A lágrima masculina

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Paulo Rebêlo |   abril 2009

Homens também choram. Nem sempre pelos motivos mais nobres, é verdade. Mas nem por isso podemos desvalorizar cada gota de lágrima a escorrer pela barba.

Há nove anos, quando o Sport Recife perdeu de virada para o Palmeiras o inédito título da Copa dos Campeões, faltou saliva para engolir. Era o ano 2000 no estádio Rei Pelé em Maceió. Sentado no alambrado, de olhos marejados, subi as mãos à cabeça diante de tamanha desgraça de uma vida inteira. E por um minuto hesitei. Vi um marmanjo de 1,95m a chorar. Minutos atrás, imaginei que aquele cidadão fosse invadir o campo, puxar uma pistola da cintura e atirar a esmo, tamanha a brutalidade durante os 90 minutos anteriores.

Deitado sob o colo de uma senhora, provavelmente a senhora sua mãe, o brutamontes chorava. Copiosamente.

 

Pior do que chorar é consolar.

Ao passar a mão na cabeça da cria, ouvi a senhora lamentar: meu filho, não chore. Próximo ano tem mais, a gente vem de novo.

Quem chorou por dentro fui eu. Não é preciso ser vidente para saber. Próximo ano não existe, assim como não existe o amanhã e como não existiu outra partida tão decisiva no Rei Pelé – para onde caravanas de incrédulos foram às pressas e voltaram de madrugada, sob torrencial chuva e sem enxergar um palmo a frente, para trabalhar logo cedo no mesmo dia.

Se não adianta voltar, talvez não adiante esperar quem não pretende voltar. E sempre acreditamos nunca existir ninguém parecido a quem foi embora. Talvez porque realmente não haja. Talvez porque não queiramos admitir que exista.

Um ano depois, estive ao lado de uma dúzia de marmanjos aos prantos. Em pleno estádio Fonte Nova, em Salvador, o mesmo Sport perdeu o título da Copa do Nordeste para o Bahia após uma brilhante campanha em 2001. Uns choravam da derrota, outros choravam do prejuízo financeiro por nada.

Haveria eu enfrentado dez horas de estrada, madrugada adentro, me livrado de dois acidentes fatais na estrada com caminhoneiros sonolentos, me perdido em Salvador e entrado sem querer dentro de uma favela, voltado no mesmo dia para casa com fome e derrotado, tudo isso por amor a um time ou para provar que homens também choram?

Vamos todos embora –

Em 2003, sob a doce ilusão de não olhar para amores passados, amanheci bêbado no terraço de casa, como de costume. Sequer havia um pacote de torradas na geladeira. Mas considerava-me um homem feliz, pois sabia que bastava atravessar a rua, andar poucos metros e tomar café-da-manhã naquela bodega onde me sentia em casa, onde há tantos anos me acolhiam com café forte, caldinho de cebola e pão na chapa com manteiga.

Ao atravessar a rua, olhei para os combogós na parede do bar e estava tudo escuro. A porta estava fechada. Abandonaram-me sem deixar sequer um recado na parede. O dia estava para amanhecer e esperei por horas a fio sentado no meio-fio.

Até o dono do fiteiro da esquina finalmente chegar e contar o que realmente acontecera, enquanto me cedia um pacote de biscoito Gufs e uma latinha de Brahma para o desjejum.

Ele tentou me tranquilizar, garantiu minha credibilidade na praça ao aceitar abrir um fiado para mim. Eu poderia fazer escambo no fiteiro quantas vezes quisesse, comer e beber, pagar uma vez por mês, pagar quando quiser, pagar quando puder.

E naquele instante demente, lembrei da senhora dizendo ‘meu filho, próximo ano tem mais e a gente vem de novo‘. E ali de frente ao fiteiro, senti meia gota de lágrima escorrer pela remela do meu olho esquerdo, ainda vermelho, da lembrança daquela noite em teus seios.

