A volta dos que não foram

Categories CrônicasPosted on

Paulo Rebêlo
Terra Magazine *
18.janeiro.2011

Sempre que tragédias ocorrem, como essa reprise de novela da Globo por qual passa o Rio de Janeiro com as chuvas, é comum a gente pensar nos entes queridos e em famílias inteiras que morreram.

Talvez pela ausência de religião ou de sensibilidade, ou ambos, sempre me pego pensando é nas pessoas que se foram sem ter morrido. De gente que saiu da sua vida, embora continuem vivos, mesmo sem saber como e onde.

Não precisa nem ser tiozinho careca e buchudo, mas até entre os mais jovens deve haver uma infinidade de pessoas interessantes e paixões perdidas que ficaram pelo caminho sem nos darmos conta.

Você conhece alguém (finalmente!) interessante de verdade e em pouco tempo se tornam amigos ou amantes, mas em tempo ainda mais curto cada um segue o seu caminho e, numa época quando nunca foi tão fácil se comunicar e mandar mensagem 24h por dia, a gente só sabe se ela casou ou trocou de cidade quando muda o status do Facebook.

Pelo menos eles estão vivos, será? E as pessoas e paixões que não temos notícias há anos, por onde andam? Será que nenhum deles se foi com as chuvas? Ou quem sabe se foi muito antes disso e você não ficou sabendo?

Em geral, ninguém morreu, mas é quase como se tivesse. Porque de um certo dia em diante, a probabilidade de vocês se reencontrarem é a mesma de ganhar na mega sena. É até matematicamente possível, mas você vai contar com isso?

É um conforto mental quando as pessoas somem e a gente, pelo menos, sabe onde elas foram parar, se estão felizes ou não.

Contei uma vez e conto de novo: cheguei num dos meus restaurantes preferidos da madrugada e não encontrei o garçom que me servia há tantos anos. Mas ele estava feliz, pois deixou recado dizendo ter juntado umas economias, sacado o FGTS e realizado o sonho de abrir um restaurante em Frei Miguelinho, município de 14 mil habitantes no interior de Pernambuco, de onde ele havia saído há 25 anos para tentar a vida no Recife.

Óbvio, ninguém garante que ele será feliz para sempre, embora padres (e Hollywood) insistam em continuar rogando essa praga na hora do casamento.

Mas, enquanto alguém não trouxer uma nova notícia, o meu jornalzinho mental terá em boas condições de temperatura e pressão aquele garçom de Frei Miguelinho e tantas outras pessoas que, embora distantes, nos pareçam estar bem.

São pessoas que apareceram no meio da estrada, obras do acaso, deixaram sua marca e um dia precisaram ir embora por um motivo ou outro. Mas continuam vivos não apenas de carne e osso, mas de sentimento também. E as demais que se foram e se trancaram sem aviso?

Verdade, algumas realmente deixam o aviso de “não me procure nunca mais” ou “risque meu nome da sua agenda”. Pensando bem, hoje ninguém usa mais agenda. Elas dizem “vou lhe bloquear no MSN”.

Num passe de mágica, é como se nada tivesse acontecido.

A gente tenta respeitar, mas… veja bem, meu bem. Às vezes temos um relacionamento de dois, cinco, dez anos, mesmo que seja uma amizade colorida ou algo sem compromissos, ninguém passa tanto tempo saindo (ok, ou transando) com outra pessoa sem que haja um mínimo de coesão sentimental.

Queremos saber se você está bem, mesmo que você não queira saber se nós também estamos. Não importa se você não se importa mais.

Não adianta dizer que não temos o direito, porque não há nada escrito sobre isso na Constituição. Nem na Bíblia. Nem naqueles cartões de aniversário que você me deu de presente, nem nas cartas que lhe enviei, nem nos guardanapos daquele bar onde a gente se encontrava às quartas-feiras e nem naquele disquete velho de 5 ¼ que você esqueceu de propósito dentro de um livro meu.

Mesmo que não signifique que vamos voltar a ser amantes, que vamos casar, que vamos ser amigos novamente, que vamos voltar no tempo para consertar o que estava errado, na verdade não precisa significar nada.

Só queremos ter a sensação ou a hipótese presumida de que uma pessoa que significou tanto, durante um tempo em nossa vida, e talvez signifique outro tanto ainda hoje, não esteja enterrada sem a gente saber, não esteja apanhando do marido, não esteja com câncer terminal, não esteja passando necessidades, não esteja infeliz ou esteja feliz na base do Rivotril.

Então, se depois de um tempo, meses ou anos, acaba essa amizade ou relação e todo mundo simplesmente some do nosso Google Maps, por mais mágoa ou raiva que possa existir, é sempre com pesar que fico pensando se ela encontrou o príncipe encantado dela, se amadureceu, se está feliz no trabalho, se está feliz consigo mesmo, se está saindo com as amigas ou se está apenas contando os dias esperando o sol nascer.

Evidente, se oportunidade houvesse, iríamos querer nos reencontrar, abraçar, quem sabe até sumir por um fim de semana inteiro. E depois iríamos nos perguntar: por que não trocamos sequer um e-mail? Carta? Pombo correio? Sinal de fumaça? Que tal daqui por diante a gente fazer isso?

Geralmente fica tudo por isso mesmo porque seria muito duro ver que ela está feliz do outro lado, com outra pessoa.

Mas seria igualmente muito duro ver que está infeliz.

Porque às vezes alguém está infeliz por um punhado de responsabilidade sua, mesmo quando você não tem culpa de não conseguir amá-la como ela (ou você) gostaria.

É quando a ignorância de outrora torna-se tão mais cômoda e a gente prefere não perguntar. E deixar tudo como está. Ausente, mas sempre presente.

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