Extra-terrestre não salva o planeta

Cinema // Efeitos especiais demais e contéudo de menos marcam o remake de O dia em que a Terra parou

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco

09.janeiro.2009

Passados os 103 minutos de O dia em que a Terra parou (The day the Earth stood still, EUA, 2008), estréia nacional desta sexta-feira nos cinemas, pelo menos uma pergunta ficará em aberto: “será que falta muito para assistirmos ao dia em que Hollywood vai parar (de fazer remakes)? A resposta é conhecida. Refilmagem nunca foi um forte dos estúdios e agora não é diferente. O remake do clássico de 1951 chega com um mês de atraso no Brasil, depois de ter sido lançado no dia 12 de dezembro nos Estados Unidos.

A atualização para os tempos modernos inclui efeitos especiais de encher os olhos do início ao fim, além de temáticas em moda como meio ambiente e arrogância (ou ignorância) do governo americano. Por outro lado, perdeu em interpretação e, sobretudo, em conteúdo.

Sem qualquer expressão e de caráter visivelmente hostil – exatamente o inverso do personagem de 1951 – Keanu Reeves é Klaatu, o extra-terrestre que chega ao planeta trazendo uma mensagem “muito importante para todas as nações”, mas resolve aterrisar em Nova Iorque. Os humanos estão colocando em risco a própria sobrevivência e, por tabela, das demais espécies. Se nada for feito, o próprio Klaatu e seu parceiro-robô-gigante Gort (outro personagem completamente deturpado no remake) precisam dar um fim concreto à Terra.

Entre a ignorância da população, a arrogância do governo e a “ingenuidade” dos militares, temos a médica Helen Benson (Jennifer Connely), a única que consegue estabelecer um melhor “contato” com Klaatu e tentar convencê-lo de que os seres humanos podem cuidar melhor do planeta e, assim, evitar a destruição.

O dia em que a Terra parou original é considerado um dos melhores filmes de ficção científica já feitos, apesar de todas as limitações técnicas da época. No remake, contudo, não há licenças poéticas suficientes como respaldo para mudanças tão significativas. As diferenças podem ser vistas desde os primeiros minutos e, em tese, poderiam ser bem-vindas como artifício para tornar ofilme mais didático e acessível às massas. Afinal, o original de 1951 também deixou de lado diversas passagens do conto Farewell to the master, de Harry Bates, pelo qual o filme é baseado. Não é o que acontece, contudo.

Para quem nunca assistiu ao original, o filme de 2008 pode até se tornar uma diversão razoável, ainda mais por conta dos efeitos especiais. Mas não há como conter o sentimento de que há várias lacunas a ser preenchidas e uma aguda falta de coesão entre a missão de Klaatu e como ele se comporta ao chegar à Terra.

Klaatu é uma espécie de relações públicas das civilizações espaciais, com super poderes e sem conhecimento algum sobre como as coisas funcionam por aqui. No entanto, bem diferente do original, Klaatu não demonstra interesse algum em aprender como as pessoas convivem e se relacionam. É desprovido de curiosidade e de sentido.

Mais ainda, torna-se um ameaça, a exemplo do robô Gort, que agora ganha uma roupagem maquiavélica e secundária. É a principal – e fatal – falha do remake: falta desenvolvimento aos personagens centrais e de como as pequenezas humanas são uma grande incógnita para um extra-terrestre em missão de paz, mas que é recebido à bala logo que desembarca nos Estados Unidos.

Na dúvida, fique com o original

Bons filmes sobrevivem ao tempo. O Dia Em Que a Terra Parou (EUA, 1951) é um dos melhores exemplos de como um bom roteiro e uma boa direção não apenas sobrevivem ao teste do tempo, como, também, podem reverter deficiências interpretativas. Disponível nas locadoras em versões originais e restauradas – ambas em preto e branco – um dos maiores clássicos de ficção científica consegue prender a atenção do espectador até o minuto final. E diferentemente do remake estrelado por Keanu Reeves e Jennifer Connely, é difícil prever o desenrolar da missão de paz do extra-terrestre Klaatu e seu robô Gort.

O próprio Gort é peça fundamental desperdiçada no remake. Enquanto o Gort de hoje é totalmente digital, em 1951 não havia sequer um “efeito caseiro” para deixá-lo com suas formas agigantadas. Para atuar como Gort, o escalado Lock Martin (1916-1959). precisou apenas da roupa. O ator tinha 2,31m de altura, mais do que suficiente para impor respeito por trás de um visor robótico.

O Klaatu interpretado pelo célebre Michael Rennie (1909-1971) é um primor. No auge da Guerra Fria, Klaatu não entende a histeria dos americanos em relação aos irmãos soviéticos e a decorrente corrida armamentista. Em uma das cenas mais curiosas, a dona-de-casa abre o jornal e diz para Klaatu: “não acredito nessa história de extra-terrestre vindo de outro planeta, ele vem você sabem muito bem de onde…”, em alusão aos soviéticos. Klaatu solta um riso enigmático.

O Klaatu de 2008 não se expressa, não sorri. O Klaatu de 1951 quer saber como o planeta funciona, o que as pessoas acham e como vão reagir ao “novo”. Quer se misturar, sem perder o foco de sua missão. Tudo isto em apenas 92 minutos (há versões cortadas de menor duração), menos do que o remake de 2008. E por fim, para os fãs do original, não há pecado maior do que não incluir a célebre ordem “Klaatu barada niktu” para Gort. Ao contrário do original, no remake ela só é dita no início do filme apenas para satisfazer os fãs de boa memória, já que não há gancho algum. Foi pior. (P.R.)

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