Eu poderia levar cafeteira, comprar cebolas na feira, alugar uma chapa brejeira. O caldo de cebola não seria o mesmo, o café não teria aquele gosto de torresmo. Nada seria como antes.

Parei o entregador de água mineral que vinha de bicicleta pela rua retornando ao depósito, coloquei meu fiado em ação, troquei dois pacotes de biscoito Gufs e uma latinha de Brahma na caneta azul e no pedaço de papel que ele sempre carregava. Ferramentas essenciais para calcular o troco das madames que nunca deixavam centavos passar em branco.

Havia ainda duas folhas. Encostado na parede do fiteiro, rabisquei as idéias centrais de Rapsódia da Separação enquanto uma segunda lágrima parecia escorrer, desta vez pelo olho direito, embora o dono do fiteiro tenha me assegurado ser apenas um cisco. Ventava muito naquele dia, talvez até os céus estivessem engolindo o choro.

Ainda hoje, seis anos depois, duas lágrimas contidas descem pela remela ocular sempre quando lembro daquelas parcas linhas escritas sob a calçada, com tantas lembranças carregadas.

Garçons –

Em 2009, parei na cantina que também foi minha segunda casa durante tantos anos, naquele fantasmagórico centro da cidade com aquele fantasmagórico bife à parmegiana às três horas da manhã. Bêbado e esfomeado como de costume, percebi que o álcool começava a evaporar do meu sangue. Algo estava errado.

Por quase dez anos, o mesmo garçom sempre me serviu o parmegiana do exato mesmo jeito, com o exato mesmo gosto, com o pedaço do exato mesmo tamanho e com as exatas mesmas poucas palavras. Quando eu chegava à noite, era ele que trocava de canal na televisão para sintonizar o Jornal Nacional. Se fosse de madrugada, ele ligava a TV e sintonizava no Corujão. Por quase dez anos, do pouco que aquele garçom falava, lembro do seu desejo de regressar à cidade natal, no interior de Pernambuco, para abrir seu próprio negócio e deixar de ser empregado.

Por quase dez anos, eu varei madrugadas naquela cantina me questionando sobre a vontade daquele garçom. Sempre procurei entender porque as pessoas vão embora, mas queria muito conseguir entender por que elas não voltam. Naquele dia, soube que ele havia enfim regressado e não estava mais entre nós. Abriu um restaurante em sua cidadezinha e certamente não voltará nunca mais.

Quando meu parmegiana enfim chegou, o ovo não estava cozido no ponto certo, a quantidade de purê não estava proporcional à quantidade de espaguete. Por uma fração de segundos, pude jurar ter visto uma lágrima escorrer em cima da gema mole daquele ovo por cima do filé. Mas talvez tenha sido o molho.

E os homens choram, pelos seus times, pelos seus bares, pelas suas cidades, pelos seus garçons e pelas suas mulheres.

Quando em 1987 a música Garçom ganhou o Brasil na voz de Reginaldo Rossi, ninguém imaginava que a letra havia surgido de verídicas lágrimas masculinas, quando o rei mostrou em canção a dor de todo homem comum que chora ao receber a carta com o convite de casamento da mulher amada.

Nenhum homem passa incólume ao casamento delas. O tempo passa, as lágrimas se transformam em cisco, que se transformam em esperanças e depois em meras lembranças. E quando o primeiro filho (dela) está para nascer, você tem vontade de pegar o telefone e dizer que está tudo errado, não é assim, que aquele filho deveria ser seu. É quando cai a ficha e você percebe que não consegue deixar para trás aquele café com gosto de torresmo e aquele caldinho frio de cebola.

Mas ao passar a mão no rosto, as lágrimas não estão mais lá. E a gente fica sem saber se deveria chorar pela mulher amada que deixou passar; ou se deveria parar outro entregador de água mineral e pedir mais uma caneta e duas folhas de papel para escrever que homens também choram.

Nem sempre pelos motivos mais nobres, é verdade.

Mas sempre pelos motivos mais sinceros.

 

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