Manifesto ninfetas assassinas

Compartilhar

Paulo Rebêlo | fevereiro.2009

As mulheres não entendem a mania de homem largar tudo por uma ninfeta. Que fique registrado: a gente também não.

Nem sempre largamos uma pela outra e quase sempre voltamos. Dois peitinhos apontados para o céu até chamam a atenção, mas futilidades o vento leva rápido. Ninguém deixa ninguém por causa de duas arrobas a mais na balança ou dois arrotos a menos na hora do almoço.

Pensam que é por causa dos efeitos da lei da gravidade nas mulheres. Ou para reafirmar nossa masculinidade. Não necessariamente. Neste prisma, aliás, é conveniente dizer que as ninfetas costumam falar demais e fazer de menos. Uma coisa meio ‘beleza americana’.

Há ninfetas burrinhas, ninfetas canhotas, ninfetas gatorade e as temidas ninfetas assassinas.

As burrinhas são mais frequentes, mas terminam sendo as mais inteligentes porque entendem logo o escambo e convivem bem com a idéia. É uma relação de troca, cada um dá o que tem de melhor. Literalmente. No nosso caso, além das contas pagas, oferecemos um pouco de aprendizado de vida e uns poucos conselhos profissionais que elas adoram falar para as colegas do estágio. Enfim, a gente finge que gosta delas e elas fingem que acreditam.

As canhotas são as ninfetas de esquerda. Pseudo-revolucionárias, integram uma categoria em franca expansão nas metrópoles. Fenômeno recente e típico de locais com alta densidade demográfica, elas pregam o socialismo enquanto esperam o táxi na porta da faculdade particular e escrevem sobre desigualdade social no quarto com ar-condicionado e internet banda larga. Comem no restaurante vegetariano que custa o dobro do prato-feito que você frequenta quase todos os dias, mas não resistem a um crepe. Doce e salgado. Quando encontram um tiozinho que as leva a sério, se apaixonam. Quando encontram um tiozinho que não as leva a sério, se apaixonam. Via de regra, as ninfetas canhotas são um charme justamente por conta de todo esse contraste discursivo. Parcela crescente de canhotas eventualmente se torna lésbica a médio prazo.

As ninfetas gatorade conquistam pelo excesso de energia. Uma energia que há muito a gente não encontra. Você começa a achar engraçado, porque já nem lembra mais como é passar um final de semana como se fosse o último. Para essas gurias energéticas, parece que todo final de semana é o último. Se deixar, elas querem ir para a praia, bar, discoteca, cinema, teatro, show e casa dos amigos. No mesmo dia. A médio prazo, você percebe que elas têm energia demais e elas percebem que você tem de menos, então cada um segue seu caminho sem ressentimentos. Às vezes pedem dinheiro emprestado para a balada, mas na verdade é para pagar o motel com um pocotó que passa duas horas por dia na academia e não tem emprego.

As ninfetas assassinas são aquelas mulheres que lembram você. Não a você de hoje, mas a você que aprendemos a amar, antes de mudar tanto e se transformar numa criatura que a gente não reconhece mais, sequer nas mais simples atitudes cotidianas. As ninfetas assassinas são as mais temidas porque elas, sim, colocam em risco qualquer casamento. Assassinam qualquer tentativa de reconciliação a curto e a médio prazo. Elas costumam mostrar como a vida é tão mais simples e que na verdade a gente não precisa de jantares caros, presentes descolados, roupas de moda e amigos “inteligentes” para conversar (em casa) enquanto se abre uma garrafa de vinho cujo valor é o mesmo da feira do mês inteiro.

Quando elas saem com aqueles vestidos esvoaçantes ou aquelas saias até o pé, essas ninfetas matam a sangue frio qualquer auto-tentativa de contenção que você, com a largura da careca e o peso da pança, ache que precise ter a esta altura da vida.

Afinal, por que as mulheres amadurecem e passam a se vestir feito homem? Esquecem todos aqueles feitiços, todos aqueles vestidos. Enquanto as ninfetas assassinas pensam em descobrir o mundo, você pensa naquelas mãos miúdas a coçar sua barba. E explica um pouco do mundo lá fora para elas.

Sim, porque elas querem mudar o mundo. E você também já quis, aliás.

É totalmente ridículo um careca-buchudo acompanhado de uma ninfeta. Mas talvez seja totalmente inútil explicar isso às mulheres quando um careca-buchudo chega em casa e não precisa mais responder se pagou a conta de luz, se fez a feira, se bebeu, com quem estava, que horas vai voltar para casa amanhã e quando vai comprar roupa nova – tudo isso antes mesmo de fechar a porta de casa ao chegar.

No fim, o máximo que um careca-buchudo pode deixar de conselho para as ninfetas é algo bem simples: aproveitem. Seja você burrinha, canhota, gatorade ou assassina, aprenda enquanto você não chega no mesmo estágio da sua vítima, enquanto não começa a reclamar de que o restaurante parece uma espelunca, o hotel é uma pocilga, fulana é uma sirigaita, bebida engorda e hoje à noite você não pode sair porque só tem oito calças e doze pares de sapato para escolher e já usou todos na última semana.

______________________

CRÔNICAS RELACIONADAS

  • Pequenas burguesas, grandes afeições (2007)
  • Queremos nossas mulheres de volta (2007)
  • Sociedade bundalizada (2005)
  • Mulheres de 30 (2001)