Quando comer vira doença

capa DP - 01.março.2009Para um comedor compulsivo, parar é um processo complicado. Frequentadores de um grupo de ajuda contam suas dores e experiências à mesa.

Paulo Rebêlo
Diario de Pernambuco

01.março.2008

Lucélia Maria não resiste aos doces e às massas. Ela não sabe quando parar. Mesmo quando não tem fome. Depois do jantar, a família inteira se levanta, mas ela só sai da mesa quando termina a última fatia do bolo. “Quando como apenas uma ou duas fatias, é uma vitória. Se deixarem na minha frente, como o bolo inteiro, qualquer dia, qualquer hora”, confessa.

Para controlar o peso, Maria Cláudia cozinha e guarda a comida congelada em pequenos potes. Cada pote tem o suficiente para uma refeição. Dois dias antes de conversar com a reportagem do Diario, admitiu ter olhado para o pote na hora do almoço e pensado: “só vou comer isso hoje? É tão pouco!”. Comeu o triplo do que deveria e passou o resto do dia com sentimento de culpa. Encarou como uma derrota de vida.

Lucélia e Maria Cláudia, nomes falsos a pedido das personagens, são comedoras compulsivas anônimas e se reúnem duas vezes por semana no Recife. Juntam-se a várias outras pessoas, de todas as classes sociais. Homens, mulheres, gordos, magros, eles compartilham medos e angústias, dividem experiências e, principalmente, ajudam uns aos outros na longa batalha contra a compulsão.

O anonimato, contudo, está longe de ser um esconderijo. Elas dizem o próprio nome, falam de como encaram a própria vida, das consultas médicas, das dietas que não funcionam, do remorso, do receio de participar das reuniões semanais quando “perdem a batalha contra a compulsão”. O anonimato nesta reportagem é apenas uma regra pela qual a irmandade dos Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) segue, baseada nos preceitos aplicados em todo o Brasil.flip132

Qualquer pessoa pode participar das reuniões do CCA. Não há mensalidades ou requisitos. “A única exigência é ter vontade de mudar”, como bem explica Ana Maria, uma das coordenadoras. Embora a compulsão seja automaticamente relacionada às pessoas de sobrepeso, engana-se quem imagina que apenas os gordinhos frequentam.

É o caso do magrinho João Bruno. “Meu problema é clínico, sou compulsivo por jogo. E quando não consigo me controlar, fico com remorso e desconto na comida. Se não fosse a ajuda do CCA, estaria em situação muito pior”, acredita Bruno, que também coordena uma irmandade sobre jogadores compulsivos.

A endocrinologista Jaqueline Araújo reforça a idéia de que as chamadas terapias cognitivas comportamentais podem ser muito úteis, é verdade, porém não se pode esquecer a necessidade de também haver acompanhamento profissional. “95% das pessoas que procuram médicos (para emagrecer) conseguem perder peso, mas apenas 5% conseguem manter o peso depois de certo tempo”, explica, confirmando o alto índice de desistências de grupos de acompanhamento e dos tratamentos médicos.

Os doze passos para alcançar a cura

flip133Dinheiro, fama e sucesso não significam nada se você não pode controlar a si própria. A frase é quase um mantra para a apresentadora norte-americana Oprah Winfrey. Não apenas em seu programa de auditório – o mais popular no mundo – mas, também, quando participa de entrevistas ou fala para a audiência na TV.

Sempre na luta contra a balança e divulgando seus inúmeros planos de dieta e exercícios para perder peso, Oprah aproveita a própria fama para tentar abrir os olhos de todas as mulheres (e homens também…) para os perigos físicos e psicológicos da compulsividade por comida. Em menor escala e sem a devida popularidade, porém com objetivo idêntico, a batalha contra a compulsividade gastronômica é encarada sem medo pelos frequentadores dos Comedores Compulsivos Anônimos (CCA) no Recife.

A proposta do CCA é oferecer apoio e recuperação para quem tem problemas de obesidade, anorexia, bulimia ou obsessão por dietas e imagem corporal. O grupo tem um longo histórico no Brasil e no mundo. Não à toa, segue a fórmulados doze passos que ficou famosa pela credibilidade dos Alcoólicos Anônimos.

Em Boa Viagem, no local onde funciona o CCA, além de reuniões do AA também há reuniões dos Narcóticos Anônimos (NA). Todos admitem a dificuldade em seguir a fórmula, mas em uníssono reforçam: é preciso dar o primeiro passo. A coordenadora Ana Maria, por exemplo, frequenta as reuniões há seis anos. “Já estive vinte quilos mais gorda do que hoje. Já fui bem mais magra do que sou agora. Tive várias recaídas. E sempre me arrependo quando paro de frequentar as reuniões. Só quem participa entende o CCA faz bem”, garante.

Ana Maria admite não gostar de ser gorda, não por razões estéticas. “Na adolescência eu queria ser magra para paquerar, para usar o biquini da moda. Hoje é uma questão de saúde, de viver bem”, explica. Maria Helena, outra coordenadora do grupo, frisa as diferenças do CCA. “Aqui a gente não tem fórmula milagrosa de dieta ou exercícios. Não é tabela de peso ou de alimentos, comparar o quanto cada um emagreceu. Pelo contrário, é reconhecer que você precisa parar de comer em excesso, ter força de vontade para controlar sua própria vida”, ensina.

Como em qualquer outra irmandade, as reuniões podem causar timidez para os novatos. Mas basta a primeira pessoa levantar a mão e pedir a palavra. João Pedro, um dos comedores compulsivos anônimos, reconhece a dificuldade eventual de ir às reuniões. “Mas quando a gente perde a vontade de vir, é quando mais precisamos do CCA”, define, ao final da reunião visitada pelo Diario.

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