A dureza do meu calcanhar é a leveza da minha história

A dureza do meu calcanhar

Paulo Rebêlo | Janeiro.2019 |

Quando coloquei os pés na areia da praia de Atalaia, em Aracaju, tentei lembrar há quantos anos eu não andava de frente para o mar e sem hora para voltar.

Faltavam dois dias para virar o ano de 2018 e começar 2019.

Atalaia é ótima para caminhar, mas acho que levou vinte minutos até meu calcanhar começar a reclamar.

Será que eu estava enferrujado há tanto tempo? A ponto de sentir a planta do pé começar a arder tão rápido?

Não consegui calcular quantos anos, exatamente, se passaram desde minha última caminhada na areia batida. Mas como seria possível um calcanhar que era de ferro, uma sola de pés que mais parecia um casco de tartaruga, começar a arder tão cedo?

Aos quarenta minutos na areia batida e com os dois calcanhares ardendo e doendo, fiquei com medo de piorar a situação e gerar uma dificuldade, logo mais à noite, em ir andando até o bar mais próximo. Me arrastei até a avenida e peguei um Uber de volta ao hotel.

Cimento para amaciar —

Não faz muito tempo (ou faz?) e quem tentasse furar meu pé com uma agulha teria dificuldade. Eu meio que me orgulhava disso, apesar da feiúra daquela casca grossa.

Passei anos jogando bola descalço: na areia da praia, no asfalto do beco perto de casa, no concreto debaixo dos viadutos do Recife, no cimento quente ao lado do Terminal Joana Bezerra, nos campinhos de várzea cheio de pedregulhos e cacos de vidro. Devo ter perdido quilos de pele toda vez que rasgava um dedo numa bola dividida ou por causa de uma pedra no meio do caminho.

Quando parei de jogar bola, mantive a casca grossa caminhando descalço em cima da areia quente e comecei a treinar a casca da palma da mão para seguir o mesmo caminho; agora não apenas com areia quente, mas com madeira e cimento crespo.

Apesar da minha aversão a exercícios, caminhar por longas horas e vários quilômetros sempre foi um dos meus refúgios contemplativos mais queridos.

Depois que meu antigo grupo de trilhas de bicicleta se desfez e as pessoas começaram a se mudar, casar ou a sumir do mapa, passei a mapear e percorrer trajetos em partes do litoral da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Muitas vezes sozinho, em percursos que variavam entre 20 a 30 km; outras vezes em pequenos grupos — com mais dois ou três malucos — para percursos maiores de dois ou três dias.

Andávamos o dia todo pela praia e de noite levantávamos acampamento com duas barracas de camping de frente para o mar e longe dos coqueiros. Ao amanhecer e desmontar as barracas, voltávamos à areia com as mochilas que pareciam mais pesadas a cada hora.

Lembrando agora, acho que fomos salvos várias vezes pela obrigação de voltar na segunda-feira para trabalhar. Fico pensando se a gente continuaria andando até a planta do pé abrir por inteiro se não tivéssemos que voltar para cidade.

Esse pequeno grupo de intrépidos também se dissolveu. O de sempre: casaram, sumiram ou enjoaram.

Acho que em algum momento enjoei de andar na praia também, mas continuei usufruindo das longas horas de caminhada para conhecer vários subúrbios de alguns lugares onde morei. Lembro agora, principalmente, de longas e friorentas caminhadas em Lisboa, Budapeste e Montreal.

Só não tinha a areia da praia e, pelo ardor que sinto agora no calcanhar, imagino que ele tenha se acostumado ao conforto do tênis macio. 

Meu calcanhar que era de ferro e agora parece um algodão doce.

Acho que minha única meta para 2019 é reconquistar meu calcanhar. Ele guarda boa parte da minha história e graças (também) a ele escrevi várias e várias crônicas, mentalmente, para depois passar a limpo no teclado e no Word.

Parei de escrever de verdade já tem um tempo, aparentemente parei de caminhar tem mais tempo ainda. Nos últimos anos, o único trajeto mapeado tem sido o percurso da empresa até a padaria na esquina.

Vou reconquistar meu calcanhar. Mas primeiro preciso esperar minhas dobrinhas das pernas pararem de arder e encontrar uma farmácia para comprar dois quilos de hipoglós.


Foto em destaque:
Estrada chegando à balsa para Galinhos, Rio Grande do Norte.
30 de dezembro de 2017
Fuji X100T | 23mm | 1/500 e f/11 | ISO 200

 

1 comments On A dureza do meu calcanhar é a leveza da minha história

  • tania teresinha lopes

    Ô, Paulo
    Boa como sempre são tuas crônicas.E fazem pensar nos calcanhares que tanto ajudaram a segurar o tranco, a firmar o pé…
    E me fizeram pensar nas minhas unhas encravadas(terríveis)! Ambos tem a marca, e as dores das caminhadas
    que se faz para chegar a algum lugar.
    Que bom que que tens levezas nas tuas histórias!
    Abrs.
    Tânia

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