Metralhadora literária

Bíblia da geração beat, “On the road” ganha tradução sem cortes para o português

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco
02.janeiro.2008

Dean Moriarty é, na verdade, Neal Cassady. Já Chad King é Allen Ginsberg. Se estes nomes lhe são conhecidos, então você é um sério candidato a correr até a livraria mais próxima. E se você não faz idéia de quem eles sejam, a melhor hora para conhecer é agora. Pela primeira vez no Brasil, a edição original e sem cortes de On the road (Pé na estrada) chega às prateleiras do país.

Obra-prima de Jack Kerouac, o relato sobre suas andanças mochileiras pelos Estados Unidos e pelo México (de carro, trem, navio, a pé, carona…) foi escrito em 1951 e publicado somente em 1957, com vários cortes e nomes trocados a pedido dos editores. Jack Kerouac é o ícone por trás da chamada geração beat, com estilo até hoje inconfundível e uma influência sem fronteiras.

Nas 360 páginas de On the road – O Manuscrito Original, o leitor descobre que a viagem dos jovens Sal Paradise e Dean Moriarty é ainda mais alucinante que a descrita pelas diversas versões lançadas anteriormente. E comprova, com todas as letras, a tese defendida pelos fãs: Sal Paradise é o próprio Jack Kerouac. E Dean Moriarty é seu amigo Neal Cassady. Entre as outras descobertas do manuscrito original, há detalhes mais erotizados na narração de Kerouac, inclusive, a conturbada relação homossexual entre Ginsberg e Cassady – antes omitida de propósito.

Afinal, estamos falando de pessoas reais e bem conhecidas nos Estados Unidos dos anos 60. Kerouac nadou contra a lavagem cerebral do “sonho americano”, ao revelar toda a contracultura marginal de uma América desconhecida dos americanos – sentados no sofá a vida inteira, quando um vasto mundo novo e inexplorado existia “lá fora”.

Não é à toa que On the road ainda é considerada a bíblia dos mochileiros. O livro foi escrito em apenas três semanas num rolo com 35 metros de papel. A compulsão verborrágica de Kerouac se transforma em metralhadora literária e é visível pela total falta de pontuação e suas milhares de vírgulas fora de ordem, como se tudo fosse uma longaconversa apressada enquanto ele cruza a América de uma ponta a outra.

A narrativa ainda inclui figuras famosas como William Burroughs, cujo nome nas edições passadas era Old Bull Lee. Foi o próprio Burroughs, aliás, que apresentou Kerouac a escritores influentes como Kafka, Céline, Spengler e Wilhelm Reich. Os dois e Allen Ginsberg se conheceram na Universidade de Columbia (Kerouac era atleta-bolsista) e, em 1947, Kerouac pega a estrada com uma mochila nas costas. Conhece, conversa e divide experiências com bêbados, drogados, vagabundos, caroneiros, enfim, todas as pessoas que jogaram no lixo o tal do sonho americano.

A edição brasileira acompanha bem-vindos adicionais à obra de Kerouac. Há ensaios de Howard Cunnel e de três especialistas (Joshua Kupetz, George Mouratidis e Penny Vlagopoulos) sobre a geração beat. Cunnel, por sua vez, é considerado o principal estudioso da obra de Kerouac e foi o responsável pela edição norteamericana do manuscrito original.

Pelos ensaios, fica-se sabendo como On the road foi escrito nos anos 60 de seu apartamento em Manhattan (Nova Iorque) sob fortes efeitos de estimulantes químicos (benzedrina), além de um lado menos conhecido de Jack Kerouac: o de pesquisador de religiões, quase tão alucinado por conhecimento quanto por escrever suas experiências.

Kerouac mantinha o hábito de escrever compulsivamente, sempre com um bloco de notas entre os bolsos. Seu primeiro livro publicado – The town and the city – saiu em 1950 e recebeu boas críticas, embora tenha sido cortado em até 400 páginas pelos editores da época. Nascido em Lowell, Massachusetts (EUA) em 1922, Kerouac faleceu na Flórida em 1969. É possível encontrar edições em português de outras obras suas, como Os Subterrâneos, Diários de Jack Kerouac, Tristessa, Geração beat, Viajante solitário, Os Vagabundos iluminados e O livro dos sonhos, todas pela L&PM.

Serviço
On The road – O Manuscrito original de Jack Kerouac, com tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito
Editora: L&PM
Preço: R$ 59

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