Mariposas e mariposa bruxa

Não tenho jardim, mas as mariposas me visitam mesmo assim

Tenho medo da maioria dos bichos que voam e rastejam, então quando as mariposas chegaram pela primeira vez, meu comportamento foi do típico assassino de vassoura. Não funcionou muito bem, porque a cada mariposa expulsa da parede, duas voltavam.

Nos dias seguintes, deixei a vassoura de lado e me transformei no genocida do Baygon. Comportamento o qual não guardo o menor orgulho. Pelo contrário, hoje carrego uma culpa tão grande que fui tentar descobrir do que as mariposas se alimentam.

Se elas gostassem de atum enlatado e miojo, eu poderia criar um panapaná aqui em casa.

Duas semanas –

Quando a gente passa muito tempo no mesmo lugar, me parece normal identificar uma série de padrões que se repetem em nosso entorno. E eu nunca morei tanto tempo no mesmo lugar durante minha vida adulta. São seis anos seguidos no vigésimo-quinto andar no mesmo bairro onde morei quando criança. Seis anos me parecem uma eternidade ao mesmo tempo em que sinto como se fossem seis semanas.

A partir do terceiro ano, percebi que as mariposas apareciam por aqui em grande quantidade duas vezes por ano. Amigos e porteiros me disseram que é por causa da chuva, tipo aquelas formigas de asa. Mas as minhas mariposas chegam com chuva e sem chuva, com calor e sem calor, com vento e sem vento.

Depois de duas a três semanas, desaparecem.

Desconfiei se não estavam usando minhas paredes de motel. Mas os biólogos no Google me dizem que o tempo médio de vida de muitas espécies de mariposas e borboletas, na fase adulta, é de duas a quatro semanas.

Voando em quarentena –

Continuavam a incomodar. Aparentemente só a mim, pois os vizinhos desconhecem esses insetos.

Lembrei dos besouros de Brasília. Uma vez por ano, os besouros invadem os apartamentos no final de tarde. Se você deixar a janela aberta, parece um suicídio coletivo de besouros. Comecei a sair para trabalhar deixando a casa toda trancada. Bastava a primeira brecha e a primeira luz acesa para as mariposas começarem a voltar uma por uma.

A partir do quarto ano, aprendi a conviver em harmonia com as mariposas. E notei que, assim, mariposas maiores surgiram. Algumas parecem borboletas gigantes. As asas parecem feitas de crouché.

Comecei a sentir falta das mariposas ao chegar em casa.

Elas devem ter entendido que deixei de ser uma ameaça, pois as menores arriscam voos rasantes na minha careca e as maiores deixam eu me aproximar para olhar as asas de crouché.

Desde o quinto ano, nesses períodos de mariposas abundantes, comecei a deixar uma luz acesa para elas durante a noite.

Com a quarentena forçada pelo coronavírus, meu convívio com as mariposas tem sido maior e tenho identificado outros padrões. Elas têm chegado mais cedo, ainda antes do pôr do sol. E pela primeira vez, recebi a visita de uma mariposa bruxa que ficou quase 24h estática na parede. Serviu de modelo fotográfica.

Às vezes, quando acordo no final da manhã, vejo que algumas estão mortas pelo chão. Lembro da crueldade dos primeiros anos, quando taquei a vassoura ou borrifei Baygon. Bate um sentimento de culpa, mas horas depois chegam mais mariposas dando rasante na minha careca. Tento pensar que é o jeito de elas dizerem que perdoam minha bruta ignorância de outrora.

Queria saber o que atrai elas para cá.

Talvez seja o silêncio quase total. Talvez seja a quantidade de espaço em branco. As paredes são todas brancas sem nenhum quadro, sem enfeite, sem móveis, sem plantas, sem lustre, sem brechas, sem frestas.

A cada ano eu me desfaço de mais e mais coisas.

Talvez elas gostem de altura. Talvez tenha alguma coisa no teto do edifício que mande elas para o apartamento mais próximo. Talvez elas gostem de assistir filmes de terror na madrugada. Talvez elas gostem do cheiro de vinho e uísque.

Li em algum lugar que a cerveja atrai algumas espécies de mariposa.

Ou talvez elas gostem mesmo de atum e miojo.

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