Paulo Rebêlo | 18.janeiro.2012

Quando ela perguntava se iria demorar muito para nos vermos, eu não sabia o que responder. Não entendia a importância de uma data aleatória se estávamos sempre juntos mesmo estando longe. O dia sempre chegava, geralmente mais cedo do que tarde.

Quando ela perguntava o que iríamos fazer daqui a um ano, eu não sabia o que responder. Não entendia a expectativa, já que estava mais ansioso em ver se os olhos dela iriam brilhar de felicidade com a sobremesa do restaurante naquela noite.

Quando ela perguntava quando iríamos fazer aquela viagem, eu não sabia o que responder. Não entendia a urgência, já que todo ano tem férias. E havia tantas férias pela frente.

Quando ela perguntava quando iríamos juntar as trouxas no mesmo armário, eu não sabia o que responder. Não entendia como ia funcionar a logística, pois em casa não tinha nem armário. E a cama era apenas um colchonete no chão frio.

Quando ela perguntava quando poderíamos ter um cachorro grande e peludo, eu não sabia o que responder. Não entendia a pressa, pois a média de vida de um cão é de apenas 12 a 15 anos. Teríamos tempo para ver nascer e morrer pelo menos três cachorros gigantes.

Quando ela perguntava por que eu não fazia planos para o futuro, eu não sabia o que responder. Não entendia o questionamento, pois meu planejamento mais importante já estava feito: ela.

Quando ela perguntava se eu não ficava com raiva dos pitis e chiliques infantis, eu não sabia o que responder. Não entendia a motivação, mas gostava de pensar que era uma espécie de treinamento para o filho que hoje ela não queria, mas que amanhã certamente ia querer quando chegasse esse tal de futuro que só ela conseguia entender.

Quando ela perguntava por que somente ela tinha ciúmes, eu não sabia o que responder. Não entendia o motivo de precisarmos ser os dois adultos infantis em vez de apenas um.

Quando ela perguntava por que aquela sirigaita precisava me abraçar e falar que estava com saudades ali no meio da rua e na frente de todo mundo, eu não sabia o que responder. Não entendia como ela mudava de assunto quando me oferecia para ir perguntar.

Quando ela perguntava quando a gente ia conversar sobre o nosso futuro, eu não sabia o que responder. Não entendia porque deveríamos questioná-lo se, pela primeira vez depois de tantos anos, eu estava tendo um presente.

Quando ela perguntou se a gente devia se separar, continuei sem saber o que responder.

Mas entendi que não haveria mais perguntas.

__
* link original no Terra Magazine

Acompanhe os textos também pelo facebook.com/hipopocaranga

2 comments

  1. Paulo, tenho uma vaga impressão de que talvez você escreva preferencialmente para os homens, ou talvez seja só um olhar masculino sobre esse mesmo universo, mas não poderia deixar de dizer que as suas crônicas são geniais, além de muito engraçadas, enxergar o cotidiano com humor é mesmo uma arte. Parabéns pela genialidade!

  2. Veja você, os homens sempre me acusam de escrever somente para as mulheres. E agora, o que fazemos? Seu comentário me faz lembrar umas situações engraçadas que costumo passar quando trabalho com eleições. O pessoal da direita vive me acusando de ser esquerdista demais. E o pessoal da esquerda sempre acha que sou da direita… e eu em dúvida se isso tudo ainda existe mesmo.

Deixe uma resposta