A batata da verdade

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Paulo Rebêlo
Terra Magazine – 07-dez-2010

Pelo tamanho e diâmetro da canela, a gente sabe com precisão quase científica se as pernas de uma mulher são bonitas. Pela dobrinha do braço, é possível identificar a consistência das costas e do tronco inteiro.

Pelos dedos da mão, a gente sempre acerta a margem da idade, mesmo com cirurgia plástica. E acredite: apenas ao observar os ombros de uma mulher, é possível saber se ela tem o bumbum bonito. Independente da roupa.

É uma arte. Cada vez mais esquecida, pois parece que temos cada vez menos tempo para admirar de verdade as pessoas.

Dos dedos do pé à raíz dos cabelos. Analisar cada centímetro, sentir cada cheiro e identificar cada ângulo de olhar que sempre vai expressar um sentimento diferente.

Talvez porque hoje ninguém precise observar mais nada diante das microssaias, dos decotes até o umbigo e dos biquinis invisíveis.

A sutileza das curvas escafedeu-se.

Mas ainda resta outra frente nada sutil. Esqueça a batata da perna e observe a batata que ela come durante as refeições.

Uma mulher fresca, por exemplo, nunca vai sentar com você no mercado público para comer rabada, mão de vaca, patinho com feijão.

As inseguras nunca experimentaram, sequer uma vez na vida, mas já têm toda a certeza do mundo que não vão gostar da costelinha de porco com limão. As donzelas da zona sul quiçá sabem o que é chambaril, mas não querem provar porque o prato é… feio. Simplesmesnte assim, é feio.

Não precisa gostar. Só precisa provar. É para isso (também) que a gente temcabelos brancos e uma pancinha saliente: para apresentar um maravilhoso mundo novo e já experimentado a vocês.

Talvez ela fique com peso na consciência. E resolva lhe impressionar. Sábado, vai lhe convidar para uma feijoada.

Dê uma chance, mas pode anotar: é batata. Você vai terminar parando nessas feijoadas higiênicas, última moda da gastronomia popular voltada aos novos ricos da cidade grande.

É a feijoada servida em estilo buffet, com todos os ingredientes higienicamente organizados em prateleiras individuais. Podem chamar isso de qualquer coisa, menos de feijoada. Pode ser uma delícia, mas é um buffet de feijão para emergentes.

No prato da criatura, fique atento, pois também é batata: ela vai deixar de fora o pé de porco, joelho, torresmo e todas as iguarias sui generis de uma feijoada de verdade.

Possivelmente, no prato alheio você encontra apenas o feijão (com pouco caldo, porque farinha seria palafitagem demais para ela) e rodelas de paio ou linguíça. Freud explica?

Agora, meu nobre cidadão, pergunte a si mesmo o seguinte:

Se um dia você quiser pegar a estrada sem rumo na vida, acampar na montanha, trabalhar no Alasca ou na Sibéria, passar um fim de semana na praia sem energia elétrica e água encanada, morar dentro de um barco… será que esta cidadã irá lhe acompanhar?

Sem a trituradeira de frutas Walita, sem a cafeteira elétrica, sem o colchão ortopédico, sem o travesseiro da Nasa, sem o chá verde industrializado, sem a pipoca sabor “manteiga light” de microondas…?

Não está satisfeito? Faça o teste da batata universal. Carregue sua donzela para o rodízio mais próximo.

Veja bem, ninguém é obrigado a comer demais só porque é rodízio ou porque é caro. Pelo contrário, admiro de verdade as mulheres que comem pouco – acho ótimo, sempre sobra mais para mim. E também porque, na condição de ateu, sou temente a deus que deixar comida no prato é pecado.

Mas quando o garçom passa com o espeto da coxa de frango, do galeto, e ela pede um pedaço… o que você vai fazer?

Comer coxa de frango em rodízio é o marco regulatório que separa os homens das crianças. Toda pessoa que não foi criada numa bolha sabe disso.

E se você pede uma picanha e ela pergunta na churrascaria se tem sushi, você ainda vai duvidar que é batata?

E olha que nem tenho mais espaço para falar dessa tal de caipirosca nevada.

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