Miles Davis // 50 anos de Kind of Blue

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Relíquia para os amantes do jazz e de Miles Davis chega ao país com oito meses de atraso

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco
19.abril.2009

Não é de hoje que artistas se tornam ícones de uma geração ou de um estilo musical.

Curioso é quando um simples álbum com somente cinco músicas, gravado em apenas duas sessões, sem produção e sem pretensão de absolutamente nada, transcende o próprio artista e sua carreira. Assim é Kind of blue, o mais conhecido (e vendido) disco de Miles Davis. Com oito meses de atraso, finalmente chega ao Brasil a edição especial de 50 anos de lançamento. Uma relíquia para poucos.

Lançado em setembro do ano passado nos Estados Unidos, a caixa comemorativa é um verdadeiro luxo. Além de dois CDs com diferentes versões das cinco músicas originais – So what, Freddie Freeloader, Blue in green, All blues e Flamenco sketches – e gravações até hoje inéditas, a caixa traz um LP de 180 gramas (isso mesmo, disco de vinil), um pôster gigante, um DVD para colecionadores contendo cenas de making-off e a biografia de Miles, um livreto com textos escritos por especialistas e inúmeras fotos da segunda sessão de gravação do álbum histórico.

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Infelizmente, no Brasil, a Sony resolveu nivelar o mercado por baixo. A caixa nacional vem apenas com os dois CDs, o DVD e o livro com fotos. O preço sugerido pela gravadora é de R$ 79,90 e a caixa pode ser encontrada nas principais lojas, a partir de amanhã. Para os fãs e colecionadores, o site Submarino vende a caixa importada, com todos os extras, pela bagatela de R$ 550.

Entre amantes do jazz e pesquisadores, Kind of blue é uma unanimidade duplamente curiosa. Embora seja tratado como obra-prima, é o disco mais presenteado para quem não conhece ou nunca ouviu jazz. Serve como excelente introdução ao mundo de Miles Davis. Geralmente, quem escuta não demora para procurar outros artistas parecidos e ex-companheiros de banda de Miles Davis, como John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans e Paul Chambers.

Kind of blue também é um fenômeno inexplicável até mesmo para quem participou das gravações originais em 1959. Jimmy Cobb, 79, o último integrante ainda vivo, costuma dizer em entrevistas que o disco “parece ter sido gravado no céu, de tão bom e único”. Cobb deve vir ao Brasil em maio para tocar no Festival Bridgestone Music, em São Paulo. Embora tenha tocado com outros ícones como Dizzy Gillespie, Gil Evans e Billie Holiday, é a participação como baterista em Kind of blue que o fez (mais) famoso.

Não é para menos. São três milhões de cópias vendidas de Kind of blue somente nos Estados Unidos, mas o número contabiliza apenas as vendas de 1991 até hoje. Mais do que suficiente para transformar o álbum em recorde máximo para qualquer disco de jazz já produzido.

Nascido Miles Dewey Davis III, em Illinois, no dia 25 de maio de 1926, Miles Davis já foi chamado de muita coisa. De deus e alienígena, mas nunca de futurista. O parceiro Jimmy Cobb, em entrevista a um jornal paulista, foi direto ao ponto: “Se Miles pudesse saber que Kind of blue se tornaria tão famoso, teria exigido ao menos uma ou duas Ferraris como adiantamento para gravá-lo”.

Morto em 1991, Miles Davis sempre foi uma figura excêntrica e de poucas palavras. Sua personalidade quase folclórica é um motivo a mais para conferir os CDs com gravações inéditas da caixa comemorativa. Depois das cinco faixas originais, entram as versões alternativas e outras de ensaio, com rápidos diálogos entre a banda e recomeços, quando Miles acha que o ritmo está “rápido demais” ou “muito lento”.

Para quem pretende se iniciar em jazz, é o presente perfeito desde a primeira faixa, So what, reconhecida de longe por qualquer fã. Como bem escreveu Ashley Kahn em um livro exclusivo sobre o disco, é a música que “tem o poder de silenciar tudo”.

Outras opções no mercado

O pesquisador e baixista da Banda Ciné, Bruno Vitorino, é um dos insatisfeitos com o tratamento da Sony no Brasil. Além de atrasar em oito meses o lançamento, a gravadora retirou diversos extras da caixa original. Vitorino resolveu encomendar a caixa importada e não se arrepende. “As gravadoras não manifestam interesse em lançar seus títulos no mercado brasileiro. Elas não entendem que, apesar da cena jazzística nacional não ter tanta força, há um público fiel que compra regularmente discos de jazz. Para esse público, há toda uma concepção do disco como objeto de arte, para colecionar mesmo”, resume Vitorino.

O comportamento do mercado não é de agora. Nos anos 90, uma outra edição comemorativa de Kind of blue foi lançada nos Estados Unidos – um CD banhado a ouro – que sequer foi divulgado no Brasil. A caixa dos 50 anos foi prometida pela Sony para o final de janeiro deste ano, sendo adiada mês a mês. Chega agora em abril, sem divulgação prévia e sem informações adicionais sobre disponibilidade e logística.

Para quem deseja se iniciar em jazz e não quer gastar a pequena fortuna, há outras opções. A edição nacional de Kind of blue em CD, com as cinco faixas clássicas, pode ser encontrada por apenas R$ 12,90 na internet pelo Submarino. Em lojas, a faixa de preço é mais ou menos igual e a edição importada sai por R$ 70. Há apenas duas diferenças perceptíveis entre ambas. Além de acabamento melhor, o importado tem uma faixa extra: uma versão alternativa da última música, Flamenco sketches.

Na literatura, a dica fica para o livro Kind of blue: A história da obra-prima de Miles Davis, do produtor e jornalista americano Ashley Kahn. Ele defende a tese universal pela qual o álbum se tornou famoso: é simples e acessível a qualquer um, ao mesmo tempo em que é magistral para quem já conhece tudo de jazz.

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