Pax Spiritus

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Acho que nunca vi um filme da Lindsay Lohan e não escuto a menor graça na Amy Winehouse. Mas tenho simpatia pelas duas, só por causa da mobilização mundial em relação ao que elas bebem da vida. Da sua bisavó à netinha de cinco anos, sempre vão condenar a coitada da Winehouse por não ter limites.

Na minha religião, o céu é o limite. E as pessoas deixam as outras pessoas beberem em paz.

Se você quer fazer sua Despedida em Las Vegas bebendo até morrer, vá em frente e não prejudique ninguém. Eu até pago as primeiras rodadas, só para manter distante a família de olho na herança, os amigos que nunca estavam lá quando você realmente precisava e as revistas de fofoca que todo mundo diz que não lê, mas decora página a página.

É uma paranóia parecida com aquele pessoal que às 10h da manhã olha para a garrafa de uísque e não tem coragem de descer uma dose porque acha feio ou socialmente errado beber pela manhã.

Tomo uma cerveja de trigo quando acordo às 11h ou um suco de laranja com cinco dias de atraso? Qual dos dois tem mais vitaminas? E no domingo, esquento o resto da feijoada do sábado e estou alimentado até de noite. Somos anormais por isso?

Mesmo que tenham acordado às 4h da madrugada para correr na praia e agora estejam sedentos por uma cerveja gelada, tem gente que fica contando os minutos até a hora do almoço. Um princípio que aprenderam sabe-se lá onde. Talvez em novela. Na igreja é que não foi, porque tem missa logo cedo pela manhã e o sangue do cristo rei está sempre por ali disfarçado de vinho.

Tem gente que fica sentada olhando para o relógio, com a garrafa logo ali ao lado, olhando para o relógio e para a garrafa, para a garrafa e para o relógio, cronometrando segundos e minutos até dar meio-dia e tudo se tornar socialmente aceitável.

E onde fica o horário de verão na história? E se entrar água no relógio e ele parar? Você vai ficar sem beber, não vai dar meio-dia nunca. E se a gente quiser almoçar às 10h, não pode beber às 11h? E a cerveja antes do almoço do Chico Science? E se eu virar a noite trabalhando, não posso beber às 7h uma dose do meu Jack de estimação antes de dormir?

Por essas e outras, em festas familiares ou da grã-finagem sempre levo minhas próprias garrafinhas de uísque no bolso. Porque sempre tem um palhaço para dizer que o champanhe de 100 reais só será aberto à meia-noite. Ou a cerveja foi comprada de última hora e não gelou ainda. Ou compram Bavaria e Kaiser para ninguém beber mesmo. Melhor beber Fanta Uva e Guaraná Jesus.

E sempre tem o uísque da coleção do tatatataravô da matriarca que ninguém pode abrir. Qual é o sentido de colecionar garrafas de bebida se elas não estão vazias? Conheço um mói de gente que faz isso e achei por bem me afastar dessas pessoas. Sempre fico a imaginar alguém (eu) quebrando a garrafa na cabeça deles e riscando um fósforo no chão.

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