Covid-19 e a Batalha da Normandia

A pandemia de Covid-19 é a nossa Batalha da Normandia em versão biológica

Aos 100 anos de idade, Maria José Bastos se recuperou da Covid-19 depois de 13 dias internada em um hospital universitário do Rio de Janeiro.

Pelas normatizações conhecidas até agora sobre o novo coronavírus, a recuperação dessa paraibana de Campina Grande é uma exceção. Ela se junta a outras milhares de exceções, que também se recuperaram, contra todos os indícios lógicos. Talvez não sejam mais exceções.

A aleatoriedade alucinante da Covid-19 me parece a parte mais cruel da doença.

Os sintomas remetem a uma leve gripe sazonal para muitas pessoas; ao mesmo tempo em que podem levar à morte de outras pessoas em dois dias. Às vezes, poucas horas separam o paciente ainda consciente do paciente intubado e sem esperança.

Quanto mais tento entender (sem conseguir), mais eu lembro da Batalha da Normandia. Popularmente conhecida como o Dia D (D-Day), é considerada a batalha mais sangrenta — e aleatória — registrada até hoje.

Há 76 anos, no dia 6 de junho de 1944, mais de 150 mil soldados das Forças Aliadas (EUA, Grã-Bretanha, União Soviética e China) desembarcaram na costa da Normandia, no noroeste da França, para liberar aquele país da ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Quem chegou pelo mar, foi saudado com bombas e morteiros jogados pelos alemães em direção à praia. Dos 150 mil, calcula-se que 4 a 5 mil morreram ali mesmo, de cara, durante o desembarque ou minutos depois.

A aleatoriedade desse momento sempre me fascinou desde criança. O desembarque dos soldados, enquanto bombas e morteiros vinham de cima, já foi registrado em livros, filmes, peças e videogames centenas de vezes.

E em nenhum registro parece fazer o menor sentido.

Naquela exata mesma madrugada, longe da praia de Omaha onde os soldados desembarcaram, morreram cerca de 20 mil civis franceses vítimas de bombardeios aleatórios do Dia D, incluindo aqueles que saíram de casa para fugir das bombas.

Nada me impressiona mais do que a falta de previsibilidade sobre quem vai morrer e quem vai viver.

E também de como uma pessoa, ou grupo de pessoas, toma uma decisão tão estapafúrdia de entregar milhares de vidas à aleatoriedade, como foi o caso na Normandia e como tem sido o caso de várias cidades durante a pandemia de Covid-19.

Naquele dia, morreram todos os tipos de soldados: os melhores e piores, os preguiçosos e os mais bem preparados, os mais fortes e mais fracos, os mais treinados e os menos treinados.

Em qualquer outra situação, onde houvesse um mínimo de previsibilidade e controle, um determinado tipo de treinamento ou preparação prévia poderia dar mais chances de sobrevivência. Na Normandia, nenhum treinamento ou preparo era capaz de prever absolutamente nada. A única certeza: muitos vão morrer aleatoriamente.

A aleatoriedade de uma bomba jogada de cima transforma todo seu conhecimento numa espécie de capital inútil. Todo seu treinamento e superação, mental e física, não significa nada quando a aleatoriedade regula tudo que irá acontecer nos próximos minutos ou próximos dias.

No mundo inteiro, a maior parte dos relatos médicos — da frustração desses médicos e médicas — vem justamente dessa inutilidade frustrante. É como se todo o conhecimento adquirido e toda experiência acumulada não fizessem muita diferença diante da aleatoriedade da Covid-19.

A saúde mental de boa parte desses médicos deve estar mais estilhaçada do que os milhares de corpos na praia da Normandia.

Milhares de idosos se recuperam, enquanto milhares de jovens saudáveis, e com sistema imunológico em dia, sucumbem.

Os otimistas dizem que vamos tirar algum aprendizado disso tudo. Talvez aproveitar melhor os momentos na companhia de quem amamos.

Desde que a gente não perca a batalha para a aleatoriedade.

Na Normandia, os comandantes que mandaram os soldados correr cegamente contra morteiros aleatórios sabiam disso. Hoje, os comandantes dos países também sabem. E estão fazendo a mesma coisa que fizeram no dia 6 de junho de 1944.


Sobre a foto em destaque:
Dezembro de 2009.
Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, Argentina.

Nikon D90 | f/10 | 1/400 | 42mm | ISO 200

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