Seu elogio é a minha kryptonita

Seu elogio é a minha kryptonita

Paulo Rebêlo | abril 2022


Não sei lidar com elogios, acho que nunca soube, mas gostaria muito de saber. Porque quando alguém me elogia, me sinto igual ao Superman quando se aproxima da kryptonita: fico sem ação e sem compreensão.

Meu pequeno super poder é uma maldição que não esperei, não procurei e não gostaria de ter, mas tenho: saber exatamente o que as pessoas pensam e esperam. É horrível e piora a cada ano, mas hoje posso dizer que aos poucos, bem aos pouquinhos, tenho conseguido controlar essa habilidade a meu favor.

Ainda sou bem iniciante e inexperiente nesse controle, mas fico sempre feliz comigo mesmo nas poucas vezes que consigo separar e compartimentalizar as interpretações certeiras que as pessoas exibem de forma involuntária.

Só que todo o esforço nessa cadeia de processamento vai por água abaixo quando alguém me elogia. Minha compreensão semi-quântica das verdades camufladas parece entrar em parafuso, dá um bug no sistema e o que antes eram caracteres em alta definição, agora viram hieroglifos egípcios que não consigo interpretar.

Meu poder se dissolve e fico sem saber se o que você está falando é verdade, se é um exagero, se é uma pegadinha, se é uma admiração sincera, se é um reconhecimento invejoso, se é uma cilada cognitiva, se é uma cantada enviesada ou se é apenas mais uma ilusão movida pela paixão.

Daí meu cérebro começa a fritar igual a ovo jogado no chão das ruas do Piauí.

É ruim, muito ruim, porque além do desgaste mental (e físico), muitas vezes sou injusto sem querer: por não saber como responder, por desconversar, por não elogiar de volta, por ficar em silêncio, por mudar de assunto, por não agradecer, por ignorar.

A todas as poucas pessoas que me elogiaram no passado, posso apenas pedir desculpas aqui por escrito, explicar que não foi por maldade, não foi por desinteresse, foi apenas por autocontrole para não sair correndo para bem longe dessa kryptonita que embaralha minha percepção do mundo.

Levei metade da vida para compreender e aceitar. Agora estou levando a outra metade para aprender a controlar.

No meu processo de aprendizado, tenho resgatado situações (e elogios) engraçados das últimas três décadas que me fizeram sair correndo para bem longe. Na maioria das vezes, corri mesmo.

Mas sou otimista. Com o tempo avançando, a barriga crescendo e a paciência com os seres humanos diminuindo, acho que não preciso mais ficar tão preocupado com elogios e com medo dessa kryptonita.

Dezenove anos depois, tenho adotado uma estratégia que aprendi em 2003 com o José Ribamar Coelho Santos, também conhecido como Zeca Baleiro: quando alguém elogiar seus olhos, responda que são seus ouvidos.


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São Miguel do Gostoso, Rio Grande do Norte.
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Novembro 2021