Encaixotando dezembro

Enquanto muita gente passa o mês de dezembro fazendo listas de tarefas para o próximo ano, eu só consigo pensar nas malditas caixinhas de Natal. Quem inventou essa desgraça?

Na maioria dos lugares onde penduram a caixinha, o pessoal recebe 13º salário. Eu não recebo 13º há muito tempo e ainda preciso colaborar para o chester alheio?

Todo ano penso em fazer uma caixinha só para mim. E pendurá-la no pescoço. Na barriga eu penduro uma placa com letras verde-limão “eu não recebo 13º, por favor colabore”. Nas costas poderia pendurar uma cópia da minha carteira de trabalho.

Desisti da idéia porque vi que não dá para lutar contra a concorrência.

Nos últimos seis meses, quase todo dia tomo café da manhã na mesma padaria ao lado de casa e levo moedinhas contadas para os R$ 2,50 do pão com queijo na chapa. Nos últimos seis dias, além de ouvir um sonoro bom dia (detesto), os dois rapazes da chapa ainda fazem questão de dizer que capricharam no queijo. Claro, de frente para mim tem uma caixinha de Natal.

Vou com minhas moedinhas contadas até o caixa. Lá tem outra caixinha. Como se a gente fosse um porquinho de madeira que todo mês de dezembro alguém quebra e caem moedas para a caixinha dos outros.

Saio da padaria me escondendo nas pilastras, tentando me misturar às poucas pessoas que circulam por ali. Porque quando o flanelinha me vê, ele vem correndo pedindo a caixinha do Natal. Tem dia que ele está do outro lado da galeria, mas quando dou ré no carro e engato a primeira, ele aparece de frente ao pára-brisa. É quase a Bruxa de Blair.

– Cadê a caixinha, meu patrão?

Certo dia rodei a galeria inteira, contornei o estacionamento todinho e por pouco não entrei no carro pelo porta-malas. Consegui despistá-lo, mas no dia seguinte ele veio perguntar se eu estava saindo com mulher casada; porque dia desses me viu escondido atrás de um arbusto no estacionamento.

Mas que caixinha, criatura de Deus? O flanelinha vem me pedir caixinha sem ter sequer uma caixa nas mãos. Ontem, lá estava ele indicando as vagas do estacionamento com uma caixinha pendurada no pescoço por um fio de nylon.

Quando vou de ônibus, o problema não é a caixinha do cobrador. É a caixinha da portaria aqui do edifício, onde obrigatoriamente tenho de passar se não for para a garagem. Escuto outro sonoro bom dia e curiosamente nenhum dos porteiros olha para mim quando dão bom dia. Eles olham para a caixinha de Natal.

Para chegar na sala comercial onde eu finjo que trabalho, preciso percorrer um corredor inteiro de shopping com 22 lojas. São 22 caixinhas de Natal, de todos os tamanhos, cores e estilos. Algumas penduradas no vidro, outras na bancada.

Antes de pegar o elevador para enfim chegar à tranquilidade de minha mesa, passo de frente a outra portaria com duas recepcionistas e, entre elas, uma caixinha de Natal. Depois tem o segurança que confere os crachás de visitantes e funcionários, sem nunca esquecer de conferir quem está contribuindo para a caixinha deles também.

Já sentado de frente ao teclado, tento não olhar para os lados com medo de encontrar novas caixinhas dos colegas de trabalho. Quem sabe? Estou com medo de ir até a copa da empresa para beber água e encontrar a caixinha da secretária. Estou quase usando o banheiro coletivo do shopping, porque daqui a pouco o banheiro da empresa vai ter alguma caixinha de Natal pendurada no espelho. Da moça da limpeza.

Não sei mais onde almoçar, porque todos os restaurantes tem caixinhas e agora virou moda ter duas caixinhas de Natal em cada estabelecimento. Uma para os funcionários de atendimento e outra para a turma da cozinha.

Não posso mais comprar minha casquinha de sorvete de quiosque, porque teria que abrir mão das outras moedinhas contadas para colocar na caixinha do Ronald McDonald.

Fim do expediente, segurança e recepcionistas lançam olhares maquiavélicos para mim. Eles devem saber que não coloquei nada na caixinha até hoje.

Nos três bares perto de casa (praticamente meu quintal) o garçom nem lembra mais da gorjeta ou dos 10%. Agora só quer saber da caixinha de Natal e garante que aquela cerveja foi a mais gelada da noite, foi a especial, guardada exclusivamente para mim que sou um cliente fiel. Sei.

Desisto de jantar na rua e peço uma pizza em casa. Sequer abro a porta do muquifo e lá me vem o cara da pizza falar em caixinha de Natal.

Vai ver tenho cara de papai noel? Deve ser o perfil. Baixinho, barrigudo e barbudo, com fios brancos começando a surgir no hirsuto horizonte capilar. Vou comprar um saco de presente. Até porque o meu saco já está no limite.

Fico pensando se existe caixinha de Natal no baixo meretrício. Tipo, se a gente pagar uma moça joiada para nos fazer uma massagem tailandesa com final feliz, será que elas vão pedir um adicional para a caixinha de Natal? E se o cafetão também tiver uma caixinha de Natal, vamos ficar marcados para o resto da vida se não colaborar? Se a gente colaborar com a caixinha de Natal agora em dezembro, dá para pedir desconto em janeiro?

Já entrei em táxi com caixinha de Natal. Fiquei sem entender, em dezembro os caras só rodam em Bandeira 2 e ainda querem uma caixinha de Natal de nós mequetrefes.

Se todo mundo é agraciado com o espírito natalino em dezembro, ao menos uma meia dúzia de mulheres bonitas podia finalmente nos pagar uma cerveja no after hours. Oras, elas passam o ano inteiro esnobando. Na falta de uma caixinha de Natal bem que poderiam abrir a caixinha delas para nós.

Mas sem o bom dia quando acordar, por favor.

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link no Terra Magazine

1 comments On Encaixotando dezembro

  • Aliás, mulheres bonitas poderiam nos pagar cervejas no afetr hours a cada mês de dezembro. Curioso esse negócio da caixinha de Natal, não existe isso aqui no RS (graças a Deus).

    R$ 2,50 por um pão com queijo na chapa? Razoável hem?

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