Antes do casamento

Categories CrônicasPosted on

Paulo Rebêlo
21.set.2010
Terra Magazine
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A maior crueldade que uma mulher impõe a um homem é mostrar que não se recupera o que se deixou escapar.

Marca o início de uma longa jornada de lembranças enviesadas e memórias chamuscadas sobre uma vida que poderia ter sido e não foi.

Antigamente, a gente recebia o convite do casamento pelos Correios. Em geral, endereçado aos pais. Ficava sabendo pelos amigos em comum. Lia em letras miúdas no jornal. Com sorte, saberíamos anos depois. Com azar, o filho dela seria colega de classe da sua filha.

Hoje, tem gente mais preocupada com o status no Facebook do que com a benção do padre e o carimbo do cartório. Em vez de saber anos depois, você descobre anos antes. Que ela já se foi. Que ela planeja ir embora. Que ela se vai. Que não pretende voltar.

Os amigos em comum talvez nem existam mais. Tornaram-se desnecessários. Você a lê indo embora aos poucos. Até o dia em que ela se casa e você percebe que ela nunca se foi, você que ficou parado enquanto os anos passavam para ela.

E sua única esperança recai em aderir às crendices tolas de vidas passadas ou debruçar-se sobre tolices ainda maiores de Garcia Marquez ao reler pela onézima vez o reencontro de Fermina Daza e Florentino Ariza.

Com um pedaço de pão velho em frente à televisão quebrada que não funciona há quinze anos, o tempo nem mais parece tão distante assim.

E a gente fica sem entender direito se a tristeza é pelo fato consumado ou por não termos autopiedade sobre a inércia que nos consumiu.

Crentes ou incrédulos, resta sempre a única certeza a imperar no peito dos saudosistas: a certeza do reencontro inesperado, inóspito e decerto intolerante que chegará mais dia ou menos dia.

E se você não teve tempo ou ciência para entristecer-se antes do casamento, terá anos a frente para pensar como será a casualidade de, quinze anos depois de hoje, aquele rosto de menina ter-se desfeito em rugas, a pele macia transformada em flancos e o sorriso sapeca cedido espaço uma testa franzida pela dívida impagável de uma vida monótona e previsível. Mas socialmente feliz, quem sabe?

É o tempo que vai levar para esquecer os diálogos que imaginou ter e as promessas que levou a fazer.

Porque todo o resto ficará incólume. Até que Alzheimer nos carregue.

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