Anormais

A ciência tem muito a aprender com o carnaval brasileiro.

Durante os dias de folia, a sociedade se divide (por conta própria) em pessoas normais que vão brincar carnaval ou aproveitar o feriadão viajando; e as pessoas anormais que ficam em casa e trabalham sem ninguém pedir ou querem fugir da esbórnia momesca.

Poderia ser simples assim, mas não é.

Fulano passa o ano inteiro sedentário, não sobe sequer um andar de escada quando falta luz no edifício (melhor esperar fumando na portaria) e, durante o carnaval, o mesmo ser humano dorme apenas quatro horas por dia e passa cinco dias subindo e descendo ladeira, pulando atrás de trio-elétrico por oito horas seguidas, não faz nenhuma refeição decente e vive apenas comendo batata frita e coxinha de aquário.

No dia seguinte a criatura está inteirinha da silva, zero bala, já acorda fantasiada, gritando e pulando igual ao boneco Chucky do Brinquedo Assassino, aparentemente entalado de pilhas alcalinas e metanol nas entranhas.

Como isso pode ser normal?

A televisão já produziu o Hulk – era um cientista antes do acidente no laboratório – mas até hoje a nossa ciência não descobriu de onde essas pessoas normais, que brincam carnaval, tiram tanta energia do nada. Agora que a festa finalmente passou, é como se nada tivesse acontecido. Nem a gripe tiazinha eles pegam, pelo amor do Cristo Rei!

E eu aqui digitando gripado, com febre e dor de garganta, espremido entre a cadeira mui confortável do avião.

Durante uns anos, trabalhei consertando computadores ao lado de um cidadão que tinha uma barriga maior do que a minha. Ele sequer atravessava a rua de tanta preguiça, a gente tinha de ir até a barraca de cachorro-quente e trazer um para ele na hora do almoço.

Via de regra, não respeito gente mais jovem que tenha uma pança maior do que a minha. Porque só eu sei o trabalho que dá para conservá-la assim durante anos a fio. Mas esse cidadão balofo eu respeitava em nome da ciência.

Uma vez por mês, íamos bater uma pelada no clube, mas ninguém aguentava correr atrás da pelota por mais de meia hora. Só ele.

O pançudo preguiçoso corria mais do que todos nós, driblava, fazia gols e era o único que não cansava. Suava igual a um leitão pronto para abate, mas aparentemente o suor era coca-cola para ele.

A gente se recolhia para descansar e o capeta pançudo era escalado para jogar no time dos outros. Horas depois, todos iam embora. Inclusive, os times dos outros. Nós ficávamos bebendo no barzinho do clube e o pançudo parecia uma versão autista do Robinho, ficava fazendo tabela na parede, sozinho, com a bola.

Ele reclamava da nossa falta de companheirismo, olhava para a gente e dizia que não era normal nós cansarmos tão rápido só por causa de umas horinhas de pelada.

Como assim não era normal, Bial?

Anormal era ele.

Do lado de cá, a gente se achava normal por usar o argumento da pelada do sábado apenas como desculpa para passar o dia todo fora de casa, longe da esposa que sempre quer fazer feira no sábado e das crianças que querem ir ao shopping. Era só isso, ninguém queria jogar mesmo bola, mas o pançudo era tão anormal que nos fazia parecer anormais com a língua para fora, cansados e exaustos.

Carnaval acabou, estaremos nós de volta à normalidade?

Ao menos assim eu achava. Aqui em Pernambuco, de onde me despedi novamente ontem, nas ruas não se fala em outra coisa além do Carnaval 2011.

A esta altura do campeonato, imaginei que o assunto do momento fosse o feriadão da Semana Santa ou a Copa do Mundo, mas um grupo de pessoas muito normais no governo municipal quer oficializar o período de carnaval do próximo ano para duas semanas em vez de apenas uma semana inteira.

Ou seja, em 2011 as pessoas normais talvez possam passar duas semanas inteiras, com o respaldo do governo e das instituições estabelecidas, subindo e descendo ladeira e cantando a poesia axé que nossas crianças decoram e cantam lindamente no chuveiro.

Se com sete dias esse pessoal desafia todas as leis da física e da química, a decretação de um carnaval oficial com 15 dias só vem a provar que o LHC está instalado no lugar errado. Deveria vir para cá, talvez em Alagoas para não gerar ciúme, no meio do caminho entre a Bahia e Pernambuco.

Volto a Brasília, um lugar tipo assim de pessoas extremamente normais, honestas e com zelo pelo dinheiro público, vou na padaria comprar meu misto frio com suco de laranja azedo e, de fato, ninguém fala sobre carnaval de quinze dias. O assunto do momento agora são os dias que vamos poder matar o trabalho nos jogos do Brasil na Copa e uma tristeza profunda porque só vai durar um mês.

Peço calma a esse pessoal, porque em outubro tem eleição e quem sabe não tiramos a sorte grande e somos escolhidos para ser mesário. Assim se consegue dois ou três dias de folga oficializada no trabalho, você pode emendar com um final de semana, pegar uma gripe na segunda-feira, bater o carro na terça, matar sua terceira avó na quarta e pegar uma conjuntivite na quinta.

Sexta ninguém trabalha mesmo.

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* link no Terra Magazine

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