Paulo Rebêlo | 20.nov.2017

A gente passa a vida inteira ouvindo sobre o desgaste do casamento e de morar junto. Ouvimos de casais diferentes, de gerações distintas e de realidades opostas.

Ninguém leva a sério porque muita gente acha que está certa quando todos os outros estão errados.

É como se o amor dessas pessoas fosse sempre maior e mais verdadeiro do que o amor de todas as outras pessoas juntas.

Serão pioneiras em achar a cura para todos os males já identificados, validados e documentados do casamento em cinco continentes.

É quase uma devoção religiosa.

A próxima fase da peregrinação – que leva poucos meses ou vários anos – é começar a entender que, talvez, estejamos mesmo errados.

Renegar essa devoção é ainda mais difícil.

Porque é admitir que nos metemos numa grande roubada e confessar o quanto seria saudável se a gente fugisse disso tudo.

Se não faz sentido à primeira vista, talvez faça tanto sentido quanto o de crucificar uma relação por conformismo ou para garantir a abstração de uma casa dividida como se fosse o estágio final de um relacionamento seguro.

Um atestado celestial de uma paixão cuja convivência há de questionar na primeira noite que se chegar em casa e não encontrar mais o espaço, ali no cantinho da sala, onde você podia se isolar do mundo com seu fone de ouvido.

Pois agora, ali naquele canto, há um armário de dois metros de largura para guardar… coisas.

Ou quando ela chega cansada do trabalho, querendo conversar um pouco e tomar um copo de cerveja ou taça de vinho, ouvir uma música tranquila, mas… ao abrir a porta se depara com um dinossauro gordo e peludo gritando “vou te matar, FDP!” na frente do Playstation com os amigos invisíveis do outro lado da internet.

Ou durante algum dos 84 campeonatos internacionais de futebol, vôlei, basquete e até peteca que passam 365 dias por ano neste planeta e provavelmente nos outros também.

Talvez as pessoas mais sociáveis e amáveis consigam ter uma visão menos rabugenta desse cenário.

Talvez acreditem nos relacionamentos idílicos dos nossos pais ou avós. Sem nunca ter perguntado diretamente a eles: e se você pudesse ter fugido? E se você tivesse oportunidade, opções?

Esse romantismo não-verificado ignora que a cabeça do mundo mudou, a expectativa do mundo mudou, o relacionamento do mundo mudou, a gente mudou, as coisas mudaram, tudo mudou e mudou muito mais rápido do que qualquer previsão futurista.

Acho que nossa geração está sentimentalmente falida.

A próxima geração talvez entenda e aprenda a viver em casamentos por temporada.

Vamos nos encontrar e dividir um mesmo espaço por dois meses ao ano, talvez menos, talvez um mês por semestre, como se fosse uma casa de veraneio.

Por 30 dias, a gente vai renovar os votos válidos (e conscientes) de que não vamos abrir mão de nossas estéticas domiciliares e nem dos nossos relapsos de sobrevivência solitária de quatro décadas.

Vamos assistir a todas as temporadas atrasadas dos seriados no Netflix.

Todos os filmes que ficaram no pendrive.

Vamos pegar um avião para lugares inóspitos. Ou vamos ficar sem fazer nada mesmo, jiboiando em casa e fazendo churrasco na lage.

Nos próximos onze meses, se a geografia e as finanças permitirem, voltamos a nos encontrar uma vez por quinzena, uma vez por mês, uma vez por semestre. Pouco importa, de verdade.

Importa mais dividir uma feijoada, uma lasanha, umas noites de vinhos, nossos sabores e amores.

Sem a pressão do dia seguinte, sem o peso da toalha molhada em cima do sofá, sem a culpa por não estar junto todo dia.

E se a toalha no sofá continuar a pesar tanto nas costas ou se o armário continuar ocupando aquele branco-vazio tão estimado, também não haverá problema. Deixemos a casa de lado. Vamos alugar uma quitinete no AirBnb e assim vamos conhecendo novos bairros a cada encontro, novas cidades a cada viagem, novas praias a cada feriado.

Vamos nos abraçar e beijar loucamente como se não houvesse amanhã, porque o amanhã vai demorar um pouco mais a chegar.

E sejamos honestos, talvez nem chegue, diante das inquietudes da vida e das infelicidades da saúde.

Mas quem sabe, e quem diria, a gente não consiga fazer várias coisas novas juntos? Talvez todos aqueles planejamentos que ficaram para trás por falta de tempo.

Talvez a gente consiga dividir mais problemas e achar mais soluções para os dois. Por telefone, e-mail, skype, mensagem, cartão postal, poesias escritas no guardanapo e bilhetes deixadas na portaria.

Talvez, quiçá um dia, a gente consiga entender que para chegar ao fim da vida juntos, a última coisa que precisamos é passar a vida inteira juntos.


Foto em destaque:
Praça Deák Ferenc Tér
Budapeste, Hungria | 08 de setembro de 2006

Sony DSLR-A100 | 35mm | 1/160 e f/9 | ISO 100

Acompanhe os textos também pelo facebook.com/hipopocaranga

1 comment

  1. “A experiência amorosa exige sacrifício. Não se ama para ser recompensado. O amor é sua própria recompensa. Não resisto em citar Drummond falando da poesia coisa parecida: “Poesia, o perfume que exalas é tua justificação”. Não há amor fácil, mas todo amor é maravilha, saúde, “remédio contra a loucura”, coisa que Guimarães Rosa ensinou. É a experiência humana mais exigente. Não é contrato, troca de favores, investimento, é entrega e compromisso… Do “sacrifício” de amar nasce a mais perfeita alegria. Ninguém faz cara feia quando se sacrifica por amor. Não se trata de anulação, subserviência de quem ama, trata-se da morte do ego, tarefa a ser feita até o último suspiro.” Adélia Prado

Deixe uma resposta