Seis horas que valem uma vida

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Jovens do Sertão do Pajeú fazem visita cultural ao Recife e descobrem que o mundo real pode ser mais vibrante que as páginas dos livros didáticos

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco
26.janeiro.2009

Se você tivesse apenas uma tarde para conhecer o Recife, ciente de que talvez não haja outra oportunidade de voltar, para onde você iria?

E se você nunca viu o mar, nunca colocou os pés na areia da praia em toda sua vida, onde valeria a pena passar a única tarde disponível?

Para 80 alunos do Centro da Juventude (CJ) de Afogados da Ingazeira, no Sertão do Pajeú a 380 quilômetros do Recife, a parada foi certeira: o Instituto Ricardo Brennand, no bairro da Várzea.

Para esses jovens entre 16 e 24 anos – a maioria imersa em quadros de vulnerabilidade social – a viagem de horas cronometradas transformou-se em uma grande experiência a qual dificilmente vão esquecer. Surpresos com a estrutura impecável e com a simpatia dos funcionários do Instituto Ricardo Brennand, não demorou para todos relevarem o cansaço das seis horas de viagem até o Recife. Em pouco tempo, todos voltariam para o mesmo ônibus, em direção a Afogados, à noite. Cada minuto tinha de serexplorado.

Aos 17 anos, o único lugar fora de Afogados que Rosemere de Brito Leite conhece é Brasília. A passeio? De forma alguma. Com apoio de uma irmã na Capital Federal, entre 2005 e 2006, a jovem resolveu tentar arrumar emprego como atendente de livraria, mandando dinheiro para a família no sítio Jiquiri. A saudade falou mais alto e ela voltou para Afogados, agora fazendo parte do CJ para terminar os estudos. Na pinacoteca do Instituto, os olhos não escondiam a surpresa ao ver, de perto, tanta coisa que só conhecia dos livros didáticos. “As pessoas falam do Recife como se fosse apenas praia, eu nunca imaginei que existisse um lugar assim”, admitiu, tentando vincular quadros e esculturas às páginas dos livros.

A proposta de levar os adolescentes para o Instituto partiu da pedagoga Juliana Ferreira. Junto com a psicóloga Dayse Liberal e a assistente social Helaine Manoela, elas são as três técnicas por trás do CJ em Afogados, coordenado por Adriana Nascimento e inaugurado em julho do ano passado e mantido com recursos do governo estadual e uma contrapartida do município. A idéia foi simples. Natural de Afogados, Juliana estudou na UFPE e costumava levar alunos das escolas recifenses para visitar o Instituto. “A repercussão sempre foi muito boa, então pensei: por que não fazer o mesmo com o pessoal do CJ?”, explica.

O sucesso da jornada superou as expectativas das três técnicas. Responsável por coordenar o grupo na viagem ao Recife, a psicóloga Dayse Liberal era só alegria, tamanha a satisfação dos seus pupilos. “A vulnerabilidade social em Afogados é diferente da encontrada no Recife. Lá não temos tantos problemas com drogas e crimes. Por outro lado, tem fome, alcoolismo, graves conflitos familiares e sobretudo a falta de perspectiva de futuro”, lamentava, ao mesmo tempo em que tentava negociar de última hora, com a empresa responsável pelos dois ônibus, uma pequena “contravenção” para passar na Avenida Boa Viagem e mostrar a praia aos alunos. “Não está previsto na programação, mas é uma maldade…”, justificava.

Ao largo de tudo, um turista ilustre. Sempre calado, Domício Francisco da Silva ajuda a observar se todos os alunos estão presentes. Assistente de serviços gerais no CJ, aos 60 anos ele só esteve no Recife uma vez. “Vim quase morto, com tétano, direto para o [hospital] Oswaldo Cruz. Passei um mês internado, ninguém achou que eu fosse sobreviver. Fiquei bom e voltei para Afogados, mas não conheço o Recife”, contava, sem idéia da surpresa a poucas horas dali.

Abrindo horizontes com a imensidão do mar

Kelven Feitosa carrega o aprendizado do mundo. De jeito meio aéreo, como quem não quer nada com a vida – e dizendo que já conhece o Recife muito bem – não demora até abrir a guarda quando vê as esculturas de cera no Instituto Ricardo Brennand. “Foi a parte que mais gostei, nunca tinha visto algo assim”, humildemente admite, com a experiência de já ter rodado várias regiões do Brasil, sozinho, escondido em ônibus de linha ou de carona com desconhecidos, fugindo da família.

Aos 17 anos, Kelven é um dos principais exemplos do CJ sobre a possibilidade de recuperação social e, também, de como a cultura pode ampliar os horizontes de quem se encontra vulnerável. “A gente aprende muito no CJ, mas o mundo é a verdadeira escola…”, ensina, ao mostrar as letras de rap que compõe nas horas vagas. Nas músicas, fala do abandono da família, da mãe, das primeiras paixões pela “mina da escola”.

As portas do Instituto Ricardo Brennand estão prestes a se fechar e a psicóloga Dayse Liberal ainda não tem certeza sobre o passeiona praia. Para os alunos, a próxima parada será o CJ de Santo Amaro e o do Alto do Pascoal, para conhecer a estrutura e fazer um lanche. Dentro do ônibus, a surpresa: depois do Alto do Pascoal, o motorista topou parar “por alguns instantes” na praia de Boa Viagem.

A alegria é geral, embora Dayse precise se contentar com a orientação “superior” de manter os alunos apenas no calçadão. Seu Domício Francisco não ouviu o aviso, estava tirando uma soneca. Já é de noite e, meio sem saber onde está, é acordado pela euforia dos jovens diante daquele mundo de água. É o último a sair do ônibus, caminha devagar, parece receoso em ir até a areia. “Isto aqui de manhã deve ter muita gente, né? E é verdade que as mulheres usam biquini na praia?”, pergunta, altamente interessado.

Os estudantes vibram e Dayse não resiste: “tá bom, corram até a areia, mas só podem molhar os pés, porque vamos voltar daqui para Afogados”, sentencia, sem esconder igual felicidade por aquela oportunidade, única, para quase todos aqueles jovens. Muita correria e pulinhos de onda depois, a festa chega ao fim. Já passa das 19h e os dois ônibus aguardam para dar início à viagem de regresso.

Com os pés molhados pelo mar, Luis Gonzaga não esconde a satisfação, apesar de toda a timidez de quem demorou bastante a se integrar com os demais, vindo de uma comunidade indígena em Afogados. Assim como ele, a maioria realizou um sonho antigo, comum a tantos outros jovens sem perspectiva no interior. Na quarta-feira (21) da semana passada, já em Afogados, eles mandam o recado: não conseguiram dormir, tamanha a contentação e as histórias para contar aos colegas. Foram seis horas de uma tarde no Recife.

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