Paulo Rebêlo
Terra Magazine | 21-dez-2010

O que eu mais gosto do Natal é que eu detesto Natal. Logo, não preciso inventar desculpa ou matar algum parente pela terceira vez no mesmo ano para não ir às confraternizações onde há o maior número de inimigos por cadeira quadrada.

Fujo de eventos assim o ano inteiro. Dividir uma cerveja é um ato sagrado de contrição espiritual e minha religião não permite participar desse ritual com lobos que viram cordeiros só porque é Natal. Me dá uma ressaca dos infernos.

Veja você. Aqui na ruazinha onde morei por cinco anos alternados, no centro deste Recife limpo e cheiroso, há um grupo de cheira-colas que dormem por lá desde sempre. Às vezes aumenta, às vezes diminui, mas sempreteve.

Fazem parte da paisagem e até me chamam pelo nome, pois geralmente o único bêbado sem noção que tem coragem de passar por ali de madrugada sou eu, confiante no meu crachá subjetivo de “mantenha distância, sou cidadão nativo, bêbado local”.

Até quando não sei, mas até hoje funciona. Embora desconfie que o pão com mortadela e a garapa de uva que costumo pegar no caminho de volta e deixar pela ruazinha sejam, de fato, minha moeda de isenção.

Há poucos dias, regresso ao lar de madrugada, tropeçando como de costume, e vejo cinco pessoas distribuindo sopas e presentinhos, crentes de que são a encarnação do papai noel 2.0 com banda larga da GVT.

Cenas assim a gente vê durante toda a semana de Natal. Os jornais não facilitam, todo dia é a primeira página ou reportagem incentivando as pessoas a ajudar o próximo, histórias emocionantes, casos fantásticos e, lógico, todo mundo fazendo caixinha de natal nas confraternizações para “ajudar o próximo”.

O único problema é que no dia 25 de dezembro o Natal já passou e as primeiras páginas voltam a ser como era. E os cordeirinhos voltam a ser lobos.

Sobre aqueles cinco papai noel 2.0 aqui no meu bucólico bairro, fico muito curioso em perguntar: onde eles estavam durante os outros 360 dias do ano?

Ninguém nunca viu, viu doutor.

Depois da sopa e do pãozinho, cada um entra em seu Tucson ou Hilux 4×4 e vai tomar água de coco na praia de Boa Viagem, reclamando do absurdo que foi o aumento de 1 real no preço do coco gelado agora em dezembro.

Minhas senhoritas, vocês querem ajudar alguém de verdade? O melhor presente de Natal é você sair com aquele pentelho que passa o ano inteiro azucrinando seu juízo para tomar uma cerveja depois do expediente.

Coitado, ele passa 365 dias chamando você para sair, se insinuando todo, mas você não dá a menor bola. Ele pode ser fraco de feição, tudo bem, talvez não seja um gênio da raça e nem faça você rir, mas ele lhe deseja tanto e persiste tanto que talvez seja a hora de pensar em dar um presente de Natal. Dê você. Se dê.

Calcule quanta felicidade esse mundo de mulheres solteiras (ou não) fariam se o presente de Natal delas fosse uma cerveja com final feliz.

Quem ganhar o presente começaria o ano com pé esquerdo, quiçá passaria a ajudar mais as pessoas que dormem na rua a partir do próximo ano sem esperar a primeira página do jornal avisar que é tempo de ajudar o próximo.

E o melhor desta trepadeira natalina é que ele nunca irá perguntar onde você estava o resto do ano. Porque é Natal e no Natal a gente fica assim, bondoso, cheio de amor para dar até o réveillon.

Vai que num desses presentinhos você até encontra uma criatura um pouco menos burra e um pouco menos fraca de feição para passar o réveillon?

Ele pode estar aí do seu lado, talvez na sua lista de contatos do MSN ou do Facebook, sempre deixando um recadinho maroto sem nunca ganhar sequer uma resposta no mural.

Não custa tentar e, melhor de tudo, nem ressaca moral você vai ter. No dia seguinte, basta se olhar no espelho e saber que fez alguém feliz.

Acompanhe os textos também pelo facebook.com/hipopocaranga