Talvez por ter vivido sem planos de absolutamente nada, sem entender direito o tal do amanhã, que esses planejamentos frustrados tragam a saudade com tanta força. Mas onde a gente consegue pegar uma fila, fazer um cadastro e esperar para cair no esquecimento feito uma dívida antiga? Deveria haver um Serasa para essas coisas.

Rebêlo | 22.out.2017

Muita gente me diz que é de noite, ao chegar em casa, cansado do trabalho, o momento que mais sentem falta do outro. De abraçar, contar como foi o dia, jogar conversa fora e talvez assistir alguma coisa na televisão antes de dormir.

Outro tanto de gente me diz que é de manhã, ao acordar e olhar para o vazio ao lado, quando a saudade bate mais forte.

Sempre vi um pouco de poesia nesses depoimentos, embora nunca tenha conseguido me encaixar no soneto. Não por falta de tentativa, mas talvez por ter uma percepção confusa sobre compartilhamento e um relógio biológico mais confuso ainda.

Não é de manhã, nem de noite e nem nos finais de semana que o peito rasga.

É quando puxo minhas anotações, cravadas na memória, de todos os planejamentos que foram feitos e nunca cumpridos.

São instantes rápidos, mas que fazem lembrar de tantas viagens que iríamos fazer, tantas praias que iríamos conhecer, tantas estradas que iríamos percorrer.

Frações de segundos que rasgam sua tranquilidade e custam horas de saudade.

Às vezes, dá até para sentir o cheiro da cachoeira que não conseguimos alcançar porque o tempo não foi suficiente.

E de repente, a suficiência do tempo não é mais.

Não é mais uma variável porque o tempo escasso agora é farto. A presença agora é ausência. E a distância se transforma na única constante no meio de tantas variáveis desaparecidas.

Talvez por ter vivido sem planos de absolutamente nada, sem entender direito o tal do amanhã, que esses planejamentos frustrados tragam a saudade com tanta força.

Talvez por nunca pensar no dia seguinte, talvez por agradecer estar vivo depois de ter encostado na ponta da foice da morte um número de vezes, é que ter planejado o mínimo tenha esse significado máximo.

Talvez ela esqueça de todos aqueles planos. Talvez ela resolva fazer por conta própria. Mas, quando seu próximo companheiro convidar para uma daquelas praias que a gente tanto ia, será que ela vai aceitar ou desconversar? Eles vão juntos ou ela vai escolher outros pontos no mapa?

Onde é que a gente vai buscar esses planejamentos para refazer? Onde podemos pegar uma fila, fazer um cadastro e esperar para cair no esquecimento?

Deveria haver um Serasa para nos mostrar a dívida e explicar como limpar o nome nessa praça onde ficam esses planejamentos que não foram, mas se foram.

 


Foto em destaque:
Vancouver, Canadá | 19 de julho de 2013.
Canon 5D Mark II | 300mm | f/16 | ISO 400 

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