O planeta empatia e o conflito entre Rússia e Ucrânia

O planeta empatia e o conflito entre Rússia e Ucrânia

Paulo Rebêlo | fev.2022 | Sententia


Tenho zero competência para analisar o conflito entre Rússia e Ucrânia. Também me falta conhecimento para avaliar razoabilidades bélicas, se é que elas existem. E seria injusto comigo mesmo virar mais um especialista de Facebook. Porque ainda sinto essa região muito próxima de mim.

A gente sempre acha que o outro lado do mundo é uma terra distante e que esse mesmo mundo tem outros planetas dentro dele. Com vidas diferentes e uma lógica social que não tem nada a ver conosco. É natural do ser humano pensar assim e é bem engraçado porque eles (do outro lado do mundo) também acham que estamos nós, brasileiros, pendurados em árvores na nossa República de Bananas com o Morro do Pão de Açúcar ao fundo.

Muita gente considera a China e a Rússia, por exemplo, dois planetas bem diferentes do nosso, uma coisa meio ficção romantizada pelo cinema e pelos livros de espionagem da Guerra Fria.

Embora eu tenha uma dificuldade bem particular em entender as pessoas que ainda acreditam em distância geográfica no mundo de hoje, compreendo a nossa distância psicológica de Rússia e Ucrânia porque a cabeça da gente é assim mesmo. E leva muito tempo para reprogramar.

Tem gente morrendo de fome aqui na esquina de casa. Passo por elas todo dia e sigo meu caminho. E tem gente morrendo a bala todo dia, às centenas, nesta infinita insegurança urbana do Brasil, onde não sabemos se a polícia protege ou mata. Ou até sabemos, a depender da sua cor ou classe social.

Mas o sofrimento aqui na esquina de casa é igual ao desses outros planetas, porque infelizmente somos mais iguais do que gostaríamos de ser.

Particularmente no Leste Europeu, quinze anos atrás passei quase dois anos (2006/2007) convivendo pessoalmente, diariamente e estive psicologicamente muito próximo de tanta gente da Ucrânia, Armênia, Rússia, Macedônia, Bulgária, Azerbaijão, Romênia, Lituânia, Letônia, Belarus, Taijiquistão e, claro, Quirguistão e Cazaquistão – sim, isso mesmo, o Cazaquistão do filme Borat.

Caminhei, dirigi, peguei trem, ônibus, avião sem cinto de segurança, carona, bicicleta e moto em boa parte desses pedaços de terra distante, sempre confirmando o óbvio dos óbvios que já tinha visto e vivido, em anos anteriores, na América do Sul, na Europa, na América do Norte e mais recentemente na Ásia:

na Ucrânia ou no Sertão, a gente é frustrantemente igual.

Sim, fui detido duas vezes (Polônia e Eslováquia); fiquei sitiado em Bucareste com o aeroporto fechado pelo Exército da Romênia com a queda do presidente Traian Basescu e o país em estado de sítio temporário; levei bala de borracha e tive que ajudar a socorrer gente de colete azul da ONU, senti o cheiro do coquetel molotov passando a dois centímetros de mim nos conflitos urbanos em Budapeste, me meti em tanta roubada que até minha amiga Dona Morte deve ter pedido férias quando retornei ao Brasil.

Aqui, vale uma observação de justiça profissional: de certo modo, o cenário descrito acima não é lá muito diferente de quem já precisou ver o BOPE e o Batalhão de Choque em ação durante os protestos urbanos nas capitais brasileiras, como a esmagadora maioria dos repórteres de polícia e cidades, aliás, também já viu e presenciou.

Isso não me faz especialista em geopolítica, muito menos avalista de Leste Europeu e de nada. Mas infelizmente me aproxima de pessoas que passei a querer muito bem e que me ensinaram muito, mas muito mesmo.

Queremos as mesmas coisas.

Exatamente as mesmas coisas, a ponto de ser frustrante depois que você aprende a saber o que as pessoas pensam apenas por observação.

Temos os mesmos amores, medos, frustrações e felicidades. É difícil processar isso quando se está distante. E talvez por isso tantos relacionamentos sucumbam à distância geográfica.

De 2006 para cá, ainda reencontrei algumas poucas pessoas em duas oportunidades – 2014 e 2015 – de forma muito rápida e esparsa, pois são tantos países que cada um foi para um lado e tornou-se impossível reunir mais de dois ou três ao mesmo tempo.

Mais de 15 anos depois, a gente ainda mantém contato e não faz muito tempo brincamos novamente sobre o quanto resisti bravamente em visitar a Ucrânia porque, diante daquela minha amiga ucraniana que fazia ioga, eu tinha medo de visitar Kiev (Kyiv) e não querer mais ir embora. Ela dizia que, em Kyiv, as mulheres eram ainda mais bonitas do que ela — o que sempre me parecia impossível de acreditar.

De certo modo, foi assim que também escapei de visitar o Quirguistão e, provavelmente, não voltar nunca mais. Estaria lá até hoje levando uma vida de fazendeiro e tirando leite da vaquinha.

E muitos amigos que agora estão no centro e nos arredores dessa confusão toda entre Rússia e Ucrânia, junto a centenas de pessoas próximas deles, sem saber o dia de amanhã se o conflito sofrer uma escalada bélica que muitos analistas americanos pedem, diariamente, pelos jornais e agências de notícias.

Estamos falando de países de territórios pequenos. Não são países continentais feito Brasil e Estados Unidos, que ninguém sabe nem o nome da capital do Estado vizinho.

Quase 80 anos depois da Segunda Grande Guerra, me foge a compreensão de ainda precisarmos ver e sentir as mesmas burrices e ignorâncias. Em 2022, a ciência está a um passo de decodificar a tão sonhada fissão nuclear, mas o mundo segue refém dos mesmos homens brancos de meia idade com daddy issues.

É tudo bem estranho porque é do outro lado do mundo e meu cérebro insiste em sentir que é perto de mim, com nome e sobrenome, histórias e vivências compartilhadas, enquanto aqui na esquina de casa, ontem mesmo assassinaram outro cidadão a tiros na Praça Maciel Pinheiro, no centro do Recife, no exato lugar onde eu frequentemente tomo uma cerveja com macaxeira cozida.

Às vezes acho que o verdadeiro outro planeta me parece ser a empatia. Está muito, muito distante de nós.


FOTO EM DESTAQUE
Janeiro, 2007.
Uma pracinha qualquer no centro de Praga, na República Tcheca.
Sony DSL-A100 | 70mm | 1/25s | f/5.6 | ISO 200