Penélope Cruz. Tempos depois, seja quando tentei morar naquela cidade ou quando pisei em outro país de língua espanhola, entendi de vez que devia minha sobrevivência a ela. Se não fosse a dramaturgia da Penélope Cruz, eu não saberia falar minha segunda frase em espanhol: jamón, jamón. A primeira frase sempre fora ‘La Garantía Soy Yo’, depois de muitas aulas práticas com os camelôs de Ciudad del Leste, no Paraguai. Quando a fome aperta e você ainda acha que pollo é um tipo de camisa, a salvação é o tal de jamón que você encontra com pão em qualquer bodega de esquina. O tal do espanhol é um idioma que meu cérebro nunca conseguiu processar direito. Talvez seja preconceito. Talvez uma resistência pós-traumática. Embora seja mais provável ser burrice pura e simples. Mas talvez seja o medo inconsciente de aprender novas frases e não precisar mais falar jamón jamón me achando um verdadeiro garanhão latino americano. Sensação reconhecidamente frugal, não tanto por ser baixinho e careca, mas porque esta geração atual de garçonetes e moças bonitas não deve nem

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Gringo é a mãe

Paulo Rebêlo Terra Magazine * 08.fevereiro.2011 Eu aceito – e entendo – quando ninguém do hemisfério norte acredita que sou brasileiro. Com a benção do futebol e das globelezas, os estereótipos de 500 anos seguem firmes e fortes por mais 500. Só nunca vou aceitar – e nem entender – como o Brasil tem metade da população de cor branca e, a esta altura do campeonato, já com meus primeiros fios brancos da barba à paisana, eu ainda precise explicar que não sou gringo. Jogue-me no pelourinho ou na praia. Em qualquer ponto turístico. Até no Piscinão de Ramos. Se eu não fosse tão baixinho e buchudinho, sairia no tapa com o primeiro cidadão que tenta me vender uma rede fuleira por duzentos reais ou um acarajé seboso por cinco euros. Quase nunca vou à praia. Pelo mesmo motivo que não como caranguejo. Não é alergia, é apenas preguiça. De me explicar pela milionésima vez e de bater o martelinho mil vezes. Quando vou a qualquer praia, basta puxar meu Sundown fator 50 ou tirar minha camisa de botão. Parece uma sirene do Samu, o vendedor vem correndo em minha direção. Para oferecer uma caipirinha. Aparentemente, vendedor de praia não percebe

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A noite da centolla

Paulo Rebêlo | out.2009 Conheci um portenho e ele disse: se você realmente vai até Ushuaia, experimente a centolla. É uma iguaria típica daquela região de Tierra del Fuego e ali é o melhor lugar do mundo para comê-la. Nunca ouvi falar em centolla. Achava que conhecia um pouco de mundo, mas cá estava eu sem fazer a menor idéia que bicho era aquele e onde eu poderia encontrá-lo. Senti-me um verdadeiro mentecapto. E assim fui arrumando a heróica mochila de seis quilos. Já não pensava mais em nada. Perdi meus supostos interesses de conseguir pisar em Ushuaia: atravessar o Estreito de Magalhães, pedalar ao lado da Cordilheira dos Andes, navegar pelo Canal Beagle, ver de perto o falso Farol do Fim do Mundo que Júlio Verne tanto escreveu e, claro, cumprimentar de perto meus primos pinguins. Tudo se tornou supérfluo. Porque agora eu só pensava na centolla. Sim, eu poderia ter entrado no Google para decifrar o mistério. Mas tiraria toda a graça da descoberta. Verdade, nunca gostei de surpresas, mas também verdade que sempre gostei de descobertas inusitadas. Não foi difícil achar a centolla logo no primeiro dia. Quase meia-noite, piso pela primeira vez em solo fueguino e tive sorte pelo

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