Negócios em comunicação: algumas dificuldades de empreender depois do jornalismo

O artigo abaixo faz parte do livro ‘Os impactos das novas mídias na comunicação: relatos profissionais e artigos acadêmicos – Volume 2’, publicado pela Editora UFPE via Projeto Conexões em dezembro de 2018. O download do livro é gratuito.

Paulo Rebêlo

Todas as dificuldades de abrir um próprio negócio são conhecidas e já foram estudadas, pesquisadas e debatidas por pessoas com mais experiência e qualificação para falar sobre elas. Em livros, palestras, manuais, aulas e vídeo. O máximo que me permito fazer é compartilhar um pouco da experiência relativamente específica de migrar da área de comunicação para um negócio próprio, fora de comunicação, depois de 18 anos respirando notícias e farejando pautas.

É um tiro no escuro, mas espero que de alguma forma possa ajudar outras pessoas interessadas em fazer o mesmo, agora ou num futuro próximo.

Não foi uma migração fácil, ao menos não psicologicamente. Ao voltar para o Recife em 2014, estava decidido a abandonar o jornalismo para me dedicar integralmente à Paradox Zero, agência de tecnologia e estratégias digitais que abri enquanto morava em Brasília. Resolvi investir todo o meu tempo, recursos e investimentos naquele ano de regresso à cidade.

A saída do jornalismo em direção ao mundo corporativo ainda levou mais um ano. Em 2014, ainda atuei na edição, dentro de um jornal no Recife, para cobrir férias de profissionais da casa. Fiz algumas pequenas reportagens aleatórias como correspondente de veículos estrangeiros, que sempre foi uma das atuações mais atraentes para mim, por uma série de razões que não cabem neste espaço.

Exatamente um ano depois daquela última experiência na redação de um jornal, os britânicos do Scidev.net publicaram o que veio a ser minha última reportagem como jornalista, em janeiro de 2015. Curioso que, somente agora, ao escrever este relato, me dei conta realmente do ocorrido: a última reportagem comissionada, feita a partir de uma pauta definida previamente e com objetivos puramente jornalísticos.

Com a Paradox Zero chegando ao primeiro ano de atividades no Recife e crescendo um pouco mais do que havia previsto inicialmente, o tempo passou a ser escasso demais e a quantidade de exigência era muito diferente daquela a que me acostumei dentro de redações e assessorias.

No entanto, de todas as dificuldades que constavam nas minhas previsões e que estavam cobertas nas leituras que comecei a fazer sobre gestão e empreendedorismo, nenhuma me preparou para a maior de todas: a escolha das pessoas que vão dividir essa trajetória com você.

Durante o debate realizado na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) em 2017, dentro da programação do Projeto Conexões da UFPE, esse foi um dos assuntos que mais procurei reforçar ao falar para o público ali presente e, também, ao responder algumas dúvidas e curiosidades da plateia.

É muito comum ouvir que criar uma sociedade empresarial é como um casamento, chega a ser um clichê e, como a maioria dos clichês, existe porque tem muita verdade. Contudo, até então, ainda não havia imaginado que mesmo sem uma sociedade empresarial você também precisa lidar com seus funcionários e colaboradores quase como em um casamento.

Traduzindo e sem meias palavras, não é todo mundo que consegue pensar e trabalhar para os mesmos objetivos e interesses que você tem para seu negócio. E essa sintonia não tem absolutamente nada a ver com a qualidade técnica do profissional, nem com a honestidade ou integridade intelectual. Pura e simplesmente, é um fator deveras subjetivo e que via de regra não fica aparente no início.

Você leva meses, ou anos, para entender que aquele excelente profissional simplesmente não consegue pensar de modo empreendedor.

Ele pode ser o melhor técnico ou melhor analista – ou melhor jornalista – em sua respectiva área, mas eventualmente é um desastre corporativo. E os desastres corporativos podem colocar em risco não apenas o seu negócio, mas também a continuidade do trabalho de todos os outros profissionais envolvidos.

No início do empreendimento, imaginei que a maior dificuldade seria encontrar bons profissionais dispostos a entrar e colaborar nessa pequena empresa, microempresa, que eu vinha maturando mentalmente nos últimos anos. Não demorou até entender que isso não era uma dificuldade realmente. Pelo contrário. A quantidade de profissionais, bons, ótimos, excelentes, era e continua sendo abundante.

Os bons profissionais lá estavam, então a dificuldade passou a ser: como poderei pagá-los? Terei orçamento suficiente para remunerá-los de forma justa e, preferencialmente, um pouco acima do que o mercado costuma pagar? Será que esses bons profissionais também vão entender que se trata de um risco, como todo e qualquer empreendimento pequeno?

Aqui, devo abrir um parêntese para explicar um outro assunto importante que também fez parte do debate durante o Programa Conexões.

A filosofia corporativa que resolvi cravar na Paradox Zero sempre foi a de entregar excelência técnica e um atendimento 100% transparente: tanto para clientes quanto para os funcionários e colaboradores.

Porque são as duas variáveis que mais critiquei durante os últimos 20 anos de comunicação.

Longe de ser uma jogada de marketing, esse direcionamento é essencialmente fruto de uma ideologia profissional muito antiga. Uma ideologia que tinha inúmeras limitações para ser aplicada, como jornalista e funcionário, mas agora poderia ser engrenada sem limites, sem amarras, sem diretrizes externas de pessoas que não entendem do negócio em que atuam.

Dependeria única e exclusivamente de mim e das pessoas que fazem parte desse mesmo projeto.

Então voltamos à maior dificuldade que encontrei e, talvez, seja também uma das maiores dificuldades de qualquer empreendimento cujos profissionais trabalham há muitos anos em um setor tão diferente dos demais, tão peculiar, como é o setor de jornalismo.

Via de regra, jornalista não entende o mercado e não entende de mercado.

Mesmo aqueles que escrevem sobre economia, escrevem sobre o mercado, são observadores. Verdade que há observadores mais perspicazes, outros nem tanto, mas a própria essência da profissão obriga você a ser um observador. Você fala do mercado sem fazer parte dele.

Também via de regra, o jornalista não encontra na universidade e nem depois, no trabalho, uma série de exigências corporativas que fazem muita diferença em qualquer empreendimento próprio.

As exigências de um jornal ou de uma assessoria são outras. Tão sérias e complexas quanto, mas outras. Estamos preocupados com prazos, com tamanho de texto, com apurações e inúmeras outras variáveis intrínsecas ao modo de fazer jornal.

As exigências são outras, as demandas são outras, os conhecimentos necessários são outros. E quase todas essas necessidades não dialogam em nada com o ofício que você fez tão bem durante décadas.

Parte dos profissionais está decidida a migrar de profissão ou a empreender e, porventura, a mudar o direcionamento de suas ações profissionais para se adaptar. Outra parte, porém, não está. Não quer. Não aceita. E uma terceira parte, esta sim a mais difícil, simplesmente não consegue. Até quer, mas não consegue.

Identificar esse padrão subjetivo nos profissionais que irão lhe acompanhar, ser sócios, parceiros ou funcionários, tornou-se rapidamente a maior dificuldade que encontrei nos últimos anos como gestor de um pequeno negócio que, embora dialogue com a comunicação, não faz comunicação no sentido clássico da palavra.

Outras dificuldades são relacionadas e desmembradas dessa dificuldade maior, mas o resumo é simples de entender. Para funcionar bem, as expectativas precisam estar alinhadas e as funções devidamente ajustadas. O melhor e mais competente jornalista que você conhece talvez seja um péssimo gestor de pessoas e não consiga chefiar sequer uma pequena equipe de quatro pessoas.

Talvez, inclusive, eu seja um desses péssimos gestores de pessoas. E, sendo o caso, talvez a minha dificuldade aqui relatada seja diferente da sua ao tentar abrir seu empreendimento em comunicação.

Fato é que essa realidade discrepante entre gestão e atuação profissional é latente nas redações, com excelentes editores que são péssimos gestores; e excelentes gestores que são péssimos editores.

Os jornais, normalmente, nunca deram a merecida atenção a situações desse naipe. Pouco ou nada fizeram para causar uma disrupção nas relações profissionais e, menos ainda, nas relações hierárquicas entre os colaboradores.

O mercado mostrou – e continua a mostrar – que essa inatividade cobra um preço muito alto. Para um empreendimento pequeno, novo, o preço costuma ser maior ainda porque as empresas pequenas quebram com facilidade. Podem ir à falência por causa de um ou dois erros.

Não à toa, a primeira e única meta interna da Paradox Zero, no início, era sobreviver aos três primeiros anos. Mais de 70% das novas pequenas empresas fecham no primeiro ano de vida e, estatisticamente, as poucas que sobrevivem aos três primeiros anos, sem fechar ou falir, são aquelas que apresentam uma expectativa de sobrevivência real por anos vindouros.

Hoje, não sabemos exatamente para onde vamos, mas acredito que ninguém saiba realmente onde vamos parar em termos de mercado de comunicação. Também não sabemos como será nossa relação com os veículos de comunicação daqui para frente, visto que continuamos a efetuar treinamentos dentro de alguns jornais e assessorias, além de consultorias técnicas.

Mas sabemos, pelo menos, que superamos nossa meta inicial de sobreviver aos três primeiros anos, crescendo muito devagar, mas estável. Acho que tivemos muita sorte, talvez mais do que a gente mereça, mas nem a sorte tem conseguido treinar ou ensinar como lidar com essa dificuldade de ajustar as expectativas e atuações dos profissionais de comunicação no mundo corporativo que não envolve lides, apurações, entrevistas e reportagens.

O universo de conhecimentos necessários para o empreendedor é diverso. Temos que lidar com publicidade, marketing, política, administração, contabilidade, tecnologia, informática e, claro, muita gestão de pessoas. E as pessoas, todos nós sabemos, não têm manual de utilização.

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